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NOVA PORTUCEL*
*(Designação dada pelo agrupamento
Invescaima/Lecta à nova empresa que
seria a Portucel se o agrupamento fosse
o vencedor do concurso de privatização)
I
Finalmente dispomos de alguma informação fidedigna sobre
a chamada 2ª Fase da Privatização da Portucel.
Esta informação consta da documentação, proporcionada
aos accionistas da empresa no âmbito da preparação
da assembleia geral agendada para 14 de Outubro corrente, a saber:
Relatório da Sociedade de Revisores Oficiais de contas elaborado
nos termos do artigo 28º do Código das Sociedades Comerciais
(VERIFICAÇÃO DAS ENTRADAS EM ESPÉCIE)
Proposta da Portucel Empresa de Celulose e Papel de Portugal,
SGPS, SA. em cumprimento do artigo nº 33 do Caderno de Encargos
aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros nº
65/2003
Nota- Os factos referidos a seguir são retirados,
na sua maioria, dos documentos citados acima; as opiniões
são o resultado da sua análise.
II
Se a assembleia geral da PORTUCEL, SA votar favoravelmente a Proposta
do Conselho de Administração da PORTUCEL, SGPS, SA e o Conselho
de Ministros aprovar o vencedor do concurso,
a PORTUCEL, SA vai entregar ao AGRUPAMENTO INVESCAIMA/LECTA
255 833 000 acções, representativas de 25 % do seu capital
após este aumento,
valorizadas em 396 541 150 de Euros (79 499 363 do contos)
e o AGRUPAMENTO entregará à PORTUCEL, SA
acções representativas de
36,57 % do capital da sociedade Cartiere del Garda, Spa (ITÁLIA)
36,57 % do capital da sociedade Condat, SA. (FRANÇA)
pelo valor de 127 760205 €
47,52 % do capital da sociedade Torraspapel, SA. (ESPANHA)
pelo valor de 232 706 715 €
50,00 % do capital da sociedade INVESCAIMA, SA. (PORTUGAL)
pelo valor de 36 090 000 €
o que, tudo, perfaz um total de 396 556 921 €
e a gestão,
pela via da nomeação da maioria dos membros dos seus Conselhos
de Administração, de todas as empresas participadas acima
mencionadas, durante um período de quatro anos, findo o qual a
referida gestão regressará aos membros do AGRUPAMENTO, a
menos que a PORTUCEL, SA(ou alguém por ela) adquira as restantes
acções das empresas participadas, excepto do caso da Torraspapel
em que há que adquirir 47,52 %.
A compra destas acções será feita por um valor,
desde já ajustado, que ronda os 550 milhões de euros (110
000 000 de contos)
III
Como se vê a PORTUCEL, SA. obtém, em pagamento das suas
acções, uma carteira de participações em quatro
empresas, em nenhuma das quais detém a maioria.
Todavia, seria extremamente simples configurar um lote de acções,
com um valor da ordem dos 400 000 000 de euros, que desse à PORTUCEL,
SA uma posição maioritária ou mesmo de domínio
total na empresa ou empresas em que participasse.
E isso teria certamente acontecido se o objectivo do fundo CVC Capital
Partners fosse, pela via da Lecta, obter uma participação
no capital da PORTUCEL, SA
Mas este não é o seu objectivo. O que o fundo quer é
desfazer-se da totalidade da Lecta. E isto não é um
segredo. Já foi dito.
A estratégia do AGRUPAMENTO está montada e é impecável
de inteligência e argúcia.
Ficando minoritária, a PORTUCEL, SA (ou os seus ACCIONISTAS ou
o ESTADO) ver-se-á obrigada, para não perder a gestão
das empresas em que agora adquire participações e não
sofrer a mais que provável desvalorização destas
participações, a comprar as restantes acções
dessas empresas no prazo máximo de quatro anos-
E quem vai pagar os cerca de 550 000 000 de euros necessários?
Muito provavelmente o contribuinte português.
