NICOLAS SARKOSY, O MÁGICO

 

 

I

 

Todo o presidente da União Europeia que se preze e tenha como objectivo pessoal vir a ser alto funcionário das Nações Unidas ou, mesmo, da União Europeia ou, simplesmente, vir a gravitar na zona mais “ in ” destas organizações, deve montar algumas cimeiras, o meio mais expedito para, em seis curtos meses, poder apertar a mão a grande número de chefes de Estado e de governo.

 

Adicionalmente, as cimeiras têm também uma finalidade de política interna: mostram como o nosso chefe é grande e considerado pelos lá de fora. Não vimos todos, o ar caloroso como era saudado?

 

Sócrates foi exemplar. Além da cimeira União Europeia – África, o seu prato de resistência, montou mais quatro cimeiras, entre as quais EU – China e EU – Ucrânia.

 

O grande problema é que, como a produção de presidentes da UE tem sido elevada. – dois por ano – o mercado começa a estar saturado.

 

II

 

Sarkosy entrou em funções, como “presidente” da Europa, em 1 de Julho; em 13 temos a funcionar a sua primeira cimeira, a “cimeira” da União para o Mediterrâneo , que, para além de se propor construir ”um caminho para a paz, democracia, prosperidade e compreensão humana, social e cultural”, pretende arrancar, segundo o SOL on line , que estou a citar, com seis “ iniciativas-chave ”.

 

“O documento (declaração final) estabelece seis projectos regionais concretos, designados por “ iniciativas-chave

 

-Despoluir o Mediterrâneo, uma ambição que acompanha a União Europeia, que apresentou em Março projectos para eliminar 80% das fontes de poluição neste mar até 2020, que custarão pelo menos dois mil milhões de euros.

 

-Construir auto-estradas marítimas e terrestres para melhorar as transacções entre as duas margens do Mediterrâneo.

 

-Reforçar a protecção civil, tendo em conta o risco de catástrofes naturais a que a bacia do Mediterrâneo está sujeita devido às alterações climáticas.

 

Desenvolver uma universidade euro-mediterrânica , já criada em Junho passado em Portoroz , na Eslovénia.

 

-Criar um plano solar mediterrânico.

 

-Ajudar ao desenvolvimento de pequenas e médias empresas .
 

III

 

Para discutirem e implementarem estes projectos, dos quais só um, o primeiro mencionado, é verdadeiramente importante, (os restantes são simples berloques para ornamentar o cabaz) reuniram governantes e chefes de Estado de 43 Países!.

 

Acresce que a acção para a redução das descargas poluentes no Mediterrâneo já estava em curso desde Março por iniciativa da União Europeia, que é certamente quem irá pagar a factura; e a criação da universidade euro-mediterrânica , já foi criada em Junho pela presidência eslovena.

 

É de aplaudir o objectivo de construir auto-estradas terrestres entre as duas margens do Mediterrâneo. Possivelmente, nunca serão construídas mas farão, seguramente, avançar a investigação no campo da engenharia de pontes suspensas.

 

IV

 

Um pequeno intervalo , quase em segredo:

Há uns sessenta anos fui visitar a Ria de Aveiro, indo por Ovar. Já no caminho da Ria, parei numa pequena taberna à beira da estrada para pedir umas informações.

O taberneiro estava a fazer a barba, com todos os apetrechos em cima do balcão, incluindo uma garrafa de álcool puro ( para quem não saiba: nesse tempo, o povo depois da barba feita esfregava os queixos com álcool; - os finos usavam lavanda inglesa Ach . Brito). Resolvi aguardar que o homem acabasse.

Entretanto, chega um apanhador de moliço e pede “o costume”. O taberneiro pega num copo e, distraído, enche-o de álcool puro. O cliente engole de um trago e, com as lágrimas a correrem pela cara abaixo e quase sem poder falar, balbucia: Oh! Ti Manel , esta é da forte! Porra ! É obra!...

 

V

 

43 (quarenta e três) países para resolver o caminho (já estudado pela UE) para a redução das emissões poluentes para o Mediterrâneo!

É obra!... 27 da UE + outros 5 da restante Europa + 5 de África + 6

do Próximo Oriente.

 

Peguemos na lupa. O tema é a redução das descargas poluentes no Mediterrâneo.

 

27 da União Europeia

 

Que estão aqui a fazer Finlândia , Suécia , Estónia , Letónia , Lituânia , Dinamarca , Reino Unido , Polónia , Alemanha , Holanda , Bélgica , todos Estados ribeirinhos do Mar Báltico ou do Mar do Norte , Portugal e Irlanda, Estados ribeirinhos do Atlântico Norte , e Luxemburgo, Austria , Republica Checa , Eslováquia , Hungria , Roménia , Bulgária , Estados do interior que não descarregam a sua poluição para o Mediterrâneo ?

 

Sem dúvida, a fazer número, para, numa enorme manobra de mistificação, engrandecer o acontecimento. – Salvé, Nicolas Sarkosy ! – e honrar os visitantes com a presença de toda a família.

 

 

Retiremos estes benévolos 20 figurantes (hoje por mim, amanhã por ti!) e o número de participantes é reduzido para 23.

 

Do lado europeu . – 13 países , todos ribeirinhos

 

Da UE : Espanha, França, Malta, Itália, Eslovénia, Chipre e Grécia.

 

Outros : Mónaco, Croácia, Bósnia-Herzegovina , Montenegro e Albânia

 

Do lado africano 5 países

 

Marrocos, Argélia, Tunísia, Egipto e Mauritânia

 

A Mauritânia é um simples figurante!

E porquê? A Mauritânea , só tem costa atlântica, a uns dois mil quilómetros do Mediterrâneo. (É certo que fala francês,… mas também é certo que não toca piano)

 

Por outro lado, não se compreende que a Líbia esteja ausente

 

Do Próximo Oriente – 6 países

 

Turquia, Líbano, Síria, Israel, Palestina, Jordânia

 

VI

 

Temos, assim, esta pequena cimeira reduzida às suas justas dimensões naturais. O objectivo é importante, mas local. O alvo está suficiente afastado – ninguém pode exigir resultados a curto prazo.

 

O resto é foguetório para que olhemos para o ar e louvemos a qualidade do mordomo!

 

 

Sugere-se, despudoradamente , que 750 milhões de nativos deste planeta estão ligados num projecto comum. É pura fantasia! De facto, tal projecto nem sequer existe!

 

 

A latere , com a maior impudência, vai-se sugerindo que esta cimeira já está a contribuir para o fim da guerra entre árabes e judeus. Na realidade, a melhoria de relações entre árabes e judeus é que possibilitou que tenham vindo a Paris. E essa melhoria é o resultado do esforço e do sacrifício de muitos, durante muitos anos.

 

VI

 

Nicolas Sarkosy é, possivelmente, um excelente presidente da França. Como político europeu é, seguramente, como Sócrates, um dirigente medíocre, presunçoso e voraz!

 

 

P.S. - Sarkosy desejaria tirar da cartola um coelhinho  mecânico, novo, feito à medida do seu projectado programa: Infelizmente, houve quem, sem impedir o espectáculo, o obrigasse a usar um coelhinho que estava no frigorifico há alguns anos.

 

 

15 de Julho de2008

 

Joaquim Vicente Pinto

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