CIMEIRA UE-CHINA

APRECIEMOS O DESEMPENHO

 

 

I

 

No dia 28 de Novembro de 2007, realizou-se em Pequim, sem dar nas vistas, a Cimeira União Europeia – China.

 

Encabeçaram a delegação da UE o Senhor Eng. Sócrates, primeiro – ministro de Portugal, presidente temporário da União Europeia, e o Senhor Dr. Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia.

 

Estes Senhores, diz a Lusa, consideraram, no encerramento do encontro, a cimeira “ como um sucesso ”.

 

II

 

UM SUCESSO? PARA QUEM?

 

Foi, de facto, um sucesso.

 

Mas os representantes da União Europeia esqueceram-se de dizer para quem foi o sucesso.

 

Para a União Europeia não foi de certeza, como veremos a seguir; para a China, sim.

 

Para a China foi sem dúvida um sucesso. Não sei se a China tinha muitos objectivos, mas tinha, seguramente dois e de interesse imediato, que atingiu, como se mostra mais adiante.

 

A declaração conjunta da cimeira só foi assinada quatro dias depois do seu encerramento, Presumo que os chineses tenham conseguido colocar todas as vírgulas nos locais que tinham previamente determinado.

 

III

 

OS PONTOS DE CONSENSO

 

Houve quatro pontos de consenso. Vejamos quais foram, segundo a comunicação social que bebeu na LUSA, fonte oficial da Presidência Portuguesa.

 

E comentemos…

 

“Continuar a colaborar em conjunto em todas as áreas do domínio da paz e segurança no mundo”

 

Assunto pacífico .

 

Pode ter havido discussão; mas se houve foi só para inglês ver.

 

“Reconhecer o controlo das alterações climáticas como uma prioridade mundial”

 

Assunto pacífico.

 

Admito que tenha havido muita discussão. Os chineses teriam toda a vantagem em aceitar o princípio e discutir duramente a sua impossibilidade de responder ao compromisso implícito sem a compreensão e ajuda do Ocidente.

 

“Cooperar no continente africano e coordenar mecanismos de cooperação”.

 

Não é assunto pacífico, mas a China não pode espantar a passarada.

 

A África é vital para a China – tem petróleo, tem matérias-primas e tem, principalmente, espaço e terra arável.

 

A China já está bem ancorada em África e não vai largar a presa. É do interesse da China ser cordata nas palavras. Quanto aos actos, os chineses não são amadores!

 

IV

 

MAIS UM PONTO, MAS DE “CONSENSO”

 

Para a União Europeia (e para os ocidentais, de uma maneira geral) o défice comercial europeu em relação à China (e a apreciação da divisa chinesa…) era o ponto fulcral da cimeira.

 

Na Cimeira houve consenso em “olhar de frente para o défice comercial europeu em relação á China”.

 

Os chineses propuseram, e os representantes da União Europeia aceitaram, a criação de um grupo de trabalho “para reflexão e troca de informações” (LUSA/SOL) sobre o défice comercial europeu.

 

O que é isto?

 

Na verdade, nada! Os chineses chutaram a bola para a frente e os dirigentes da União Europeia correram atrás dela e esqueceram que este é, para a Europa, um problema vital que não admite delongas. …E que já vem a ser referido há muito tempo…

 

Isto é, a China conseguiu adiar a discussão do assunto.

 

Pergunto: para quem foi o sucesso?

 

Quanto à revalorização do yuan (reminbi), Wen Jiabao, chefe do Governo Chinês, limitou-se a desconversar. Os dirigentes da União Europeia transigiram.

 

Pergunto: de quem foi o sucesso?

 

V

 

TAIWAN

 

Conseguir que a União Europeia reafirmasse, de modo explícito, que considera Taiwan território chinês era, muito provavelmente, para os chineses, o objectivo principal da realização desta cimeira.

 

Segundo LUSA/SOL a China exigiu “ que a União Europeia condenasse de forma explícita o referendo em Taiwan sobre a adesão às Nações Unidas, o que acabou por conseguir. Coube a José Sócrates a declaração explícita exigida pela China”.

 

(Nota – O risco do referendo era o de que, votando sim, a população manifestasse o seu repúdio à integração na China)

 

A posição da União Europeia é muito importante para a política chinesa de reintegração pela força, se necessário, de Taiwan no seu território.

 

A posição assumida pela União Europeia é a de que a China é uma só. Isto é, Taiwan é China apesar de se ter separado há sessenta anos e o seu povo querer continuar independente.

 

Para satisfazer as exigências da China a União Europeia sacrificou um princípio que segue e defende há muitos anos – o direito dos povos à autodeterminação.

 

Pergunto: de quem foi o sucesso? Da União Europeia não foi, seguramente!

 

VI

 

Reflexão final

 

Sócrates e Durão Barroso afirmaram que a Cimeira UE-China foi um sucesso.

 

Como portugueses e europeus temos o direito e o dever de os julgar, em consciência, e decidir se, em nosso juízo, mentem ou falam verdade.

 

 

06 de Dezembro de 2007

 

 

J. Vicente Pinto

 

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