AH! OS CHINESES!...   DE CÓCORAS, CAVALHEIROS!

 

ou

 

China alta velocidade :TGV (França) / Sinkansen  (Japão) / Siemens.(Alemanha)

 

 

 

 

A propósito do 7º Congresso Mundial da Alta Velocidade Ferroviária, que vai realizar-se em Pequim, o Expresso de 4 deste mês dedica uma página à alta velocidade ferroviária na China.

 

São autores dos textos os Senhores Miguel Monjardino –  A China e os novos caminhos de ferro – e António Caeiro – De Portugal à Indochina, chineses querem levar o transporte ferroviário até aos confins da Ásia e O expresso vai chegar ao Oriente

 

I

 

Os textos são interessantes mas singelos, e, além disso, tendenciosos (ou ingenuamente tendenciosos).

 

Monjardino cita Thomas Friedman que no, New York Times,  “comparava  o tempo de uma viagem entre Washington e Nova York com o do percurso de Pequim até Tianjin. A primeira viagem dura três horas e raramente é pontual. Do lado de lá do Pacífico a viagem dura apenas noventa minutos. Para Friedman, isto mostra a enorme diferença entre os EUA e a China em relação aos investimentos em infra-estruturas”.

 

Pergunto ao Sr. Monjardino: o Senhor acha realmente que a conclusão de Friedman  está validamente fundamentada? O Senhor acha que  Friedman está a ser intelectualmente honesto com os seus leitores?

 

Nota 1

 

 A China acordou há pouco mais de uma dúzia de anos para a alta velocidade e os EUA acordaram pela mesma época, precisamente para o percurso que Friedman refere.

 

Em 2000 entrou em serviço, nos Estados Unidos, um comboio, o Acela Express, pomposamente chamado de alta velocidade, que imita, no formato, os comboios de alta velocidade, mas que, no percurso que Friedman refere faz uma média não superior a 110 km/hora. É que, num comboio de alta velocidade, a via condiciona a velocidade e é, por sua vez, condicionada pela natureza do terreno e pela sua ocupação preexistente. Comparar o Acela com a ligação ferroviária Pequim-Tianjin é um puro abuso. Nos Estados Unidos, pura e simplesmente, ainda não há alta velocidade.

 

Mas, sem sombra de dúvidas: Globalmente, a rede de infra-estruturas de transportes (caminhos de ferro, rodoviárias e aeroportuárias) nos Estados Unidos e na China ainda não são comparáveis.

 

Nota 2

 

Friedman está enganado, a viagem Pequim-Tianjin tem a duração de meia hora e não de 90 minutos (Caeiro está certo).

 

 

 

Caeiro não vai melhor: “Inaugurada no verão de 2008 a rede chinesa de alta velocidade já ultrapassa os sete mil quilómetros de extensão e em 2010 chegará aos 13 mil – mais do que existe em todo mundo. Em 2009, Japão e França tinham, respectivamente, 2000 e 1900 quilómetros. E o recorde estabelecido pelo “CHR-3… já foi batido por um comboio mais potente, … que em Setembro passado chegou aos 416,6 km/hora”

 

Como Caeiro, certamente sabe, a superfície da França é de 547.000 km2 e a do Japão é de 378.000 km2; a China tem uma superfície de 9.600.000 km2.

 

Dito de outro modo, na China cabem 18 franças ou 25 japões  ( com minúscula porque aqui são unidade de medida)

 

A China terá uma densidade territorial de via de alta velocidade quando tiver instalados :  em relação ao Japão, 50.000 km de via; em relação à França, 34.200 km . Veremos quando lá chega!

 

A China é um enorme país quer em território quer em população, mas ainda tem um longo caminho a percorrer! Não mistifiquemos para mitificar! Não mitifiquemos para apoucar o Ocidente!

 

O Ocidente não tem chefias e, além disso, tem uma tal quantidade de lama agarrada às botas que dificilmente se pode mexer. Não o massacremos. Nós somos Ocidente, não sejamos masoquistas!

 

Nota 3

 

Caeiro esqueceu-se de dar uma pequena informação: O comboio de alta velocidade CHR-3 é um modelo da Siemens. Comboios idênticos circulam em Espanha desde 2006. A própria via Pequim-Tianjin foi construída com tecnologia alemã. Por outro lado, o tal comboio mais potente que fez 416,6 km/hora é o  CHR380A, derivado daquele.

 

Nota 4

 

Segundo declarações de entidades oficiais, o programa de alta velocidade prevê que a China tenha em serviço, em 2025 (daqui a 15 anos), 50.000 km de linhas de alta velocidade. É um número assombroso, mas a China só nessa altura terá, por quilómetro quadrado, a mesma cobertura de linhas de alta velocidade que o Japão tem hoje.

 

II

 

Falar da China quando se fala de alta velocidade ferroviária é o mesmo que tratar a senhora, que serve aos seus convidados um magnífico pudim comprado na pastelaria, como se ela tivesse preparado aquela delicia. E, como a China, algumas fazem tudo para que tal confusão aconteça. Não tenho dúvidas de que a China virá a construir os seus comboios sem precisar de apoio exterior.

 

Para já, compra comboios e tecnologia:

 

Toda a tecnologia usada na construção das composições e nas vias de alta velocidade foi criada na França e no Japão, com início no fim dos anos cinquenta; a Alemanha (Siemens ) entrou  mais tarde na corrida e desenvolveu tecnologia original. Outros intervieram, mas estes são

os que mais contribuíram.

 

A China compra e apropria-se do conhecimento que outros criaram e desenvolveram. Lembro-me que, por exemplo, por volta de 2005, a China fez uma encomenda de sessenta composições à Siemens. Só as três primeiras foram construídas na Alemanha; as outras cinquenta e sete foram construídas, na China, por uma sociedade mista. Outros casos, semelhantes, houve.

 

A China é um gigante. O mérito dos seus dirigentes e trabalhadores é inegável. A sua dimensão é única. Mas, não nos apouquemos! A China é um colector. A sementeira foi feita pelo Ocidente.

 

A China cresceu pelo seu trabalho e inteligência dos seus dirigentes e com a colaboração do capital ganancioso do Ocidente e dos políticos desta origem notoriamente incompetentes e, alguns, provavelmente interessados ou comprometidos, e de teóricos e doutrinadores ocidentais que contribuíram eficazmente para a criação de postos de trabalho na China em detrimento dos seus próprios países.

 

Não censuremos a China, mas também não nos embasbaquemos a olhar para ela. Analisemos o que se passou nos últimos vinte e cinco anos e façamos os sacrifícios necessários para que possamos conviver com a China como parceiros dignos e respeitáveis (e respeitados).

 

Estes são os meus votos. Infelizmente, não vejo no Ocidente, e muito menos em Portugal, dirigentes à altura do projecto e vejo nos povos  ocidentais uma camada demasiado grossa de gente degradada incapaz de perceber a miserável herança que vai deixar aos seus filhos.

 

Confiemos nos deuses. Às vezes estão distraídos e fazem coisas certas sem dar por isso.

 

 

10 de Dezembro de 2010

 

 

Joaquim Vicente Pinto              jotap@sapo.pt                     www.favelaocidental.com

 

 

PEDIDO

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Muito obrigado|                                                                                  

 

 

 

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