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A COLECÇÃO
BERARDO
ALOJAMENTO
E MONTRA PARA UMA COLECÇÃO DE ARTE
NEGOCIAÇÕES COM O ESTADO PORTUGUÊS
Há semanas li uma entrevista
dada pelo Sr. Comendador Joe Berardo à jornalista Catarina Madeira,
publicada, sob o título Coleccionador de Sonhos, na
Fora de Série de Outubro, distribuída com o Semanário
Económico
A leitura da entrevista Coleccionador de Sonhos levou-me a
querer saber mais sobre o Sr. Comendador. Não encontrei nenhuma
biografia nem nas livrarias nem na net ; não encontrei, mesmo,
quaisquer significativas informações avulso .
Considerando que pode haver mais interessados no mesmo conhecimento, apresento
a seguir, de forma sumária, à laia de preâmbulo, algumas
informações retiradas da citada entrevista:
O Sr. Comendador foi um menino pobre que começou a trabalhar
aos treze anos e meio (comentário: a sua
formação académica é - era- rudimentar);
aos 18 anos ( por volta de 1960, contas minhas)
emigrou para Moçambique;
algum tempo depois (?) seguiu para a África do Sul, onde
se fixou, iniciou a sua vida de emigrante como vendedor de legumes para
as minas (comentário: sem mais informações
é difícil avaliar o significado desta informação);
o Sr. Comendador é disléxico , o que o leva, por vezes,
a confundir as palavras;
nos três primeiros anos de emigrante teve, para sobreviver,
que aprender três línguas: português (?), inglês
e africander , (comentário: o que foi, certamente,
um esforço gigantesco, para um disléxico);
aos 23 anos ( por volta de 1965, contas minhas)
já tinha feito tais coisas na vida que encontrando-se no alto
de uma montanha, pensou se morresse agora morreria feliz;
aos 30 anos (por volta de 1974/75, contas minhas) , esteve
profundamente envolvido, com o Sr. Dr. Almeida Santos , nas relações
políticas secretas entre Samora Machel e P.W. Botha
(informação: Botha , era ministro da defesa
, cargo que exercia desde 1966; foi primeiro-ministro de 78 a 84 e chefe
de Estado de 84 a 89)
o Sr. Comendador considera o Sr. Dr. Almeida Santos o pai do fim
do apartheid e a si próprio como um associado importante nesse
processo .(informação: no tempo de
Botha primeiro-ministro, (a partir de 78), foram tomadas algumas medidas
de afrouxamento do apartheid em aspectos não políticos;
o desmantelamento desse regime só se verificou com De Klerk como
presidente, a partir de 89)
o Sr. Comendador anda há anos em negociações
com o Governo Português sobre as condições em que
alojará a sua colecção de arte em Portugal
(sem comentários);
o Sr. Comendador está de luto pela política cultural
deste país.
I
À última pergunta que a jornalista lhe fez:
Por que se veste sempre de preto? O Sr. Comendador respondeu: Estou
de luto pela política cultural deste país.
Concluí : O Sr. Comendador é uma pessoa notável,
mas, mais do isso, é também uma notável personagem
(de uma peça de que é autor e encenador).
Se não estivesse a representar, o Sr. Comendador em vez de se vestir
de luto agiria como é seu timbre e apresentaria o
que, em seu entender, deve ser o projecto cultural para Portugal. A sua
experiência de vida e de investidor em Arte capacitam-no para isso....
A menos que o seu projecto cultural para Portugal se resuma à criação,
pelo Estado,
de um museu, satisfazendo as suas condições, onde possa
albergar, temporariamente, a sua notável colecção
de arte.
II
O Sr. Comendador Joe Berardo conseguiu em menos de vinte
anos, partindo de nada, acumular uma grande fortuna. É, indubitavelmente,
um homem muito hábil a fazer dinheiro e está habituado a
ganhar muito e, possivelmente, sempre.
A sua colecção de arte é composta por mais de 1000
peças, está constituída, diz quem sabe, segundo um
critério muito inteligente e vale, já o vi escrito, mais
de 170 000 000 de euros.
O seu, dela, alojamento sob as condições técnicas
mais modernas, a conservação, com pessoal técnico
habilitado, os seguros, o pessoal administrativo, a administração,
etc., etc., etc. de uma colecção desta dimensão e
qualidade custa milhões.
