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INCOMATI 84 – ALMEIDA SANTOS; autor e encenador, e nós, lisboetas e deputados, como peças do “décor”

 

Para que não esqueçamos a história

 

Elenco:

António Almeida Santos

Mário Soares

Samora Machel (Moçambique)

P. W. Botha (África do Sul)

Pik Botha. (África do Sul)

Harry Oppenheimer (Inglaterra / África do Sul)

Chester Croker, (Estados Unidos da América)

Figurantes, como peças do “décor”: lisboetas e deputados portugueses.

 

 

I

 

Março de 2007

 

Li o livro QUASE MEMÓRIAS do Sr. Dr. António Almeida Santos. e, finalmente, pareceu-me ter encontrado resposta para uma parte das dúvidas com que fiquei, em 2005, ao ler as declarações do Sr. Berardo. (Ler o texto “Berardo e Almeida Santos, parceiros?”)

O Sr. Dr. Almeida Santos não fala no seu livro de qualquer acordo celebrado, por volta de 74/75, com a sua intervenção, entre Machel e P.W. Botha e não dei, em qualquer dos dois volumes, por qualquer referência ao Sr. José Berardo.

 

Mas o Sr. Dr. Almeida Santos não se esquece de falar, no 2º volume, da sua iniciativa de promover um acordo entre Moçambique (Machel) e a África do Sul (Pick Botha) – veio a dar o chamado Acordo de Incomati, de 1984.

 

A página 115 é elucidativa. Transcrevo:

 

“… a propósito do acordo de Incomati, um acordo de cooperação e boa vizinhança entre Moçambique e a África do Sul que Machel negociou e assinou a meu conselho e com a minha ajuda .

Nenhum de nós desconhecia que a África do Sul era a bête noir do ódio rácico. O também odiado apartheid – sistema de extrema separação social com base na cor da pele – era a nódoa mais suja da consciência universal . Nos areópagos internacionais era mais batido do que a pele de um tambor. Mas a África do Sul era o mais poderoso vizinho de Moçambique e o mais desenvolvido e rico país africano. O volume de interesses recíprocos – ligações ferro e rodoviárias, trocas comerciais, fluxos turísticos, mão-de-obra de Moçambique nas minas do Transval, paga em ouro , etc. – aconselhava uma detente na bravata desigual até então travada. A África do Sul oscilava entre o entendimento e a desestabilização. Podia, se quisesse, criar focos de instabilidade do lado de cá da fronteira. Ainda assim, do que se tratava não era ‘beijar a mão que se não pode cortar'. Era tão-só apertar a mão que pode cortar a nossa.

Revelando pragmatismo, Machel acabou por aceitar a ideia. Prometi-lhe aplanar o terreno . E assim fiz. Falei com Pik Bottha, Ministro dos Negócios Estrangeiros da África do Sul, que se mostrou interessado, e com Chester Croker, secretário de Estado para os Assuntos Africanos dos EUA, que depois me enviou um telegrama entusiástico. E propus-lhe o seguinte plano : ele visitava Portugal e outros países europeus, em último lugar a Inglaterra. Em Londres eu juntava-me a ele e apresentava-lhe o magnata sul-africano Harry Oppenheimer, de cujo grupo económico eu havia sido advogado , e a quem pediria que, depois, o credenciasse como interlocutor de confiança junto do Governo da África do Sul.

 

Este texto, pasmoso a vários títulos, afirma a extraordinária influência que o Dr. Almeida Santos tinha sobre o seu velho amigo Samora Machel – Machel tinha sido cliente de Almeida Santos antes do 25 de Abril e, em 1974, quando da cimeira de Dar-es-Salam (15 e 16 de Agosto) para a descolonização de Moçambique, já havia entre eles “um informalismo e um à-vontade de verdadeiros amigos ”. (fl. 87 do 2º volume de Quase Memorias. O acordo de Lusaca foi assinado em 07 de Setembro). E mostra a extraordinária confiança que Oppenheimer tinha no Dr. Almeida Santos.

 

Em 1983, os sul-africanos conheciam, seguramente, a dimensão desta influência sobre Machel e o Poder sul-africano aceitava o Dr. Almeida Santos como fiador de Machel.

 

Almeida Santos serviu assim, simultaneamente, Machel e o Governo da África do Sul. Fê-lo, certamente, com grande sacrifício dos seus ideais anti - apartheid (“a nódoa mais suja da consciência universal”) pois por este Acordo, que resultou do seu conselho e da sua ajuda, Moçambique obrigou-se a banir do seu território as bases do ANC - Congresso Nacional Africano e a por termo a qualquer apoio logístico a esta organização, traindo os seus compromissos com a Frente Anti -Apartheid de que, com Angola, Namíbia, Zimbabwe e Zâmbia, fazia parte.

 

O ANC – Congresso Nacional Africano, organização nascida em 1912, era a entidade cimeira na luta anti – apartheid.

 

P. W. Botha dominou Machel; Machel conseguiu que Moçambique sobrevivesse à terrível crise em que se encontrava. Machel e Almeida Santos, pragmáticos, sacrificaram o apartheid … Machel pelo seu país; Almeida Santos … por uma boa causa!

 

Almeida Santos para servir Machel teve que servir o governo sul-africano; para servir o governo sul-africano teve que servir Machel. De facto, matou dois coelhos de uma só cajadada.

 

II

 

Aparentemente, esta estratégia concebida pelo Dr. Almeida Santos nada tem a ver com Portugal nem com os portugueses

 

Não sou desta opinião.

