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AVALIAÇÃO.
QUE AVALIAÇÃO?
Daniel,
o filho do “caleiro”, e Carlos, o aprendiz de sapateiro
Quando
eu tinha dez ou doze anos havia na minha aldeia um aprendiz de sapateiro
cujo sonho era ser corredor de bicicleta. Durante a época do ciclismo
comprava todas as semanas a Stadium e recortava as fotografias
de José Maria Nicolau, o seu ídolo, que colava nas paredes
da minúscula oficina onde trabalhava.
O
Carlos não tinha bicicleta.
Todos
os anos, em Agosto, um grupo de uma aldeia vizinha organizava um circuito
ciclista para a rapaziada de várias freguesias, circuito que passava
por todas elas e tinha, assim, assistência certa em todo o percurso.
O
Carlos era um dos participantes habituais.
Nos
princípios de Julho o Carlos ia a minha casa e pedia, emprestada,
uma bicicleta. Meu pai sempre lhe emprestava a “bicicleta velha” – uma
velha bicicleta de uns trinta quilos, ferrugenta, em precário estado
de afinação, com a corrente bamba e as rodas empenadas,
que já nem o rapaz dos recados, o mais modestos dos residentes,
queria utilizar.
O
Carlos fazia meia dúzia de “treinos” e no dia da corrida alinhava
à partida com uns calções feitos de umas calças
velhas, uma camisola interior de mangas compridas e as botas do dia a
dia.
O
Carlos nunca ganhou uma corrida, mas normalmente situava-se entre os cinco
primeiros, o que era um milagre de força de vontade e de esforço
físico, se considerarmos que havia sempre mais de trinta concorrentes,
todos com melhores máquinas que a sua.
O
Carlos nunca teve os aplausos da pequena multidão que se juntava
junto à meta, no Largo do Coreto.
Os
abraços dos amigos e conhecidos, as palmadas nas costas dadas por
simples desconhecidos, o olhar encantado das raparigas, a taça
e o abraço do presidente da junta, os cumprimentos do senhor prior,
sempre foram parar ao filho do “caleiro”.
O
“caleiro” vivia numa aldeia vizinha onde tinha um armazém de materiais
de construção, mas o seu principal negócio era a
venda de cal, que recebia aos vagons e distribuía por cinco ou
seis concelhos.
Era
um homem muito considerado e vivia bem.
Tinha
duas enormes galeras puxadas, cada uma, por quatro belíssimos cavalos.
Quando os amigos mais íntimos lhe diziam que era um desperdício
trazer cavalos daquela qualidade como animais de tiro costumava responder,
quando respondia, “estes cavalos são os meus melhores vendedores”.
O
“caleiro” era um homem sagaz! Aqueles cavalos eram o seu luxo e o seu
orgulho.
Não
digo bem – aqueles cavalos e o seu filho, o Daniel, eram o seu luxo e
o seu orgulho.
O
Daniel, tal como o Carlos, também queria ser corredor de bicicleta.
Ou melhor, gostaria de ser corredor de bicicleta.
Dizia-se
que o pai não estava pelos ajustes, que o queria Dr., no que não
cedia, mas fora disso satisfazia-lhe todas as vontades…
A
partir de Junho, o Daniel ia todos os fins-de-semana a casa – treinava
ao domingo, devidamente equipado, como se fosse um profissional, sendo
alvo da inveja de todos os seus próximos concorrentes no circuito
de Agosto e motivo da admiração de todos o que o viam.
E,
realmente, era de fazer inveja e admiração. O Daniel era
um perfeito encenador / actor.
Parava
nas aldeias e, a pretexto de beber um pirolito ou uma limonada, entrava
nas tabernas ficando a bicicleta junto da porta, encostada à parede.
Bebia pausadamente deixando passar o tempo
Quando
saía encontrava sempre um ajuntamento de todas as idades e sexos
que olhava embevecido para a sua bicicleta.
Ainda
estou a vê-la!
Era
uma bicicleta branca, brilhante, de pintura impecável, de estrutura
e pneus tão delicados que seria milagre que alguém a montasse
sem que ela se desfizesse; o quadro parecia feito de arame e os pneus
de tripa de borrego acabado de nascer. O peso era o de uma pluma que uma
leve aragem levanta e na brancura de um dos tubos do seu quadro tinha
escrito a letras douradas Olympique , a sua marca.
Daniel
chegava, montava lentamente e arrancava.
E
todos nós ficávamos a pensar que correr numa bicicleta daquelas
era como voar montado num sonho.
Daniel
sempre ganhou o circuito das três aldeias. E todos nós sempre
o aplaudimos, sem reservas, como o melhor ciclista da região.
Há
dias, arrumando uns papéis, encontrei um jornal com uma listagem
das escolas do país graduadas pelas notas dos seus alunos, sugerindo
de uma maneira simplista que as classificações – sem mais
– podem ser usadas para avaliar as escolas e os professores.
Lembrei-me
do filho de “caleiro” e do sapateiro aprendiz; lembrei-me da bicicleta
de sonho e da pasteleira de trinta quilos … e senti um enorme vontade
de procurar o Carlos e dizer-lhe que estávamos todos enganados,
que ele merecia, tanto ou mais que o Daniel, os nossos aplausos.
Infelizmente,
o Carlos já morreu há muito!
09-10-2006
J.
Vicente Pinto
Nota
– Esta pequena história foi enviada á Senhora Ministra da
Educação em 20/10/2006
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