(Diz-se, mas é de certeza mentira, que, se o processo da privatização
não for gorado, a PORTUCEL, SGPS, isto é, o ESTADO comprará
estas acções)
IV
As sociedades em que a PORTUCEL, SA. vai participar, minoritariamente,
são possuidoras das seguintes fábricas:
Cartiere del Garda, Spa (36,57 %), actividade industrial concentrada
em 1 fábrica
Condat (36,57 %), actividade industrial concentrada em 1 fábrica
Torraspapel (47,52 %), actividade industrial dispersa por 9
fábricas
Nestas onze fábricas há dezasseis máquinas de
produção de papel.
A produção não é totalmente integrada
tem um défice de pasta da ordem das 600.000 t
Diz o AGRUPAMENTO: Esta é uma vantagem para a PORTUCEL, que coloca
na LECTA os seus excedentes (!) de pasta.
Argumento viciado - a muito curto prazo a PORTUCEL necessita desta pasta
para alimentar a nova máquina de papel cuja aquisição
está prevista no seu projecto de expansão no sector do papel
de escritório; no imediato, há mercado para a referida pasta.
V
O produto final das empresas do grupo LECTA é o papel revestido;
o produto final do grupo PORTUCEL é o papel de escritório
e, temporariamente até estar instalada a nova máquina de
papel, a pasta para papel.
A produção e comercialização do papel revestido
é muito diferente da produção e comercialização
do papel de escritório.
A dispersão territorial das fábricas não ajuda.
O Governo justificou o modelo de privatização da PORTUCEL,
SA. definindo vários objectivos a atingir.
Entre eles "Reforço da capacidade operacional da PORTUCEL,
potenciando a criação de valor decorrente de níveis
superiores de eficiência"
Este objectivo não pode ser atingido. Toda a gente o vê,
excepto quem é cego ou fecha os olhos para, deliberadamente, não
ver.
Cumprimento os consultores nomeados pela Secretaria de Estado das Finanças
e Tesouro,
Jaakko Poyry Consulting, consultor especializado no sector
da pasta e do papel, e
Consórcio UBS/Finantia Banco de Investimento,
por, honrando a sua reputação, terem escrito que as sinergias
do projecto deverão ser relativamente pequenas.
Tão pequenas que não foram consideradas na avaliação!
Reproduz-se a seguir o que sobre esta matéria consta do relatório
VERIFICAÇÂO DAS ENTRADAS EM ESPÉCIE:
"Neste projecto não estão valorizadas sinergias,
as quais podem ocorrer tanto por haver uma integração
completa de serviços num grupo empresarial, em que várias
empresas passarão a clientes/fornecedores de outras do mesmo
grupo, como por aumento do volume de negócios, resultando necessariamente
em economias de escala. Os consultores da Jaakko Poyry e da USB/Finantia
estimaram que as sinergias deverão ser relativamente pequenas."
VI
O Conselho de Administração da PORTUCEL; SGPS. diz, nos
considerandos da proposta que vai apresentar aos accionistas da PORTUCEL,
SA na assembleia geral de 14 de Outubro:
"Considerando:
.........................
c) que a proposta do AGRUPAMENTO INVESCAIMA/LECTA cumpre os objectivos
principais estabelecidos no artigo 3º do Caderno de Encargos para
a presente fase da privatização da PORTUCEL, SA, constituindo
uma oportunidade para que esta sociedade possa:
- ampliar substancialmente a capacidade de produção disponível;
- consolidar a sua estratégia de internacionalização,
com manutenção do centro de decisão em Portugal;"
Comentário: Não
me consta que alguma vez a PORTUCEL, SA tenha adoptado uma estratégia
de plantar fábricas pela Europa. Esta é uma estratégia
nova e nada tem a ver com a estratégia seguida pela empresa até
agora. A estratégia de "internacionalização"
sempre teve como objecto as vendas.
O Decreto-Lei nâ 6/2003 aponta como 1â critério de selecção
da proposta vencedora "Reforço
da competitividade
internacional da PORTUCEL, SA
" Refere-se, como é claro,
`à competitividade comercial.
