BERARDO E ALMEIDA SANTOS,

uma relação de grande confiança mútua!

 

 

I

 

No 25 de Abril, o Sr. Dr. Almeida Santos estava, acidentalmente, em Lisboa. Descoloniza imediatamente, e, 21 dias depois, em 15 de Maio, entra para o 1º governo provisório como ministro da Coordenação Interterritorial. Faz parte, neste mesmo cargo, dos I – II – III e IV governos provisórios. Sai do governo (o PS decidiu não participar), durante quarenta e dois dias, duração do V governo, e volta, como ministro da Comunicação social, no VI. No governo seguinte, I governo constitucional, é ministro da Justiça; continua, como ministro-adjunto do primeiro-ministro, no II governo constitucional

 

II

 

Outubro de 2005

 

Em 28 de Outubro de 2005 publicou o Semanário Económico, no seu anexo “Fora de Série”, uma entrevista feita, por Catarina Madeira e João Paulo Dias, ao Sr. José Berardo; entrevista esta em que o Sr. Berardo iniciou a ofensiva final para colocar em montra condigna, e a expensas do Estado, por um período de dez a quinze anos a sua colecção de arte.

 

Nesta entrevista o Sr. Berardo aborda a sua actividade política na África do Sul, como segue:

 

CM : De todos os lugares por onde passou qual foi o que mais o marcou?

 

JB : A África teve uma importância muito grande. Acho que eu e o Dr. Almeida Santos fomos essenciais para o primeiro acordo entre P. W. Botha e Samora Machel. Na época andei para baixo e para cima como um iô-iô, porque Samora Machel não podia falar oficialmente para a África do Sul e a África do Sul não podia falar oficialmente para Moçambique.

 

CM : Foi um dos intermediários dessas negociações?

 

JB : Fui um dos intermediários mas o Dr. Almeida Santos foi o homem que deu o grande passo para que o Apartheid fosse eliminado . (negrito, meu)

 

CM : Acabou por ser o primeiro estrangeiro convidado a fazer parte do parlamento sul-africano.

 

JB : Legalmente até não podia porque os estatutos dizem que não basta ser sul-africano , é preciso ter nascido na África do Sul. Depois, o problema foi levantado e tive que resignar. Continuei o meu trabalho no “backstage” para tentar ajudar os políticos naquele país .

……………………………………………………………

CM : Tem conseguido concretizar sempre os seus objectivos?

 

JB : Tenho essa felicidade. ……. Quando é que podia pensar que aos 30 anos (Berardo nasceu em 1944 ) iria ter influência na mudança da pior lei de um país.

 

 

Ainda que muito satisfeito com a referida boa influência de dois portugueses na política de P. W. Botha, dirigente sul-africano conhecido pela sua inflexível rigidez, li o que acabo de transcrever com uma boa dose de incredulidade –

 

primeiro , porque nunca vi a mais ligeira menção de que o Sr. Dr. Almeida Santos tivesse tido qualquer papel na eliminação do apartheid; (antes pelo contrário – Acordo de Incomati)

 

segundo , porque a ideia que o Sr. Berardo transmite de que o acordo de que diz ter sido intermediário tem qualquer coisa a ver com o fim do apartheid é mais que improvável;

terceiro , porque a única certeza com que fiquei foi a de que o Sr. Berardo serviu de correio, pois, pelo que diz, muito provavelmente, não tomou conhecimento do objecto do acordo;

quarto , porque a sugestão que o Sr. Berardo faz de ter (ou ter tido) a nacionalidade sul-africana constitui, para mim, uma autêntica surpresa, pois ele próprio se diz português;

 

quinto , porque o Sr. Berardo parece situar o episódio a que faz referência nos seus 30 anos, ou seja em 1974, e, nessa altura, o Sr. Dr. Almeida Santos estava ocupado a fazer o seu lugar na revolução, o apartheid estava firme e não tremeu e P.W. Botha só chegaria a primeiro-ministro em 1978.

 

E, principalmente , é impensável que Almeida Santos fosse um dos negociadores da descolonização de Moçambique, tarefa em que parece não ter tido grande sucesso, e, simultaneamente, um intermediário entre Machel e P.W.Botha, na altura ministro da defesa da Africa do Sul.

 

III

 

Fiquei com dúvidas sobre as afirmações do Sr. Berardo quanto ao tal acordo.

Dúvidas que só os Srs. José Berardo e Dr. Almeida Santos poderão esclarecer.

Pedi, por escrito, esclarecimentos ao Sr. José Berardo; já insisti. Sem resposta.

Li atentamente “Quase Memórias” do Sr. Dr. Almeida Santos. Não encontrei qualquer referência aos factos narrados pelo Sr. José Berardo.

Não tenho, porém, razões para não acreditar que exista entre ambos, Berardo e Almeida Santos, uma relação de grande confiança.

 

01 de Novembro de 2007

 

J. Vicente Pinto

 

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