|
FURANDO
A CORTINA, EM NOVEMBRO DE 74
De
1 a 31 de Novembro de 1974 fiz, com meu filho, então com 17 anos,
uma viagem de estudo, sob nossa exclusiva responsabilidade e a expensas
nossas, a alguns países comunistas – Jugoslávia, Hungria,
Checoslováquia e RDA.
Aparelhámos
um mini com bancos reclináveis e partimos. Só tínhamos
vistos para a Jugoslávia, arrancados com determinação
e sob a “ameaça” de que, com visto ou sem visto, partiríamos.
E solenemente prevenidos pelo representante diplomático deste país
de que seríamos postos na fronteira pela primeira autoridade que
se apercebesse do que queríamos conhecer.
Foi
uma viagem extraordinária, de que vou referir as peripécias
de obtenção dos vistos que os representantes diplomáticos
em Lisboa se tinham negado a conceder-nos e que, com muita determinação
e alguma sorte, fomos conseguindo ao longo da viagem.
O
visto para a Hungria foi obtido na Jugoslávia sem qualquer dificuldade.
Ainda
na Jugoslávia conseguimos arrancar a ferros e com algumas mentiras
à mistura um visto para a RDA, mas que expressamente dizia que
não podíamos permanecer no país nem parar na nossa
travessia. Chegamos à fronteira húngara/checoslovaca sem
visto e percebemos imediatamente que a hipótese de o obtermos era
nula. Passámos horas a parlamentar com os funcionários da
polícia (?) que nos aturavam com extraordinária paciência
mas permaneciam inabaláveis (creio que fingiam que davam seguimento
às nossas sugestões de diligências).
Um
aparte: Tínhamos combinado em Lisboa encontrarmo-nos com uma
amiga nossa, na época assistente da Faculdade de Letras de Lisboa,
hoje catedrática reformada, que iria a um congresso em Budapeste;
encontrámo-nos, de facto, e ela resolveu ir connosco até
Praga, seguindo daqui para Portugal. (fim do aparte)
Como
dizia, estávamos na fronteira tentando entrar na Checoslováquia.
Em
certo momento, dirigimo-nos de novo ao balcão para perguntarmos
se as últimas diligências que tínhamos sugerido tinham
resultado. Ouvimos mais uma vez que, definitivamente ,
não havia vistos. A nossa amiga começou a cantarolar uma
canção russa. O homem que nos atendia parou, depois chamou
os colegas que estavam mais próximos, a seguir, todos sorriram
e passado menos de um quarto de hora tínhamos os vistos.
Por
último, tínhamos o caso do visto para a RDA. Estávamos
convencidos que, munidos do visto para a travessia, obter um visto para
permanecer oito dias (era o tempo que estava previsto no nosso programa)
não seria nada que não fossemos capazes de resolver. Cedo
verificámos que estávamos enganados.
Primeiro,
fomos retidos na fronteira durante horas. Tendo saído de Praga
de manhã, chegámos a Dresden cerca das onze da noite. Alojamento?
Impossível. Quando mostrávamos os passaportes era-nos dito
que não podiam receber-nos, pois o nosso visto só nos permitia
transitar. Já passava da meia-noite, resolvemos ir ao quartel da
polícia. Insistimos em falar com o “oficial de dia” ( ?). Quando
o homem apareceu e expusemos o nosso problema – dormida – percebemos imediatamente
que nada havia a fazer: autorizar-nos a dormir em Dresden ultrapassava
as suas competências.
Aconselhou-nos
a metermo-nos a caminho e ir dormindo, por pequenos períodos, nos
postos de abastecimento de gasolina. Assim fizemos.
Chegámos
a Berlim, Alexander Platz , ao romper do dia. Estacionámos em frente
ao departamento oficial que distribuía os estrangeiros pelos hotéis
e, eventualmente, concedia vistos.
Atribuíram-nos
um hotel e disseram-nos que tínhamos que sair do país no
dia seguinte de manhã. Gastámos esse dia em diligências
para obter um visto que nos permitisse permanecer oito dias – impossível,
já tínhamos um visto, e esse visto só nos permitia
transitar até Berlim. Chegados aqui, tínhamos que sair.
No
dia seguinte, voltámos ao departamento por onde tínhamos
começado no dia anterior. Era o mesmo funcionário; recebeu-nos
visivelmente agastado com a nossa insistência. Despediu-nos definitivamente
.
A
sala era grande e junto da porta de saída havia um guichet onde
estava um homem fardado (polícia?). Dirigimo-nos ao homem, contámos
a nossa história, o nosso objectivo, os quilómetros que
tínhamos andado para chegar ali e pedimos o visto.
Não
fez comentários. Disse, simplesmente, “para isso eu tenho poderes!”
Vou dar-lhes mais oito dias. Alterou a data da validade do visto, assinou
e pôs um carimbo. Estava feito!
Para
que conto isto?
Conto-o
porque ilustra, com situações simples, contradições
existentes nos regimes comunistas e mostra como, em muitos casos, havia
um poder real e discricionário nas zonas mais baixas da hierarquia,
poder que nos permitiu com determinação e muita sorte furar
a cortina.
E
também para situar o nosso encontro com um clarividente comunista,
português, professor na Universidade de Humbolt , em que falarei
num próximo texto sobre Costa Gomes.
04-08-2007
J.
Vicente Pinto
{novo texto / imagens}
|