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BASTA, BASILINHO, BASTA!
Quando eu era criança passavam pela minha aldeia várias vezes por ano, os saltimbancos. Normalmente na Primavera ou no Verão, raramente no Outono, nunca no Inverno. Mas naquele Fevereiro com frio de rachar, os saltimbancos chegaram – uma carroça puxada por um cavalo escanzelado, uma mulher, um homem e três crianças.
Anunciaram-se percorrendo as ruas da aldeia tocando tambor.
À noite, na praça, acenderam uma fogueira, estenderam uma serapilheira e o espectáculo começou. Estávamos umas três dúzias de pessoas. Eu tinha ido com a senhora Emília, vizinha que trabalhava lá em casa, e a São (Encarnação), sua filha e minha companheira de brincadeiras.
O espectáculo foi o habitual até que entrou em cena o Basilinho, um dos rapazes, dos seus doze anos.
O homem cuspiu fogo, transformou água em vinho, tocou concertina e serrote e a mulher tocou um amolgado saxofone; ambos, vestidos com uns esfarrapados fatos de palhaço representaram uma pantomina em que o palhaço pobre dava uma “lição” ao palhaço rico, etc., etc. – o habitual nestes espectáculos.
Houve um compasso de espera para que a miúda mais nova passasse, com um boné na mão, pelos presentes, pedindo, com o olhar, uma esmola.
Recomeçado o espectáculo entrou em cena o Basilinho, a criança mais nova da “companhia”. Tremia de frio, na sua camisolita e calções finos. Algumas mulheres murmuraram, condoídas, coitadinho!
Depois de algumas piruetas mais simples; começou a dar saltos mortais; primeiro simples, depois duplos, depois triplos; chegado aqui aumentou a rapidez, cada vez mais rápido, …cada vez mais alto…. Algumas pessoas começaram a bater palmas, outras abanavam a cabeça, incrédulas… não era possível…não era humano… Basilinho estava possesso… Basilinho estava possuído pelo demónio! …Algumas mulheres benziam-se…
O silêncio era total. Os espectadores pareciam em hipnose. Os pais e irmãos do Basilinho, imóveis, pareciam estátuas plantadas no chão.
De repente, São, soluçando convulsivamente, começou a gritar “basta, Basilinho, basta! Basta, Basilinho, basta! Os gritos aflitivos da criança chamaram os adultos à terra.
Três homens correram para Basilinho para interromperem o seu incrível rodopio. A custo o conseguiram.
Os presentes, cabisbaixos, condoídos, meditando nos insondáveis mistérios desta vida, começaram a recolher a suas casas.
NOTAS
Nota 1 – No dia seguinte, no comboio das sete da manhã, os mesmos homens que o tinham dominado na véspera, acompanhados do regedor, levaram-no aos Hospitais da Universidade de Coimbra. Dali transitou para o dos Covões.
Basilinho tinha ensandecido!
Nota 2 – O cérebro humano é bem estranho! Esta história passou-se há quase oitenta anos e estava completamente esquecida.
Porque me lembrei dela, hoje, quando lia o Público?
Nota 3 – Público, página 18: “José Sócrates levou um Magalhães para cada chefe de Estado na cimeira ibero-americana e promoveu-o como “o primeiro grande computador ibero-americano”. E arranjou um slogan original “É uma espécie de Tintim para ser usado desde os sete aos 77 anos””.
Público, última página, no Sobe e desce: “O Governo já tinha sido excessivo na promoção do computador Magalhães dentro do país, mas José Sócrates foi ainda mais longe, aproveitando a Cimeira Ibero-Americana para propagandear “o primeiro grande computador ibero-americano” e anunciá-lo como uma “espécie de Tintim”.
31 de Outubro de 2008
Joaquim Vicente Pinto jotap@sapo.pt www.favelaocicental.com
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