 

O Dr. Almeida Santos, seguramente com a conivência do Dr. Mário Soares, usou Portugal e os portugueses para servir Moçambique e a África do Sul. Ele próprio o revela na referida página 115.

 

Transcrevo:

 

“O Acordo de Incomati – Machel visita Portugal

 

Visitei algumas vezes Moçambique e o presidente Samora Machel. E tocado pelas suas manifestações de afecto a Portugal acabei por lhe sugerir que nos visitasse. Aceitou a sugestão com natural reserva. Como seria recebido?

Procurei tranquilizá-lo. Demais sabia eu que ele tinha uma rara capacidade de cativar quem queria cativar . E o trauma da descolonização havia, em parte, ficado para trás.”

 

Com as suas dúvidas sobre a maneira como seria recebido pelos portugueses Machel mostra-se um homem digno e correcto pois, colocando-se no lugar dos portugueses, aceita, como coisa normal, que estes pudessem estar ressentidos com ele.

 

O Sr. Dr. Almeida Santos, ao escrever E tocado pelas suas manifestações de afecto a Portugal acabei por lhe sugerir que nos visitasse, desvia-se da verdade com um quase obsceno à-vontade.

 

O próprio Dr. Almeida Santos nos diz no seu livro que a passagem de Machel por Portugal estava integrada na sua estratégia para o levar a Oppenheimer, para que este aceitasse recomendá-o ao governo da África do Sul.

 

Uma cordial recepção em Portugal era valiosa para o sucesso da diligência.

 

E o Sr. Dr. Almeida Santos e o seu “compagnon de route” Sr. Dr. Mário Soares, ministro e primeiro-ministro de Portugal, não tiveram dúvidas em manipular os portugueses para servir os interesses de Machel e Botha.

 

A vinda de Machel a Portugal aconteceu integrada no cenário que o Dr. Almeida Santos montou para mostrar a Harry Oppenheimer e ao Governo Sul-Africano que Machell era um chefe de estado respeitável e aceite. E nada mais adequado para esse objectivo do que abrir o espectáculo com uma manifestação pública de aceitação e respeito do povo e dos políticos portugueses.

 

Como diz o Dr. Almeida Santos (transcrevo, de novo, da página 115):

 

Prometi-lhe aplanar o terreno. E assim fiz. ...   E propus-lhe o seguinte plano : ele visitava Portugal e outros países europeus, em último lugar a Inglaterra. Em Londres eu juntava-me a ele e apresentava-lhe o magnata sul-africano Harry Oppenheimer, …

 

Machel continuava a duvidar que fosse bem recebido em Lisboa.

 

O Dr. Almeida Santos mandou a Moçambique uma equipa da TV portuguesa “que gravaria uma entrevista dele em que metia no coração (sic) o povo português como só ele sabia fazer”.

 

“A equipa foi. E o programa passou na televisão na véspera da chegada de Machel. Foi exímio em cativar a opinião pública portuguesa. Nas ruas por onde passou as pessoas juntavam-se a ovacioná-lo. Nem um só gesto de desagrado! Um só!”

 

Vê-se que o Dr. Almeida Santos ficou manifestamente satisfeito com o resultado sua encenação.

 

Samora Machel foi muito bem recebido e discursou na Assembleia da Republica .

 

 

Se isto não é manipulação deliberada e a sangue-frio dos portugueses pelo seu próprio governo, então o que é?

 

O Dr. Almeida Santos e o Dr. Mário Soares não tiveram dúvidas, aproveitando serem governo de Portugal , em submeter o país, a favor de Machel e de P.W. Botha, a este triste papel.

 

 

12de Novembro de2007

 

 

J. Vicente Pinto

 

NOTAS:

 

Acordo de Incomati, celebrado em 16 de Março de1984

 

Almeida Santos - desempenhou os seguintes cargos no governo português

 

1974 (16/05) – 1975 (08/08 ) -..ministro da Coordenação Interterritorial dos I, II, III, e IV governos provisórios

………………………………

(intervalo de 42 dias, período de vida do VI governo; o PS decidiu não participar neste governo)

………………………………

1975(19/09) – 1976 (23/06), ministro da Comunicação Social do VI governo provisório;

 

1976 (23/06) – 1978 (29/08), ministro da Justiça do I governo constitucional e ministro adjunto do primeiro-ministro do II governo constitucional

………………………………

1983 (09/06) – 1985 (06/09), ministro de Estado e ministro dos Assuntos parlamentares no IX governo constitucional.

…………………………

 

Chester Croker foi secretário de Estado para os Assuntos Africanos dos EUA de 1981 a 1989 .

 

Mário Soares foi ministro ou primeiro-ministro em todos os governos em que participou Almeida Santos

 

P. W. Botha era, na altura dos acontecimentos aqui referidos, primeiro-ministro da África do Sul

 

Pik Botha era ministro dos Negócios Estrangeiros

 

Samora Machel morreu num acidente de aviação ocorrido na África do Sul em 1986. As causas deste acidente nunca foram apuradas. Muito possivelmente, alguns dirigentes e operacionais do ANC sorriram.

 

Relações diplomáticasde Moçambique com os EUA foram estabelecidas em 1983 .

 

Viagem europeia de Machel (Beija-mão a Harry Oppenheimer) realizou-se em 1983 .(Em Portugal – 07 de Outubro)

 

JVP

 

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