- "diversificar os seus negócios para a área dos
papéis "coated woodfree""
Comentário: Segundo
declarações, não desmentidas, do Sr. Presidente
do Conselho de Administração da Portucel feitas há
dez meses, o "coated" não fazia parte da estratégia
da empresa nem do Governo. De resto, no já referido Decreto-Lei
nâ 6/2003, nem na enumeração dos objectivos de reprivatização
nem na dos nos critérios de selecção da proposta
vencedora, se fala em levar a empresa para o "coated".
Foram cumpridos os objectivos estabelecidos no artigo 3º do Caderno
de Encargos?
Foram? De que maneira?
O que nos é dito não permite adquirir essa certeza. São
precisas mais e melhores informações.
VII
E por falar em informações...
Tenho pelos membros do Conselho de Administração da PORTUCEL,
SGPS. a maior consideração. Não que os conheça,
mas acredito, como a maior parte dos portugueses, que o poder vem de Deus,
e, se vem de Deus, os eleitos tem, por isso mesmo, que ser objecto da
nossa maior consideração.
Mas, mesmo pecando contra os desígnios de Deus, a minha consciência
obriga-me a interpelar o Conselho de Administração da PORTUCEL,
SGPS. e perguntar:
Por que não informam os accionistas da PORTUCEL, SA. que,
para que se cumpram os objectivos enumerados acima, vai ser indispensável
que o ESTADO, pela via da PORTUCEL, SGPS ou outra, e/ou a própria
PORTUCEL, SA. comprem as restantes acções do AGRUPAMENTO
INVESCAIMA/ LECTA, no prazo máximo de quatro anos, e por um
valor que, só em acções das empresas da Lecta,
ronda os 500 000 000 de euros (100 000 000 de contos) ?
VIII
Não conheço o artigo 3â do Caderno de Encargos para a presente
fase da reprivatização da PORTUCEL, SA. referido, pelo Conselho
de Administração da PORTUCEL, SGPS, na sua proposta à
assembleia geral da PORTUCEL, SA.. mas conheço os objectivos desta
reprivatização, conforme consta do preâmbulo do Decreto-Lei
nâ 6/2003, de 15 de Janeiro, objectivos que presidiram à escolha
do modelo adoptado, e conheço os critérios de selecção
da proposta vencedora definidos no nâ 4 do artigo 3â do mesmo decreto-Lei.
Quanto aos objectivos da reprivatização, são
os que seguem acompanhados de comentários quando se justifique.
- Contribuição para a manutenção da identidade
empresarial da PORTUCEL, e a existência de adequado projecto
estratégico para a sociedade;
Comentário: Não
me parece que haja qualquer contribuição para a manutenção
da identidade empresarial da PORTUCEL; as novas empresas vão,
certamente, continuar no mercado com os seus nomes e as suas marcas.
Por outro lado, se há um "adequado" projecto estratégico
para a Portucel, não é o do seu Conselho de Administração
nem do Governo porque não cumpre o disposto no Decreto-Lei
nâ 6/2003. O projecto que estão a tentar introduzir na empresa
serve somente os interesses do AGRUPAMENTO INVESCAIMA/LECTA
- Contribuição para a manutenção da PORTUCEL
como sociedade com o capital aberto ao investimento público;
- Reforço da capacidade operacional da PORTUCEL, potenciando
a criação de valor decorrente de níveis superiores
de eficiência
Comentário: É
objectivo que não pode ser atingido com investimento feito
em três países, com empresas com culturas próprias,
com uma nova linha de produtos. Os consultores do projecto disseram-no,
como já foi referido no ponto V.
- Contribuição para o reforço da posição
de liderança da PORTUCEL no plano internacional, em segmentos
específicos do mercado da pasta e do papel
Comentário: Não
é, necessariamente, uma boa ideia colocar a empresa a competir
em duas frentes. Uma, a dos papéis de escritório,
que já era a sua; outra, a dos papéis revestidos,
que lhe chega pela via da reprivatização e de aquisições
de empresas já estabelecidas no mercado.
Não se vê nesta estratégia a criação
de qualquer tipo de sinergias, único factor que poderia justificá-la.
De resto, houve o cuidado de avaliar as entradas em espécie
mas não se ouve falar de quaisquer estudos económicos
e financeiros do novo grupo que nasce com esta reprivatização;
nem houve tempo para os fazer devidamente fundamentados.
