LÍNGUA, ACORDO ORTOGRÁFICO, DR. VASCO GRAÇA MOURA E MEU AVÔ ROQUE VICENTE

 

 

 

Li hoje na secção “Frases de ontem”, do Público , a seguinte citação do Sr. Dr. Vasco Graça Moura (Diário de Notícias):

“[O Acordo Ortográfico] requer um análise científica e técnica rigorosa em vez de um autismo obstinado. A língua portuguesa está protegida pela Constituição e é um bem mais importante que um simples aeroporto, por muito estruturante que ele seja.”

 

Estou inteiramente de acordo, julgo que estamos todos inteiramente de acordo, que a língua portuguesa é mais importante do que um simples aeroporto, ou, mesmo, do que uma cidade aeroportuária, por mais estruturante que seja. Só não compreendo o que esta afirmação tem a ver com o Acordo Ortográfico.

 

E a propósito não resisto a contar uma pequena história vivida por mim há setenta e cinco anos – devia eu ter uns nove anos.

 

O meu avô Roque Vicente, que acreditava firmemente em Deus, era amigo do senhor prior mas não ia à missa, era um leitor assíduo da Bíblia, livro de que tinha um exemplar quase em formato A 4, bastante antigo, que estacionava, quando não estava a ser lido por ele, em cima da cómoda no seu quarto.

 

Havia ordens estritas: era absolutamente proibido mexer naquele livro.

 

Aquele livro despertava em mim uma irresistível curiosidade, até que um dia, sabendo meu avô fora, e vencendo o respeito que tinha pelas suas ordens, fui a sua casa, escapei-me para o quarto dele e abri o livro. Com surpresa minha havia palavras que eu não conseguia decifrar - além de algumas letras diferentes das que tinha aprendido na escola e havia conjuntos de letras que era impossível pronunciar.

 

Depois de muito matutar no assunto e nas consequências da desobediência, se fosse conhecida, a minha curiosidade foi mais forte e resolvi arriscar. Pedi explicação a meu avô.

 

Levou-me para a sala. Abriu o livro. Procurou, manifestamente, um período e mandou-me lê-lo. Era mais hermético do que qualquer um que eu já tinha visto antes. Algumas palavras eram fáceis, pelos padrões do livro da escola, outras indecifráveis.

 

Meu avô puxou o livro para si, leu o período em voz alta e explicou-me (não garanto que tivesse sido com estas palavras; como disse, tinha na altura oito ou nove anos) que no tempo em que aquele livro tinha sido impresso havia letras que tinham forma diferente da actual (lembro-me vagamente que o v tinha forma de u, ou vice-versa) e que havia sons que eram representados por conjuntos de letras, que agora são representados por uma só; em resumo, que as palavras faladas (língua dita) eram reais e as suas representações gráficas (escrita) convencionais.

 

 

14 de Maio de 2008

 

J. Vicente Pinto

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