DELINQUÊNCIA JUVENIL-CARTA A NUNO PACHECO,

DIRECTOR ADJUNTO DO PÚBLICO

 

 

A propósito do texto

A noite das facas curtas ” (ver em anexo)

publicado no Público, última folha, em 08 de Julho de 2008.

 

 

 

Exmo.. Senhor Nuno Pacheco,

 

I

Sou seu leitor.

 

Li o texto acima referido.

 

Fiquei a saber:

 

•  que em Londres dois jovens investigadores científicos, franceses, foram assassinados no seu apartamento (“243 facadas, os corpos amarrados, queimados e o apartamento incendiado”);

 

•  que em França vai um clamor imenso na opinião pública a propósito deste acontecimento;

 

•  que em Londres se tomou consciência de que “as facas são neste momento um perigo real para os seus habitantes”;

 

•  que “não apenas um perigo real mas também o maior perigo” – em 2007, 14 000 pessoas feridas com arma branca, 38 esfaqueados por dia, 31 mortos só em 2008;

 

•  que das 14 000 pessoas feridas por arma branca, 446 eram menores de 14 anos.

 

E o Senhor pergunta:

 

“O que terá ocasionado esta febre da arma branca, onde os jovens partilham o papel de vítimas e executores ? A pertença a gangs da nova era, muito longe dos west side stories de outrora, é uma explicação. A necessidade de autodefesa* é outra.”

 

* Autodefesa não é crime; é reacção ao crime.

 

II

•  Tomei também conhecimento da existência de um vídeo ”no mínimo perturbante e assustador ” em que um gang de jovens espalha violência gratuita sobre cidadãos indefesos.

 

•  O vídeo é encenado e o seu autor diz que é uma “denúncia” e que a violência gratuita é também mostrada nos noticiários e ninguém protesta.

 

E o Senhor. escreve:

 

“Mas depois do frémito que o brutal crime de Londres provocou é difícil dar-lhe razão”.

 

III

 

Senhor Nuno Pacheco,

 

O problema da juventude “desviada” é um dos grandes problema de hoje – problema que, sob a pressão demográfica crescente (dentro de 40 anos seremos 9000 milhões em lugar dos 6500 milhões de hoje) e do acréscimo da escassez, per capita, dos recursos, vai aumentar exponencialmente, se o deixarmos evoluir sem peias.

 

Neste texto, o Senhor veste a pele do narrador. Não chega!

 

O Senhor é um homem inteligente, jornalista com uma larga experiência da vida e do mundo. Sente-se que o que narra é, para si, fonte de preocupação. Não acredito que o Senhor não tenha meditado já sobre a juventude marginal “desviada” para a prática, habitual ou acidental, de actividades criminosas.

 

 

PEÇO-LHE:

 

1º - que diga aos seus leitores, como complemento do texto referido acima, o que pensa sobre o problema da juventude “desviada” – causas e, principalmente, acções defensivas e acções preventivas a implementar;

 

2º - que procure convencer o seu jornal a promover uma discussão aprofundada e séria deste tema vital.

 

 

Cordialmente,

 

08 de Julho de 2008

 

Joaquim Vicente Pinto

 

 

ANEXO A, texto a que se refere esta carta e que lhe deu origem

 

 

“A noite das facas curtas

 

Nuno Pacheco

 

Q titulo não tem qualquer ironia, pelo contrário. Gabriel Ferez era um estudante como muitos outros, mas, a crer no reitor do Imperial College, teria até uni futuro bem melhor do que muitos outros. Investigava uma bactéria que podia vira ser usada como etanol, ou seja, como combustível. Um assunto da moda e uma premência mundial. Com ele estava Laurent Bonomo, que no mesmo Imperial College estudava um parasita que passaria de gatos para fetos humanos, O reitor augurava-lhes um “futuro brilhante”,

Enganou-se e não foi culpa dele. Gabriel e Laurent, ambos franceses, de 23 anos, foram mortos numa noite de domingo, há uma semana, no apartamento que um deles alugara em Sterling Gardens , uma zona calma de Londres,

A brutalidade do assassinato (243 facadas, os corpos amarrados, queimados e o apartamento incendiado) levantou um clamor imenso em França, onde a opinião pública passou a designar Londres como “selva” e “cidade das !âminas”, mas também em Londres, onde se descobriu (ou enfim se reparou) que as facas são neste momento um perigo real para os seus habitantes.

Não apenas um perigo real, mas também o maior perigo. A cada 50 minutos, dizem os números, há um ataque com facas na Grã-Bretanha. Resultado? 14 mil pessoas feridas por armas brancas em 2007 (e estas foram apenas as que deram entrada nos hospitais), 38 esfaqueamentos por dia, 31 mortos só em 2008.

A ponto de o Governo britânico ter encomendado, não só para polícias mas também para seguranças e professores, casacos à prova de lâmina. Só os alunos não foram incluídos na encomenda, apesar de poderem ser eles as primeiras vítimas (446 esfaqueados em 2007 eram menores de 14 anos).

O que terá ocasionado esta febre da arma branca, onde os jovens partilham o papel de vítimas e executores? A pertença a gangs da nova era, muito longe dos west side stories de outrora, é uma explicação. A necessidade de autodefesa é outra.

Nos Estados Unidos, onde os policias andam armados até aos dentes, o trivial são as pistolas. No Reino Unido, onde a polícia anda tradicionalmente só de bastão, o “normal” são, pelos vistos, as facas. E os adolescentes começam a bater recordes de crimes violentos, sem que eles possam ser atribuidos casuisticamente a excessos migratórios (Londres é, há muito, uma cidade de todas as cores e raças) ou até a margens incontroláveis da working class.

Enquanto Londres busca uma explicação, e uma defesa, para o temor que dela se apossou, não deixa de ser curioso espreitar o polémico vídeo Stress, do grupoJustice, tão francês quanto os jovens agora brutalmente mortos em Londres. Disseminou-se como um vírus pelo espaço virtual e é, no mínimo, perturbante e assustador: um gang de jovens, negros e brancos, vestido com blusões de couro preto e armado de bastões. espalha em curtos minutos uma onda de violência gratuita contra cidadãos indefesos. Vandalismo, agressões, espancamentos, roubos, destruição pelo fogo, fazem parte da “festa”, regada a música de dança tortuosa e febril.

O vídeo é encenado, não real, e foi realizado por Romain-Gavras, filho do cineasta francês de origem grega Costa-Gavras, autor de filmes com uma visão claramente de esquerda como Z ou Estado de Sítio.

O fantasma de Laranja Mecânica é imediato, mas há qualquer coisa de mais aterrador nesta violência que atravessa os territórios mais banais do nosso quotidiano. Como se um magma silencioso e imenso estivesse prestes a irromper do subsolo e a transformar em pesadelo os nossos dias.

Romain-Gavras diz que o seu filme é uma denúncia. E que a violência é também mostrada nos noticiários, todos os dias, sem que alguém proteste.

Mas depois do frémito que o brutal crime de Londres provocou, não fácil dar-lhe razão. As ondas de violência irracionais levam, sempre, a coisas bem piores.

 

 

ANEXO B, Por que vem a propósito , notícia publicada no Público, em , sobre delinquência na Madeira

{novo texto / imagens}