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Francico Capelo - Discurso de Frei Tomás

 

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A "ARTE" DE VENDER ARTE POR ATACADO

A ENTIDADES PÚBLICAS

 

 

 

COLECÇÃO FRANCISCO CAPELO

 

 

I

 

Nos últimos anos houve em Portugal dois casos de venda de arte por atacado a entidades públicas que merecem estudo por se tratar de projectos e negociações de elevada qualidade, quer quanto à construção - elaboração da estratégia e das tácticas adequadas - quer quanto à sua execução.

 

É certo que não são, pelo menos, com base nos elementos de que pode dispor um analista atento, diligente, independente e honesto, modelos de ética da parte dos vendedores, mas o Estado não é ninguém, ou melhor o Estado são os seus curadores, que podem naturalmente, ser competentes ou incompetentes, impulsivos ou timoratos, inteligentes ou estúpidos, com adequado traquejo ou sem traquejo nenhum, tendo na sua mira os interesses do Estado ou somente os interesses da sua carreira.

 

II

 

Os dois casos a que me refiro são os casos da Colecção Francisco Capelo e da Colecção Berardo.

 

O caso da Colecção Francisco Capelo está concluído Não conheço os pormenores da negociação, mas conheço suficientemente bem aspectos que devem ser do conhecimento público para que a transacção e os seus intervenientes possam ser avaliados de maneira justa e equitativa e devidamente fundamentada.

 

É o que vou fazer neste texto...

 

O caso da Colecção Berardo ainda está em curso mas não tenho qualquer dúvida de que, quando for concluído, daqui a dez anos, satisfará inteiramente os desejos e interesses do Sr. José Berardo.

 

Acompanho este caso há seis meses; não tem cessado de me surpreender, ainda que já em Novembro do ano passado, quando se iniciou o ataque final , tivesse previsto o desfecho da fase em curso. Não tive, porém, imaginação suficiente para prever a voluntariosa e intempestiva intervenção do Senhor primeiro-ministro.

 

Espero uma resposta da Senhora ministra da cultura para concluir, e publicar, a análise do caso.

 

III

 

Os dois casos tem rigorosamente o mesmo formato; o facto de o Sr. José Berardo e o Sr. Dr. Francisco Capelo terem tido "uma intensa relação de trabalho e de negócios" não é, certamente, alheia a esta coincidência, se é que se trata de uma coincidência e não do mesmo plano:

 

•  Ambos decidiram criar colecções de objectos de arte, de acordo com um projecto devidamente estruturado ) ; (decisão muito inteligente - tendo em vista o cliente alvo - e, parece, competentemente concretizada)

 

•  Ambos dizem que tiveram como objectivo primeiro, servir Portugal / os portugueses; (disto, falaremos a seu tempo)

 

•  Ambos conseguiram que o Estado pagasse despesas de armazenagem e conservação das suas colecções, (durante um período significativo de tempo); (poupanças muito consideráveis conseguidas à custa do trabalho dos contribuintes)

 

•  Ambos conseguiram que o Estado lhes fornecesse uma residência / montra para as suas colecções, que pelas suas características as tornassem visíveis e prestigiadas (Museu de Sintra, um, e Centro Cultural de Belém, ambos) e, consequentemente, as valorizassem; (aumento da sua riqueza à custa do Estado, isto é, do trabalho dos portugueses);

 

•  Ambos tiveram como objectivo que o seu nome ficasse ligado às respectivas colecções para todo o sempre; (fama eterna)

 

•  Ambos tiveram como objectivo que a sua pessoa tivesse vitaliciamente uma palavra decisiva a dizer sobre a vida das respectivas colecções; (poder vitalício)

 

•  Ambos elegeram o Estado português como o comprador-alvo . (disto, falaremos adiante)

 

IV

 

(A partir daqui falarei só da Colecção Francisco Castelo e do seu criador) .

 

O Dr. Francisco Capelo teve, pelo menos, três objectivos, ao criar a sua colecção - criar um instrumento de poder pessoal, libertar-se da lei da morte e ganhar dinheiro.

