EU, OS IRLANDESES E O TRATADO DE LISBOA

 

1ª edição , 04-05- 2008, in Sol.sapo.blogs.vicentepinto

 

I

 

O Público de ontem, em correspondência de Bruxelas, informava que, em dois meses , as intenções de voto dos irlandeses no que respeita ao próximo referendo para ratificação do Tratado de Lisboa, sofreram uma alteração notável.

 

A percentagem de indecisos manteve-se praticamente estável – aumentou 1 %, de 33 % para 34 % - mas as intenções de não passaram de 24 % para 31 % e as de sim desceram de 43 % para 35 % .

 

È uma estranha reviravolta da opinião dos irlandeses; tanto mais estranha quanto é certo que se trata de um tema fulcral do futuro dos europeus que vem a ser discutido há muito tempo.

 

O que faz os irlandeses reverem a sua posição e oscilarem na sua opção? O que os assusta?

 

II

 

O mundo e os equilíbrios do século XX estão mortos. Está em curso o seu enterro e em adiantados trabalhos de parto a formatação de um MUNDO NOVO.

 

A China está a afirmar-se como um gigante do futuro; os Estados Unidos permanecerão como um poder gigantesco. Nenhum estado europeu pode ombrear com qualquer destes dois poderes.

 

Hoje, a Europa (somatório das economias dos países-membros) é uma grande potência económica, mas não tem peso real na condução dos negócios do mundo. E, mais grave, a leveza da sua insignificância, conduzida como está a ser, só poderá agravar-se.com o decurso do tempo.

 

Caminhamos rapidamente para um mundo com duas cabeças imperiais, norteadas pela convicção, orgulho e ambição do poder hegemónico ou, simplesmente, pela necessidade de dar resposta a constrangimentos internos. A Europa sem peso, mais não é, nem será, que poeira ao sabor de ventos que outros desencadeiem. (Eu sei que haverá outros potenciais candidatos ao poder do mundo, mas, neste momento e nos próximos decénios, serão comparsas de segunda linha, sem peso decisivo.)

 

Duas cabeças imperiais constituirão, nesta pequena panela de pressão, sem controlo nem válvula de escape, rodopiando no espaço, uma dupla em permanente e perigoso equilíbrio instável, a não ser no caso, improvável, de os deuses iluminarem os espíritos dos respectivos governantes conduzindo-os a um novo tratado de Tordesilhas.

 

Mas, será o mundo de hoje capaz de produzir novas edições de D. João II, de Portugal, e Fernando e Isabel, de Castela? Não o creio!

 

E aceitaria o mundo de hoje a divisão explícita do planeta Terra em duas esferas de influência? Improvável!

 

III

 

A Humanidade tem que enfrentar, neste século, terríveis problemas de sobrevivência, quase todos resultantes da carga populacional excessiva e, mais alarmante ainda, do crescimento galopante da população mundial.

 

São problemas cuja solução só é possível mediante uma acção global e concertada, impensável num mundo instável, como será, inevitavelmente, o tal mundo de duas cabeças s de que falei acima, para o qual nos dirigimos em queda livre.

 

A banqueta em construção – E.U.A./China – só tem duas pernas, não permite estabilidade. O mundo precisa de uma terceira perna e só a União Europeia pode ser preparada em tempo útil para assumir esta responsabilidade.

 

IV

 

Sou europeísta, isto é, sem deixar de ser português, quero ser cidadão de uma Europa politicamente organizada, herdeira dos estados que nos últimos quinhentos anos contribuíram mais que nenhuns outros para a construção do mundo actual; quero ser cidadão de uma entidade política que faça parte da vanguarda do mundo, com potência económica, que já tem, princípios éticos e força militar para ter voz activa e respeitada na resolução dos problemas da Humanidade.

 

Sou europeísta.

 

Sou europeísta, mas tenho medo...

 

Tenho medo porque a Europa não tem políticos à altura das suas necessidades e das necessidades que o mundo vive e porque temo que a parte do seu povo cívica e politicamente degradada seja, já, demasiado pesada.

 

 

Os irlandeses estavam até há pouco do lado do Tratado de Lisboa.

 

Agora oscilam! Será que também têm medo idêntico ao meu?

 

Creio que a Humanidade precisa que nós, europeus, arrisquemos! Que arrisquemos, para sermos alguma coisa mais do que, simplesmente, um passado!

 

 

 

01 de Maio de 2008

 

J. Vicente Pinto

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