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A COLECÇÃO BERARDO
BERARDO E OS SIMPLES
NEGOCIAÇÕES COM O ESTADO PORTUGUÊS
As negociações entre o Sr. Comendador Berardo e o governo
português, para a instalação em Portugal da colecção
de arte conhecida pelo seu nome, arrastam-se há anos.
Venho a acompanhar este processo, pelo que é publicado na imprensa,
desde a entrevista dada pelo Sr. Berardo em Outubro de 2005 e que me parece
ser o início do seu combate final para atingir os seus
objectivos, objectivos que, além de legítimos, são
óbvios para todos os que tenham os olhos abertos e queiram ver.
A trama de informações, desinformações e contra-informações
é densa e engana não só os mais lerdos de entendimento
mas também os mais desatentos ou desprevenidos e permite que vivaços
manipulem com algum à-vontade.
E assim seguiu o processo, com o Senhor primeiro-ministro a mergulhar
nele de cabeça e, segundo o Sr. Berardo, a assumir esperançosos
compromissos verbais; a Senhora ministra da Cultura acompanha um pouco
perdida. A imprensa colabora, deixando a difusa impressão de que
o Sr. Berardo está abnegadamente a oferecer a sua colecção
ao país.
Em 18 / 19 de Fevereiro rebenta a bomba.
O circunspecto Expresso apresenta em títulos: Berardo
ameaça romper acordo com Governo, Colecção
Berardo em risco e com ar de síntese do texto Colecção
pode sair do país, Empresário queixa-se de proposta
saloia, Ministra ainda quer negociar.
O bem-falante Público: Berardo recusa doar colecção
mas está disposto a continuar a negociar com o governo.
O país está a arder?!
Estes jornais, e, possivelmente, outros, informavam que o governo tinha
apresentado uma proposta ao Sr. Berardo, proposta essa que considerava
a doação ao Estado Português da referida colecção.
Diz a ministra: A nossa primeira proposta partia do princípio
de que Berardo estaria disponível para doar a colecção.
Agora têm de ser pensadas outras soluções .
Santa inocência!...
Diz Berardo: Esta colecção foi uma coisa que fiz
do coração. Nunca tive intenção de a doar,
apenas quero que a capital tenha acesso a um ponto de referência
da arte internacional . É obra!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
O Sr. Berardo, naturalmente, reagiu mal à referida proposta:
o protocolo que me enviaram apresenta saloiamente uma série de
propostas inconcebíveis
Já perdi muito
tempo a tentar instalar a colecção em Portugal .
(esqueceu-se, mais uma vez, de dizer claramente que o compromisso que
pretende assumir é limitado no tempo 10 a 15 anos, segundo
declarações suas feitas em Dezembro de 2005: O
contrato será feito a 10 ou 15 anos, com uma cláusula que
obriga a minha família a não vender as obras sem primeiro
dar às entidades públicas envolvidas a opção
de compra ).
O Sr. Berardo é frontal, mas não posso concordar com a maneira
como classificou o protocolo.
Uma proposta saloia, é uma proposta que é produto de uma
esperteza saloia, isto é, produto de um misto de matreirice e estupidez.
Não creio que seja o caso; para mim é, antes, uma proposta
de pessoa simples e ingénua. Acredito que tenha sido redigida por
um assessor inexperiente e desatento e subscrita sem análise pelos
responsáveis.
De resto, a Senhora ministra reagiu à reacção do
Sr. Berardo, afirmando, numa expressa manifestação de ingenuidade
e candura, que não sabia o ponto de partida desejado pelo
comendador.
E com igual ingenuidade e candura afirmou que iria ser preparada nova
proposta, considerando a disponibilização da colecção
por um período de trinta a cinquenta anos.
Manifestamente, a Senhora ministra ainda não percebeu o enredo
da peça.
Mas, sinceramente vos digo como se falasse só para mim próprio,
não é este romance de cordel que me preocupa. O que me alarma
ao ponto de me reduzir a esperança , é o nível de
incompetência revelado pelos pretensos responsáveis governamentais.
Como é possível, em tantos anos de negociações,
nunca ter sido perguntado ao Sr. Comendador por quanto tempo disponibilizaria
a sua colecção.
Este é um ponto prévio e fulcral deste negócio.
Ter sido esquecido, durante tanto tempo e ao longo de tantas negociações,
revela uma tão grande incompetência que não pode deixar
de ser, como sintoma, motivo de apreensão para todos os portugueses.
Que o Senhor tenha piedade de nós! (Se esta prece, feita
por um agnóstico, não é uma blasfémia.)
26-03-2006
Vicente Pinto
P.S. E se tivesse havido uma mão oculta
que rasteirou o Sr. Comendador Berardo?
Nota 1 A nova proposta que integra o empréstimo da
colecção a 30 ou 50 anos foi entregue, diz o Público
de 25 de Fevereiro, mas as informações sobre o seu conteúdo
são contraditórias.
Nota 2 Berardo decidiu não renovar o protocolo (1997/2007)
com o Museu de Arte Moderna de Sintra. (Expresso, 25-03-06)
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