E o Sr. Comendador vai exigir o melhor!... o contrário é
que seria de estranhar. E se se quizer que esteja em instalações
que a prestigiem e constituam uma montra condigna, com acções
de promoção que a valorizem, exigem-se não milhões,
mas muitos milhões.
O Sr. Comendador anda há anos a negociar com o Governo. Percebemos
que o Sr. Comendador quer que o Estado assuma os encargos referidos; mas
não conhecemos as suas outras exigências. E, principalmente,
desconhecemos aquilo a que o Sr. Comendador, em contrapartida, se obriga.
Nomeadamente, não sabemos e esse é um dado fundamental
do negócio - , durante quantos anos a colecção
ficará em Portugal.
Os portugueses, que são quem vai suportar os encargos do negócio,
têm o direito de saber o que está a ser negociado
os encargos para o Estado e outros compromissos assumidos por este, os
seus poderes e os do Sr. Comendador sobre a colecção, os
compromissos assumidos pelo Sr. Comendador, etc., etc., etc.
III
A permanência da colecção Gerardo em
Portugal tem reais vantagens para o país.
Sendo uma colecção de grande qualidade e dimensão,
o seu alojamento e exposição em Portugal prestigia o país,
e, em relação a Lisboa, pode constituir um, ainda que pequeno,
aliciante turístico.
Mas, e principalmente, dá a muitos portugueses a oportunidade de,
com facilidade e por pouco dinheiro, apreciarem obras e estilos, reunidos
num só espaço, que mostram uma panorâmica suficiente
da arte do século XX ocidental.
Mas a sua presença aqui vai ser transitória, a menos que
o Estado acabe por comprá-la.
Algumas pessoas dizem: mas sendo um homem tão rico por que razão
o Sr. Berardo não constrói um museu?
Penso que com alta probabilidade de acertar: O Sr. Comendador sabe que
não é eterno e que, para além do prazer que lhe possa
dar a sua posse, a colecção é um investimento e o
seu destino final é a venda, por si ou pelos seus herdeiros.
Quando for vendida, e é pouco provável que seja vendida
em bloco e menos provável ainda que permaneça em Portugal,
o edifício sobra
E até lá, anos de armazenagem
vão custar muito dinheiro. Se o Estado suportar os custos, o beneficio
não será despiciendo, mesmo para um multimilionário
ou, principalmente, para um multimilionário consciente de que migalhas
também são pão.
Num país em que o Estado é, com frequência, frouxo
a negociar e os políticos, por vezes, exercem com à-vontade
o tenebroso poder de favorecer, o facto de os políticos resistirem
há mais de cinco anos ao negócio proposto pelo Sr. Comendador
indicia que as suas exigências são tão exorbitantes,
em relação as contrapartidas que oferece, que os políticos
não ousam aceitá-las ou, simplesmente, em consciência,
acham que não são aceitáveis.
III
Sabemos que o Sr. Comendador quer o Estado a pagar não há
neste objectivo nada de censurável mas desconhecemos as
outras exigências que já formulou e as que, como bom negociador,
ainda há-de apresentar
Mas este é só um dos lados do negócio. E o negócio
tem duas faces:
O que dá o Sr. Berardo em troca?
O Sr. Berardo vai permitir que as suas obras sejam vistas. Mas, em que
condições e, questão fulcral deste negócio,
por quanto tempo?
Muito naturalmente continuará a ser o proprietário da colecção,
mas, como contrapartida dos benefícios que vai receber do Estado
e das responsabilidades que este vai assumir, em que me medida sacrifica
o seu direito de gestão e livre disposição deste
seu património?
O Sr. Berardo é um homem ousado que não hesita nem nas suas
afirmações nem nos seus argumentos: pois não foi
ele que disse que está farto das hesitações do Estado
e que se o caso não se resolver rapidamente pega na colecção
e a leva para outro país e que se o país não aceitasse
agora a sua proposta (qual proposta?) ele não podia garantir que
houvesse outra oportunidade pois os seus filhos nem sequer tinham nascido
em Portugal.
Interrogo-me: o que tem levado o Sr. Berardo , na sua impaciência,
a ser tão paciente.
Senhor Comendador,
Se quer que apreciemos com todo o nosso coração o seu gesto
de portuguesismo, diga aos portugueses quais são as suas condições
para que a colecção fique, por agora , em Portugal
e, muito particularmente, por quantos anos vai deixar que cá
permaneça.
IV
Acredito que o negócio se fará nas condições
impostas pelo Sr. Comendador.
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