 

 

Que queria ganhar dinheiro resulta de modo evidente do facto de ter vendido a Colecção, em 2003, à Câmara Municipal de Lisboa.

 

Que queria libertar-se da lei da morte resulta de modo evidente do que escreveu, em 1999, na folha 24 do livro / catálogo do Museu do Design:

 

" A troca do dinheiro por objectos de arte permite deslocar o dinheiro por algo que não morre. A morte da pessoa interrompe a possibilidade de exercer poder sobre os outros que permanecem. No entanto, é através dos objectos de arte que permanecem para além da sua morte que a sua fala pode continuar-se a fazer e a influenciar os vivos e esta influência apenas será eficaz se esses mesmos objectos forem de facto e definitivamente subtraídos da esfera das trocas privadas entre as pessoas para a esfera pública"

 

Capelo não diz tudo, mas sabe que o que diz está incompleto. De facto, o proprietário só continuará a fazer-se ouvir, depois da morte, através dos seus objectos se o seu nome continuar ligado a esses objectos. Daqui resulta imperiosa necessidade de se assegurar que o seu nome permaneça com os objectos .

 

E esta necessidade pode obrigar o proprietário a um jogo, em que a falta de ética pode passar a ser uma atitude inelutável, e o embuste um meio insubstituível para atingir os fins.

 

O período citado é simultaneamente o resultado de uma análise, a definição de um objectivo e a balizagem de um percurso.

 

O Dr. Francisco Capelo é, manifestamente, um homem inteligente que conhece muito bem o meio em que se move.

 

V

 

Para atingir os seus objectivos, Capelo necessita de

 

Dar notoriedade à sua Colecção, para a tornar atractiva para o seu cliente alvo .

 

Este é um "tempo" vital neste processo. É necessário que os jornais falem dela; que a "cultura" a aceite; que seja residente num espaço que, pelo seu prestigio, diga ao povo que é muito boa (se o não fosse não estaria ali).

 

Capelo conseguiu colocar a Colecção em Belém. Não sabemos as conversa que teve, nem com quem, nem o que prometeu.

.

Mas, de certeza, falou do seu amor a Portugal e da sua intenção de doar a Colecção. Seria extravagante que o não tivesse feito quando antes da inauguração do museu, possivelmente em meados de 1999, o escreveu.

".................................

Assim, os objectos que integram o acervo do Museu do Design nunca tiveram por finalidade serem integrados na minha vida privada e subjacente ao seu depósito junto ao Centro Cultural de Belém existe desde já a vontade e a determinação de proceder à sua doação . Não é segredo que este tipo de prática constitui caso relativamente raro em Portugal e sempre fiquei surpreendido por ver nas elites portuguesas, sempre ciosas de um certo e por vezes saudável nacionalismo, uma total incapacidade em materializarem de modo prático esse suposto amor a Portugal , legando às instituições culturais do nosso país os testemunhos necessários à informação e cultura das novas gerações. Aquilo que se detém gira na esfera do privado e só raramente se sente enquanto obrigação e dever ético contribuir para o património colectivo."

 

É de admitir que estas ideias e emoções tenham pesado na decisão da administração do Centro Cultural de Belém de integrar a Colecção Capelo e a tenham levado a celebrar com o Dr. Francisco Capelo um contrato de tal modo frágil que permitiu que este se libertasse dele quando o entendeu.

 

Descobrir um comprador da "esfera pública"que a adquira em bloco .

 

Vender a Colecção em fracções seria abdicar de todas as ideias expressas e objectivos definidos pelo seu proprietário. O comprador desejado teria que ser da esfera pública, o que significa Estado ou entidade ligada ao Estado.

As exigências postas por Capelo e que atrás chamei de "fama" e "poder" dificilmente seriam aceites por qualquer entidade estrangeira da esfera pública.

Estas limitações deixam como único comprador conveniente o Estado português, directa ou indirectamente.

