A MINISTRA DA EDUCAÇÃO

Não matemos a esperança!

 

I

 

Em 1951 visitei um amigo, professor de português no ensino técnico

 

A certa altura, como era inevitável, a conversa caiu sobre ensino e ele referiu-me, com entusiasmo, a renovação que estava em curso; não me lembro já se falou de equipamentos, de programas ou de pedagogia, de professores ou de alunos..

 

Certamente falou de tudo um pouco…

 

… Falou-me de jornais de parede, julgo que uma novidade na época, e mostrou-me vários que os seus alunos – dez a treze anos – tinham realizado. Textos e desenhos eram, de uma maneira geral, muito interessantes, mas reparei que havia erros de ortografia.

 

Chamei-lhe a atenção para o facto; respondeu-me que havia novas ideias, e instruções para não corrigir esses erros pois isso iria (não garanto que as palavras tenham sido estas, o sentido, sim) frustrar ou criar complexos aos pequenos autores, além de lhes coarctar a espontaneidade...

 

Não fiz comentários, mas temi o pior.

 

Creio que começou por esta época a deterioração do ensino básico/secundário no nosso país, primeiro muito lentamente, depois com aceleração crescente. Nos cinquenta anos que passaram a tendência foi sempre para pior ainda que seguindo uma linha sinusoidal.

 

II

 

Em 1971, afirmei publicamente na qualidade de director-geral de uma grande empresa industrial, em discurso dirigido ao Presidente da Republica e membros do governo, que a má a qualidade do ensino era uma das grandes causas do nosso atraso económico. Digo isto para mostrar que o problema não é de agora

 

Em 1972/73 e 1973/74 (?) fui membro e, no último ano, presidente da direcção de uma das primeiras associações de pais, a do Liceu Padre António Vieira. E digo isto para que fique claro que já há muitos anos considero que os pais tem um papel importante na educação e na aprendizagem escolar dos filhos

 

III

 

Tenho acompanhado com atenção, muito interesse e crescente preocupação, a gradual degradação do desempenho do ensino básico/secundário, degradação global mas que assenta, mais do que em qualquer outra causa, no abismo em que caiu o ensino dos quatro primeiros anos de escolaridade que pela sua deficiência pouco ensina e pela sua prática incute nos alunos a preguiça, a recusa para fazerem o mais insignificante esforço e a interiorização de que a escola é, pura e simplesmente, o local do exercício dos seus direitos de gozo.

 

A “escola primária”não só não promove a aprendizagem básica necessária para um bom desempenho escolar nos anos seguintes, como imprime nos alunos uma educação para a fruição que os incapacita para qualquer esforço sério no futuro.

Tudo isto justificado por uma pedagogia de sarjeta prégada por autênticos criminosos, inconscientes travestidos de “cientistas” da educação.

 

Tenho visto um ministério cada vez mais anquilosado , dominando por grupos que só estão unidos na defesa dos seus feudos e que conseguem escapar ao controle do ministro, quer se trate de maus ministros quer de ministros que, em princípio, seriam potencialmente capazes. Grupos que não defendem nem o ensino nem os professores que estão nas escolas; grupos cujos mentores parecem ter como objectivo principal neutralizar o ministro e afirmar o seu domínio.

 

Tenho visto

 

sindicatos cada vez mais corporativos, fingindo afanosamente que estão a desempenhar uma função útil de defensores dos professores e do ensino;

 

pedagogos e psicólogos a levantarem-se, depois de cada insucesso, mais activos e ousados e

 

sucessivos ministros da Educação, com algumas, poucas, excepções, sem força para enfrentarem a tarefa cada vez mais gigantesca que tem pela frente.

 

Os produtos do ensino são, cada ano que passa, de pior qualidade.

 

IV

 

Antes de prosseguir considero necessário fazer uma clarificação sobre o que acabo de dizer, não vá concluir-se que penso que a fruta está toda podre.

 

Considero que os professores de má qualidade – mal preparados, preguiçosos, não empenhados, sem nenhuma vocação para a tarefa que lhes incumbe, deformados por ideias pedagógicas inadequadas, mentalmente perturbados, com uma mentalidade laxista , com malformações de personalidade, etc., etc. – ainda não são a maioria e que alguns poderão ser recuperados.

 

Considero que o pessoal auxiliar e administrativo de má qualidade também não será a maioria.

