Anedotas da semana 47 de 2008

.

.

À laia de alerta:

Anedotas da semana não são as anedotas da semana.

.

À laia de introdução:

Anedotas da semana não são acompanhadas de quaisquer comentários. Cada um deve gozá-las à sua maneira!

.

 

AS DITAS ANEDOTAS:

.

(1)

Público, 17/11/2008, página 45 (Boaventura de Sousa Santos)

.

“Boaventura de Sousa Santos, em A hegemonia do bem?”

 

 (2)

Público, 17/11/2008, página 43 (Boaventura de Sousa Santos)

.

“Obama e Mandela são dois homens com fortes raízes em África (…)”

 

(3)

Público, 17/11/2008, página 43 (Boaventura de Sousa Santos)

 

Nos últimos quinze anos, a África mostra-se ao mundo nos ombros destes dois gigantes [Mandela e Obama] (…).

 

(4)

Público, 17/11/2008, página 43 (Boaventura de Sousa Santos)

 

.

“(…) África é o continente infeliz onde o capitalismo global decidiu depositar multidões de seres humanos considerados descartáveis

 

 

 

ANEXO,  o texto completo:

 

“A hegemonia do bem?

 

Boaventura de Sousa Santos

 

A eleição do Presidente Obama é um acontecimento de global e transcendente importância para todos os que acreditam na possibilidade de um mundo melhor. Nos últimos quinze anos, outros acontecimentos adquiriram esta mágica qualidade: a eleição de Nelson Mandela como Presidente da Áf4rica do Sul em 1994 e os quinze milhões de cidadãos que, por todo o mundo, saíram à rua em quinze de Fevereiro de 2003 para protestar contra a invasão do Iraque. Muito distintos entre si, estes três acontecimentos têm em comum uma concepção pós-nacionalista do mundo, O mundo é a cidade natal da esperança e o que acontece num pais diz respeito a todos os demais. Partilham também o serem testemunho da inesgotável criatividade da espécie humana, para o melhor e para o pior. Os três acontecimentos foram considerados impossíveis quase até ao momento de nos baterem à porta. Partilham ainda a capacidade mágica dos seres humanos de celebrarem incondicionalmente a magia dos momentos de comunhão liberta dos constrangimentos da realidade, como se esta tivesse saído para almoçar e ainda não tivesse regressado.

 

 mais profunda. Obama e Mandela são dois homens com fortes raízes em África e orgulhosos das suas raízes. Mandela é, além de tudo, um líder de linhagem nobre Xhosa e Obama é membro da etnia Lou do Quénia (uma etnia discriminada antes e depois da independência), como refere com naturalidade no seu livro bestseller. As suas identidades foram tecidas pela memória do sofrimento injusto, da segregação, do colonialismo. Mandela simboliza o caso extremo de uma maioria submetida a um cruel sistema de apartheid durante décadas. Obama, apesar de não ser ele mesmo descendente de escravos, simboliza o resgate do inominável sofrimento que foi infligido aos afro-americanos, um sofrimento tão naturalizado pelos opressores que continuou até aos nossos dias sob a forma do racismo. Para além do voto dos brancos, Obama conquistou o voto esmagador dos cidadãos afro-descendentes e latino-descendentes e conquistou ainda o voto de uma minoria quase esquecida, os jovens. A sua vitória é a vitória das minorias quando estas descobrem que, unidas, são a maioria. Nos últimos quinze anos, a Africa mostra-se ao mundo nos ombros destes dois gigantes e assim responde Basta! aos insultos do Banco Mundial e do FMI, para quem a Africa é o continente infeliz onde o capitalismo global decidiu depositar multidões de seres humanos considerados descartáveis. Por uma via muito própria - selada no seu passado colonial -, a África chega ao protagonismo mundial que nas duas últimas décadas conquistaram a Ásia e a América Latina (que também é afro-latina e indo-latina)

A relação entre a vitória de Obama e os milhões em protesto contra a guerra ilegal e injusta contra o Iraque não é menos relevante. As multidões em protesto não conseguiram impedir a guerra, tal como aconteceu com o senador Obama, um dos poucos que votaram contra a guerra. Mas agora, como Presidente dos EUA, tem nas suas mãos a possibilidade de pôr fim a essa guerra e, aliás, foi isso mesmo que prometeu aos seus eleitores. Os que votaram nele querem aliás que ele ponha fim à guerra gémea que avassala o Afeganistão. Neste domínio, o seu estado de graça será curto, tanto no país como no mundo, O Afeganistão tem uma memória e uma história exaltantes de lutas vitoriosas contra invasores estrangeiros bem mais poderosos militarmente. Não há armas que verguem este país. Tudo indica que Obama privilegiará a diplomacia e que entenderá que a Al-Qaeda não pode ser destruída militarmente. Pode, isso sim, ser isolada pela paz e pela cooperação não colonialista. A vitória de Obama significa que, afinal, os protestantes não protestaram em vão.


A menção conjunta de três acontecimentos que visam devolver a humanidade ao melhor de si mesma pode ser surpreendente já que a vitória de Obama parece ter um significado global incomparavelmente superior aos dos outros dois. Este desequilíbrio é o resultado do privilégio hegemónico dos EUA no mundo de hoje, um privilégio em declínio, sobretudo no domínio económico, mas por enquanto muito forte, Para o bem e para o mal. O 11 de Setembro “transformou o mundo” quando outras populações do mundo sofrem anua!rnente ataques tão injustos, tão criminosos e muitas vezes mais devastadores do que o ataque às Torres Gémeas, sem que isso mereça mais do que uma pequena referência noticiosa. Da mesma forma, um pequeno país, o Paraguai, elegeu, em 2008, uni bispo, teólogo da libertação, para libertar o país da mais odiosa oligarquia, sem que tal merecesse referência detalhada na imprensa internacional.

 

Obama tem esse privilégio de oferecer ao mundo inteiro um momento  não durará muito. A realidade não costuma demorar muito quando sai para almoçar. Quando terminar, tudo vai depender do modo como o Impulso do bem enfrentar o do mal, E tudo vai começar nos EUA, um país contraditório e sofrido, Contraditório, porque  o mesmo povo que há oito anos “elegeu” W. Bush, o pior Presidente da história dos EUA. Sofrido, porque a estupidez, a avareza e a corrupção que dominaram a Casa Branca deixaram o país à beira da falência financeira e moral. Esta última foi rapidamente resgatada por Obama. A primeira será muito mais difícil de resgatar. Professor universitário

 

 

 

20 de Novembro de 2008

.

Recolhidas por

Joaquim Vicente Pinto     jotap@sapo.pt       www.favelaocidental.com

 

{novo texto / imagens}