 

. Um comprador que ceda às suas duas exigências fundamentais:

 

Manter o seu nome ligado à Colecção ( fama eterna )

 

E mantê-lo a ele como gestor da Colecção ( poder vitalício )

 

. Um comprador com capacidade financeira para pagar

 

É evidente que em 1998 ou 1999 está não seria uma condição impeditiva pois, a acreditarmos na sinceridade das suas afirmações, Capelo estava na disposição de doar a Colecção e, no caso do Estado Português, as suas exigências não seriam. impedimento .

 

VI

 

Quando chegamos aqui deparamo-nos com uma situação totalmente inesperada.

 

Em 2003 Capelo, contra tudo o que tinha dito e tinha feito crer, concretiza a venda da Colecção à Câmara Municipal de Lisboa.

 

6.666. 666 euros , pagável em quinze anos (sem juros, ou, pelo menos, o contrato não lhe faz menção; verifiquei depois, pelo que se disse na Assembleia Municipal, que houve juros e não despiciendos).

 

À primeira vista, o presidente da Câmara não sabia o que fazer com a Colecção. A Colecção mantém-se no CCB até 2006, ano em que é expulsa para dar lugar à Colecção Berardo lá colocada por uma decisão impulsiva e voluntarista do primeiro-ministro, muito semelhante à do Sr. presidente da Câmara de Lisboa três anos antes.

 

Aparentemente o Sr. presidente da Câmara foi levado por um impulso irresistível de comprar, impulso que justificou com razões inconsistentes que foram justamente denunciadas na Assembleia Municipal de Lisboa.

 

 

 

Só em 2006 a Câmara, empurrada pelas circunstâncias, decide alojar a Colecção no Palácio de Santa Catarina. As obras de recuperação e adaptação do edifício vão prolongar-se até 2007 !

 

VII

Epílogo

 

Três anos depois de ter anunciado por escrito a sua intenção de doar a sua colecção de design e, principalmente, depois do discurso emocionado, peremptório e arrogante às elites do país, autentico discurso de virgem ingénua falando a prostitutas, o Dr. Francisco Capelo prepara a sua saída do Centro Cultural de Belém, não cumprindo o contrato que tinha com esta instituição, e vende a sua colecção à Câmara Municipal de Lisboa.

 

Esta cambalhota indicia um tal despudor ético que me recuso a acreditar que seja o que parece. Há-de haver, por detrás do que vemos, uma outra explicação.

 

Por mais que imagine, só descortino uma hipótese - o Dr. Francisco Capelo foi "forçado" a engendrar uma saída airosa de Belém e a receber dinheiro pela sua Colecção.

 

Este é o mistério da colecção Francisco Capelo!

Este é o mistério do procedimento inesperado, por incompatível com seu discurso de 1999, do Dr. Francisco Capelo!

Este é o mistério da compra intempestiva da Colecção Capelo pelo Sr. Dr. Santana Lopes (C.M.L.).

 

Talvez o Sr. Dr. Francisco Capelo venha a esclarecer tudo isto daqui a dez anos.

 

VIII

Nota final

 

Em 11 de Maio de 2006, o Dr. Francisco Capelo foi o orador de uma "Tertúlia" sob o tema "Economia e Arte" realizada na Ordem dos Economistas...

 

Aí, pedi-lhe publicamente que me concedesse, em data que lhe conviesse, dez minutos para conversarmos sobre a "arte" de vender arte a entidades públicas . Respondeu-me, também publicamente, que era matéria sobre a qual só falaria daqui a dez anos.

 

No fim da sessão renovei-lhe o pedido; disse-me que sim, que lhe telefonasse daí a dias. Telefonei-lhe; disse-me que naquele momento não podia, mas que me telefonaria dentro de alguns dias.

 

Não posso aguardar mais tempo. Lamento profundamente que não tenhamos podido conversar.

 

 

06 de Junho de 2006

 

 

J. Vicente Pinto

 

 

 

 

 

 

 

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