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A
EVAPORAÇÃO DE SÓCRATES!
I
Na
semana passada, no dia 13, o advogado Sr. Dr. José Miguel Júdice,
defensor do Sr. Eng. Sócrates e apoiante das suas políticas,
escreveu no Público:
(sublinhados
e negritos, meus)
“Devem
os poderes resistir à pressão da rua ou devem ceder alguma
coisa aos movimentos populares inorgânicos?
Camionistas,
grevistas, fascistas?
…………………………………………………………………………………………………………………………………………
A
minha tese – como sempre devendo devendo ser assumida como hipótese
de trabalho e como base para reflexão sujeita ao contraditório
– é que esses movimentos que agora grassam pela Europa fora têm
algo de proto-fascista ; e também que por esse mundo fora existem
movimentos nacionalistas que são muito mais herdeiros (por mais
que o queiram recusar) do leninismo adaptado e alterado pelo fascismo
italiano do que qualquer outro tipo de inspiração ideológica.
E
é isto que torna muito difícil e complexo aos partidos do
arco constitucional reagir. Esta pequena burguesia trabalhadora
em cólera, unida aos seus trabalhadores num combate
contra o Estado , os partidos , os ricos , os
bancos , as companhias de distribuição de combustíveis
, os plutocratas , significa uma parte significativa com que
em tempos combatem entre si. Não podem, por isso, atacá-los,
mas não podem também deixá-los autonomizar-se.
O
Governo conseguiu desmobilizar este movimento com cedências
cirúrgicas . Globalmente,
acho que vai ganhar pontos com isso. Mas se as causas desencadeadoras
da mobilização se não alterarem, as confrontações
vão repetir-se e os sistemas políticos por essa Europa e
entre nós podem entrar numa crise que ninguém esperaria
neste século XXI que se julgava destinado à prosperidade.”
Não
tenho desejo, nem interesse, nem competência para assumir o contraditório,
mas tenho curiosidade suficiente para fazer algumas perguntas ao Senhor
Dr. Júdice.
1ª
Acha mesmo que foi uma onda fascista que se desabou sobre o Estado?
2ª
Acha mesmo que quinhentos pequenos empresários de transporte de
mercadorias são representativos da pequena burguesia trabalhadora
deste país?
3ª
Acha mesmo que os trabalhadores estiveram unidos a estes pequenos burgueses
rebelados contra o Estado?
4ª
Acha mesmo que estes pequenos burgueses trabalhadores estiveram em combate
contra o Estado (não seria contra o governo?), contra os partidos,
contra os ricos, contra os bancos, contra as companhias de distribuição
de combustíveis, contra os plutocratas?
5º
Acha mesmo que o governo conseguiu desmobilizar este movimento com
cedências cirúrgicas ?
6º
Acha mesmo que a razão inicialmente invocada pelos amotinados
(o “incomportável” preço do gasóleo) não passa
de um pretexto para uma violenta acção política?
Ou , pelo contrário, acha que é uma razão pertinente?
Para
mim, é evidente que o Senhor Dr. Júdice empolou a situação:
Ver
um maremoto de militantes fascistas ( milhares?, dezenas de milhares?
centenas de milhares?) apoiada por hordas de trabalhadores seus dependentes
lançarem-se contra o ESTADO, os RICOS, os BANCOS, os PARTIDOS,
os PLUTOCRATAS, as COMPANHIAS DE DISTRIBUIÇÃO DE COMBUSTÍVEIS
não será um exagero que mais parece uma manipulação
deliberada?.
…Mas,
felizmente, não contaram com a firmeza e a astúcia negocial
dos nossos chefes que conseguiram desmobilizar o movimento com cedências
cirúrgicas .
Presumo
que “cedências cirúrgicas” é uma expressão
que pretende ser altamente elogiosa para o Senhor primeiro-ministro e
para o Senhor ministro dos transportes.