 

Estes grupos de má qualidade podem ser corrigidos se houver vontade do ministro, colaboração, ou, pelo menos, não obstrução, do Ministério e competência e firmeza dos órgãos de gestão das escolas.

 

Temos depois a outra face da moeda:. Os alunos e os pais dos alunos.

 

Quanto aos alunos, há uma minoria de bons e excelentes alunos e uma minoria de maus e péssimos alunos. E entre estes dois extremos uma massa com uma larga gama de capacidades e um leque variado de personalidades, cujo grande handicap é estarem a ser educados para os direitos e para a fruição, desconhecendo o que seja esforço e deveres.

 

Quanto aos alunos com entorses de personalidade ou deficiências de educação ou resultantes do meio em que vivem também não são a maioria .

 

Os pais incompetentes para exerceram as funções de educadores são muitos, não sei se serão a maioria ,: uns por comodismo, outros por puro egoísmo, alguns por ileteracia , a maior parte por incerteza sobre qual a maneira adequada de educar.

 

Num mundo em que os meios de comunicação social têm cada vez mais influência na formação das crianças e dos jovens e, o papel dos pais é cada vez mais difícil.

 

Submetidos aos psicólogos e aos pedagogos prégadores , muitos pais perderam todas as certezas no que respeita à educação dos filhos. E pais inseguros são uma ameaça mortal para qualquer sistema de educação.

 

Mas os pedagogos e afins continuam a perorar como se não tivessem nenhuma responsabilidade na situação miserável a que conduziram o ensino neste país.

 

Li, há tempos, o que um deles dizia (Revista XIS, de há cerca de um ano e meio): “É muito importante perceber que a escola não é só prazer! Neste capítulo devo dizer que faço uma autocrítica, porque todos nós durante algum tempo (em especial a seguir ao 25 de Abril) tivemos uma visão muito romântica da escola e defendemos que devia ser a escola dos afectos ”.

 

Esta autocrítica é meritória ainda que procure minimizar o “crime”. De facto, os alguns anos foram dezenas de anos.

 

Mas o que verdadeiramente me causou arrepios foi ver a paz de espírito com que o homem fez esta declaração e a naturalidade com que passou a defender no mesmo documento (uma entrevista) ideias contrárias às que antes defendia.

 

A sua acção passada não foi sem consequencias , mas continua a ser reverenciado por uma opinião pública bacoca e passa-culpas ..

 

Considero que o lixo, como disse, é minoritário. Mas não tenho dúvidas que o lixo minoritário interagindo entre si e com os parceiros sãos deste jogo colectivo conduziu o país para a desgraçada situação em nos encontramos: Uma escola sã é indispensável, ainda que não seja suficiente, para reconstruirmos o nosso futuro.

 

V

 

Tenho lido, visto e ouvido o que a ministra da Educação tem feito e dito e os projectos que até agora tem apresentado

 

Parece-me pessoa determinada, séria, com intenção de fazer e não de elaborar teorias, realista, que parte da realidade que temos para a solução dos problemas e estrangulamentos existentes, que compreendeu que as utopias do passado são inconsistentes e foram a causa da nossa desgraça actual, que a escola é, fundamentalmente, um local de aprendizagem e uma oportunidade para a formação do individuo como ser social, que os prémios e os castigos têm que graduados pelo desempenho.

 

Mas não sou cego! Não vejo só virtudes na senhora ministra. Vejo, também, erros e atitudes desajeitadas; mas isso, todos o sabemos , está sempre associado ao fazer. Quem faz, nunca faz tudo certo e, principalmente, nunca faz tudo certo para toda a gente.

 

Há também o perigo de a ministra ser dominada pelo ministério.

 

Aconteceu com outros, também pode acontecer com ela. E será dominada pelo ministério tanto mais facilmente quanto o ministério sentir que a ministra não tem o apoio do povo

 

VI

 

A Ministra diz que está disponível para ouvir

.

Devemos pô-la à prova, não calando as nossas críticas.

 

Mas a Ministra tem o direito de esperar que a tratemos, e à matéria que esteja em causa, com honestidade; que abordemos o fundamental e não nos agarremos ao acessório como se fosse caso de vida ou de morte, desviando a nossa atenção e a dos outros do que é vital para o país

 

Por mim, considero que estamos num tempo de esperança e que todos temos a obrigação de fazer tudo para não matar essa esperança...antes de lhe dar a oportunidade de florescer… ou morrer de morte natural.

 

 

 

 

11 de Junho de 2006

 

 

 

J. Vicente Pinto

 

 

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