DANIEL SAMPAIO – E SE O SR. PROF. PEDISSE PERDÃO?!

 

 

 

 

I

 

Antes de mais devo dizer que, avaliando os péssimos resultados da sua acção, tenho uma reduzida consideração por pedagogos, psicólogos ligados ao ensino, conselheiros de pais e de filhos e, de uma maneira geral, pelos pregadores comportamentais que lançaram a confusão em matéria de educação nas pobres mentes de muitos pais. E deram a outros intervenientes no processo educativo, comodistas e/ou incompetentes, o álibi das “novas ideias”. A sua acção tem sido nefasta, com consequências irreparáveis para o país, colocando muitos pais a pisar um terreno cheio de incertezas e levando-os a práticas inseguras e aberrantes no exercício, delicado, difícil e desgastante da arte de educarem os seus filhos, isto é, de criarem cidadãos responsáveis.

 

Esta minha posição não se dirigia contra ninguém em particular. Era , digamos, uma reacção contra desconhecidos, ainda que, por vezes, me insurgisse contra o “ministério”. Pouco conhecedor dos meandros desta praga sinistra que atingia o país; não identificava ninguém suficientemente importante para eleger como um dos porta-bandeiras desta legião da desgraça.

 

Claro, conhecia de nome o Prof. Daniel Sampaio, mas, dada a ligeireza dos seus escritos que, às vezes, lia, admiti que se tratasse de um elemento de segunda linha; possivelmente um bom psiquiatra doublé de divulgador de teorias em moda sobre educação. E por isso, por julgá-lo um actor secundário, não dei a devida importância a declarações que fez em entrevista que cito mais adiante.

 

II

 

Há umas semanas cruzei com o último livro do Prof. Daniel Sampaio; o subtítulo “Um novo olhar sobre o relacionamento entre pais e filhos” fez-me lembrar a sua entrevista acima referida. Hoje resolvi dar-lhe uma vista de olhos.

 

Surpresa!

 

Esta edição tem uma tiragem de 40 000 (quarenta mil) exemplares, o que atesta que o Prof. Daniel Sampaio tem uma audiência (e uma influência) impar na acção educativa em Portugal.

 

…Começou a interessar-se pela escola há trinta anos…/ Realizou até hoje mais de mil sessões em escolas – educa alunos e professores…/…E também educa pais…/…Em sessões públicas e privadas…/…No consultório e fora dele…/…Pela palavra e pela escrita…/…Educa a opinião pública…

 

Por pouco não chegou a educar-me a mim. Dois ou três anos antes de ele iniciar a sua acção educativa eu já tinha sido presidente da direcção de uma das primeiras associações de pais criadas no nosso país, a do liceu Padre António Vieira.

 

O Prof. Daniel Sampaio foi um dos apóstolos (e, pela sua notoriedade e aceitação, dos principais) da escola dos afectos – escola em que todos os dias são de festa, escola dos direitos sem deveres nem responsabilidades.

 

A doutrina da escola dos afectos inchou e acabou com a, já degradada, escola pré 25 de Abril, deu álibi aos pais e professores incompetentes, facilitou a vida aos comodistas e, certamente, destruiu alguns, pais e professores, dos muitos que se esforçaram por cumprir a sua difícil missão. E prejudicou uma parte, talvez muito significativa, da juventude.

 

III

 

O Prof. Daniel Sampaio deu, a Laurinda Alves, uma entrevista, publicada na XIS de 02 de Outubro de 2004, de que cito parte: (negrito, meu)

 

LA : Começou com os professores, mas e os alunos? O que é que pode mudar? DS : É muito importante perceber que a escola não é só prazer ! Neste capítulo devo dizer que faço uma autocrítica , porque todos nós durante algum tempo (em especial a seguir ao 25 de Abril) tivemos uma visão muito romântica da escola e defendemos que devia ser a escola dos afectos . LA: A sua experiência veio provar o contrário? DS : Não era o caminho mais indicado. Tem que haver esforço e algum sacrifício , de facto. A escola ganhou uma dimensão lúdica desproporcionada . Os alunos não vão para a escola para se socializarem nem para estarem com os amigos. O processo de aprendizagem tem que estar ligado à ideia de esforço desde o primeiro ciclo básico.

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LA :..A autodisciplina deve ser a primeira regra, portanto? DS : Sim porque a indisciplina não nasce por geração espontânea. Decorre de uma interiorização das regras sociais que vem do primeiro ciclo. É fundamental ser mais exigente no primeiro ciclo .

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IV

 

Depois de vinte ou vinte e cinco anos de pregação da escola dos afectos, o Prof. Daniel Sampaio faz uma inversão de marcha e passa a pregar trabalho, esforço, sacrifício, disciplina, responsabilização, e, isto, desde o primeiro ciclo. São novas ideias na sua cartilha, ideias que não descobriu sozinho, pois, como diz na última folha do seu livro, foi influenciado pelo francês Daniel Marcelli “ no tema da autoridade e na importância da infância” e ajudado pelos anglo-saxónicos Ron Taffel e Philip Graham , “ na ideia fundamental de responsabilizar os jovens em vez de os infantilizar ”.

 

V

 

A evidente paz de espírito com que o Prof. Daniel Sampaio faz autocrítica, isto é, reconhece o seu erro, e segue em nova direcção, arrepia . Não houve culpa! Tudo se passa como se a sua doutrinação, que agora reconhece errada, não tivesse tido quaisquer consequências, como se não tivesse, prejudicando alunos, pais e professores, atingido profundamente o país, com sequelas que permanecerão por muitos anos.

 

Penso que se o Prof. Daniel Sampaio reconhecesse a sua culpa e pedisse perdão prestaria um grande serviço ao país. A sua notoriedade, daria ao seu acto enorme repercussão, e alertaria para o erro em que muitos continuam a persistir e contribuiria, seguramente, para uma mudança mais rápida de mentalidades e de práticas, que hoje sabe serem incorrectas mas para a propagação das quais, como confessa, contribuiu.

 

 

 

J. Vicente Pinto

 

 

26-02-2007

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