Nota
- Apresento as minhas felicitações ao Senhor
Dr. Júdice pela inovação, ainda que inspirada em
linguagem militar – bombardeamentos cirúrgicos – ,que introduz
no dialecto político.
II
Mas,
vamos ao que interessa.
Não
mais de quinhentos (bem, desde que o Senhor Dr. Júdice apresente
prova irrefutável, aceito acrescentar mais alguns), mini, pequenos
e médios empresários de transportes rodoviários de
mercadorias, fartos de sofrer com os aumentos sucessivos e incomportáveis
do preço do gasóleo (e não podendo, além do
mais, porque a concorrência é muita, aumentar os preços),
em face da rigidez negocial do governo que recusa abdicar de uma parcela
do acréscimo de impostos que encaixa com esta inesperada maná
resultante desse mesmo aumento do preço do petróleo, perdem
a paciência, mas não a cabeça, e resolvem passar a
vias de facto.
Resolvem
paralisar o movimento rodoviário de mercadorias e, para isso, decidem
colocar garrotes em pontos estratégicos do sistema rodoviário
nacional.
Fazem-no
com grande inteligência e determinação.
Marcam
os locais de estrangulamentos com alguns camions e colocam piquetes nesses
locais para cortarem a circulação. Ao fim de muito pouco
tempo a quantidade de veículos era tal que o bloqueio estava concretizado
com camions que, na sua quase totalidade não lhes pertenciam, mas
que tornaram cativos contra a vontade dos seus legítimos proprietários.
Concretizado
o bloqueio da circulação de mercadorias as exigências
dos revoltosos começaram a crescer, passando o preço de
gasóleo a ser uma exigência secundária.
O
país na sua quase totalidade olhava para a situação
com preocupação, sem dúvida, mas também com
uma espécie de gozo implícito. Todos sentiam que, por inépcia
do governo, a autoridade do Estado estava em causa mas que os “amotinados”
careciam de força real para causar qualquer perturbação
política – para além da evaporação de Sócrates,
que tendo tido falta de força e de inteligência, quando ambas
teriam podido ser aplicados com sucesso, tinha deslizado para uma posição
da qual só poderia sair de cócoras, o que veio a acontecer,
para mal de todos nós.
O
chefe do governo, sabemos agora, estava amedrontado e, possivelmente,
a avaliar pela maneira como conduziu a crise, mentalmente bloqueado.
As
cedências cirúrgicas que fez ultrapassaram
as expectativas dos revoltosos, segundo relata o Expresso; as consequências
directas dessas cedências vão para além da presente
legislatura e as suas consequências perversas podem alargar-se outros
sectores da economia..
IV
Mas,
afinal, quais foram as cedências cirúrgicas
do Senhor primeiro-ministro?
Vou
servir-me da lista de cedências publicada pelo Expresso
(13-06, O Pacote Mário Lino;
os comentários são meus.
“O
PACOTE MÁRIO LINO
Tarifa
dos fretes de transporte de mercadorias é indexada à evolução
dos preços de venda dos combustíveis.”
Comentário
– Esta decisão transfere, em princípio,
para o consumidor o aumento do custo dos combustíveis. È
uma decisão justa e satisfaz inteiramente, por outra via, a exigência
original dos transportadores, de um gasóleo profissional.
Disse
em princípio, pois depende da fórmula de cálculo
que venha a ser adoptada, e dada a inépcia com que o governo tem
tratado este assunto, não me admirará que os transportadores
consigam negociar uma fórmula que os favoreça indevidamente.
Com
esta cedência, inteiramente justa, a querela devia ter ficado resolvida.
PACOTE
MÁRIO LINO
“Despesas
em combustíveis apresentadas para efeitos fiscais (em sede de IRC)
são majoradas em 20% Esta medida permite que as transportadoras
apresentem custos mais alto com o gasóleo, o que reduzirá
o montante de impostos a pagar.”
