A CHINA QUEBROU A CASCA…

…e saiu para o exterior

 

03 de Novembro de 2006!...

 

 

I

 

Em 03 de Novembro de 2006, iniciou-se em Pequim a primeira CIMEIRA CHINA-ÁFRICA. A China e 44 países africanos sob o mesmo tecto, chinês.

 

II

 

Este dia representará para a história dos próximos séculos o mesmo que o dobrar do Cabo da Boa Esperança representou para a história dos últimos – uma viragem fundamental e decisiva para um novo status do mundo.

 

Em 03 de Novembro de 2006, a China deu um vigoroso pontapé na sua milenar política de isolamento territorial.

 

Mostrou, avançando abertamente e com firmeza para África, que o domínio do mundo pelo Ocidente está a caminhar para o ocaso. Com este passo, iniciou o processo para fazer da Rússia uma potência regional, do islamismo um “ fait divers ”, da Europa uma relíquia do passado e posicionou-se para disputar, com os Estados Unidos, num futuro não muito longínquo, a linha da frente.

 

Vai longe o tempo em que o seu receio da URSS a levou à “política da terceira linha”! Isto é, a preparar-se para se refugiar no interior.

 

Em cinquenta anos, a China passou de um país que temia a um país com disposição para afrontar o mundo.

 

III

 

A China encontra-se em face da necessidade imperiosa de fornecer rapidamente à sua população mais desfavorecida, perto de mil milhões de pessoas, mais comida, mais roupa, mais casas ou melhores casas, a possibilidade de educação dos filhos e empregos que assegurem a realização destes anseios. O recente desenvolvimento capitalista chinês beneficia, para já, uma pequena parcela da sua população; a maior parte desta – os ainda não incluídos nos benefícios do desenvolvimento – começa a dar sinais evidentes de insatisfação e, mais do que isto, de impaciência.

 

Aos dirigentes já não basta dizer que a vida vai melhorar – o povo mais pobre (mil milhões) exige que todos recebam algum calor do sol que desponta.

 

O governo chinês ainda domina a situação mas não pode descuidar-se na tarefa gigantesca de dar a todo o povo sinais concretos de que a sua vida está a mudar; tem que correr mais depressa do que a impaciência do povo desfavorecido!

É certo que o governo chinês tem as rédeas firmemente seguras, mas também é certo que as rédeas de pouco servem quando o cavalo toma o freio nos dentes. E isso já aconteceu mais que uma vez no passado!

 

Esperemos, é do interesse do mundo, que o governo chinês ganhe essa corrida. Mas também é do interesse do mundo, que o China se não torne o poder hegemónico.

 

IV

 

Para manter a estabilidade interna, o governo chinês tem que dar resposta aos anseios de todo o seu povo e acalmar a onda de insatisfação que começa a varrer a China.

 

E só há uma via – desenvolvimento, mas, desenvolvimento seguro exige mais terra arável e mais petróleo e mais espaço que não seja deserto ou montanha.

 

Para satisfazer estas necessidades, a China tem de, imperativamente, romper com a sua política milenar de isolamento territorial e avançar decididamente para o exterior. E, actualmente, só há um espaço à dimensão das suas necessidades e, ao mesmo tempo, maduro para ser tomado – a África.

 

A China vai “colonizar” a África.

 

Em 03 de Novembro, a China disse ao mundo que dobrou o seu Cabo da Boa Esperança. Temo que o mundo não tenha entendido a mensagem, que, por sinal, nem está em código!

 

V

 

E, curiosa coincidência, a África precisa de uma mão forte para vencer a sida e para se desenvolver com estabilidade, trabalho árduo, instrução e investimento e…daqui a algumas (nalguns casos, muitas) dezenas de anos, talvez democracia devidamente estruturada. Muitos dirigentes africanos, não todos, precisam, no interesse dos seus próprios povos, de um tutor que, com mão firme, os contenha nos seus desvarios e os ajude nas suas incompetências.

 

A África precisa de recuperar de uma descolonização feita, pelos europeus e pelos seus próprios líderes, com algum coração e muito pouca cabeça, e, em muitos casos, de um longo domínio de governantes, incompetentes e, ou, sem escrúpulos.

 

A China aparece em África para resolver os seus próprios problemas. Esperemos que tenha sabedoria bastante para estabelecer um justo equilíbrio com os interesses dos povos africanos.

 

 

15 de Novembro de 2006

 

 

J. Vicente Pinto

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