Comentário
: O Expresso faz adequado comentário.
Dou
um exemplo – uma transportadora consumiu em determinado ano 500.000 €
de combustíveis. O governo permite-lhe que reduza o seu lucro tributável
nesse ano, em 100.000 € ou seja, os tais 20% da despesa com combustíveis.
Com
esta cedência, que nada justifica, o governo reduz o IRC das empresas
transportadores .
Como
contribuinte, pergunto: Porquê?
O
governo não dirá: tivemos medo. E, metendo os pés
pelas mãos, aduzira razões de circunstância para justificar
a sua pusilanimidade e a enorme injustiça que está a cometer
em relação `generalidade das outras empresas, com especial
relevo para as que têm que concorrer no mercado externo.
“PACOTE
MÁRIO LINO
Portagens
cobradas entre as 22h e as 7 h terão uma redução
de 50%?”
Comentário
– Durante os primeiros seis meses, as concessionárias
das auto-estradas suportarão o custo
Depois,
os contribuintes!
Pergunto:
Qual é a ética de um governo que concede benefícios
especiais, a pagar pelos outros contribuintes, a um grupo profissional,
só porque se sentiu metido, por este, entre a espada e a parede.
Ou, para este governo há uma ética da cobardia e do medo,
que justifica a prática de todas as injustiças?
“PACOTE
MÁRIO LINO
O
Governo não vai aumentar o imposto sobre os Produtos Petrolíferos
em 2009”
Comentário
– Nada a dizer . Beneficia todos, e ainda bem.
“PACOTE
MÁRIO LINO
O
imposto de camionagem será mantido nos valores de 2007 durante
os próximos três anos”
Comentário
– Será uma excepção, mas não me parece
que seja um pecado capital
“PACOTE
MÁRIO LINO
Transportadores
só pagam o IVA ao Estado depois de terem cobrado os respectivos
valores.”
Comentário
– Basta esta cedência, nas circunstâncias em que
é feita, para colocar qualquer governo mais baixo do que o pó
dos caminhos.
Não
conhecem, o Senhor primeiro-ministro e o Senhor ministro dos transportes,
quanto sofrimento tem havido em muitas empresas deste país para
financiar o Estado entregando-lhe o valor do IVA facturado antes de o
terem recebido dos seus clientes?
Não
percebem, o senhor primeiro ministro e o senhor ministro dos transportes,
que oferecerem esta “prenda” aos transportadores em fúria, só
porque estão agarrados pelo cangote , é cuspir na cara de
todos aqueles que tem passado grandes, nalguns casos inultrapassáveis,
dificuldades para cumprir a lei?
Ou
vai alargar esta cedência cirúrgica a todas
as empresas do país?
“PACOTE
MÁRIO LINO
Pagamento
das facturas aos transportadores efectuadas no prazo máximo de
30 dias, depois do qual serão aplicadas coimas aos incumprimento.”
s
Comentário
– O que é que justifica que seja estabelecido um regime
excepcional de prazo de pagamento a 30 dias dos serviços de transportes
de mercadorias?
Porque
é que o governo não legisla tornando obrigatório,
como regra geral, que todos os pagamentos sejam feitos a 30 dias?
A
esta posso eu responder: seria inexequível e, consequentemente,
estúpido.
O
Estado irá cobrar coimas a quem não pague aos transportadores
no prazo de 30 dias. Não perceberão, o Senhor primeiro-ministro
e o Senhor ministro dos transportes, que, ao transformar o Estado no “homem
do fraque” dos transportadores, estão a ridicularizar o Estado
e a si próprios?
“PACOTE
MÁRIO LINO
Apoio
ao abate de veículos e à renovação das frotas.”
Comentário
– Para abreviar: Nada a comentar se a medida for generalizada
a todas as empresas que tenham que investir em capital fixo produtivo.
19
de Junho de 2008
J.
Vicente Pinto
{novo texto / imagens}
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