- Relevância estratégica do sector de pasta e papel
em Portugal, assumindo-se como uma indústria com elevado
potencial de desenvolvimento futuro e onde Portugal apresenta vantagens
competitivas
Comentário: Este
objectivo falhou. O país vai fazer um investimento do ordem
dos 900 milhões de euros em Espanha, França e Itália.
Se a escolha é racional, temos que concluir que é
nestes países que estão as vantagens competitivas.
Este investimento em nada beneficia a economia nacional nem o bem-estar
das populações.
Por outro lado, está bem expresso que este objectivo da reprivatização
se referia ao desenvolvimento da indústria de pasta e
papel em Portugal.
- Garantia da prossecução dos planos de reestruturação
e reorganização operativa do Grupo Portucel/Soporcel,
permitindo um estruturação eficaz do sector florestal;
Comentário: Os investimentos
em causa não dão, por si, qualquer garantia da prossecução
dos planos de reestruturação e reorganização
operativa do Grupo Portucel/Soporcel. No que respeita ao sector
florestal o efeito é desprezável, dado o pequeno acréscimo
de floresta trazido pela Invescaima e a colaboração
já existente neste campo.
- Maior independência através de uma escala operacional
acrescida, garantindo uma maior quota de mercado posterior à
operação.;
Comentário: Talvez
maior independência; talvez maiores riscos só
o futuro o dirá. Maior quota de mercado é uma leitura
incorrecta. De facto, a Portucel adquire, mas só quando comprar
as restantes acções do AGRUPAMENTO;.uma quota em novo
mercado.
IX
Analisemos agora, através de comentários, os critérios
de selecção da proposta vencedora definidos no nº 4
do artigo 3º e vejamos em que medida são cumprido pela proposta
do AGRUPOAMENTO INVESCAIMA/LECTA.
1º Critério:
Reforço da identidade empresarial e da competitividade internacional
da PORTUCEL; SA, em segmentos do mercado de pasta e do papel.
Comentário
Quanto à identidade empresarial já falamos atrás;
quanto ao reforço da competitividade internacional da PORTUCEL,
SA. não se vislumbra razão para qualquer acréscimo
consequente da reprivatização, tal como se apresenta
neste momento, e das aquisições que, quase fatalmente,
se lhes seguirão.
2º Critério:
Acréscimo de autonomia através da criação
de um superior escala operacional, garantindo o crescimento da quota
de mercado posteriormente à operação, em virtude
da maior dimensão.
Comentário:
Gostava de saber que há algum estudo idóneo que aponte
no sentido de haver uma elevada probabilidade de que, em virtude
da maior dimensão, haverá crescimento do somatório
das actuais quotas de mercado (Portucel + Lecta).
Pouco provável!.
3º Critério:
Reforço da capacidade operacional da PORTUCEL, SA potencializando
a criação de valor decorrente de níveis superiores
de eficiência.
Comentário: Não
haverá sinergias significativas, dizem os consultores contratados
pela Secretaria de Estado da Finanças e Tesouro.
É altamente provável que não haja, como resultado
da reprivatização feita como propõem o AGRUPAMENTO
INVESCAIMA/LECTA e o Conselho de Administração da PORTUCEL,
SGPS, os esperados níveis superiores de eficiência.
Mais uma vez a pergunta indiscreta Algum técnico independente
e idóneo estudou o assunto?
4º Critério:
Garantia da continuação do plano de desenvolvimento
industrial em território nacional, desenvolvendo
o sector de pasta e papel, no qual Portugal tem um elevado potencial
de desenvolvimento futuro e apresenta vantagens competitivas.
Comentário:
Aqui está a questão fundamental de todo o presente processo
de reprivatização.
Espanha, França e Itália, propõe o AGRUPAMENTO
INVESCAIMA/LECTA (está no seu papel).
Os responsáveis aplaudem.!
O país estagna.
Há mais três critérios, mas ficamos por aqui!
Se o que está dito não chega para nos fazer pensar
abandonemos
a esperança e emigremos para o fim do mundo!
X
Portugal tem um sector pasta e papel em que apresenta reconhecidas
vantagens competitivas.
O país precisa de desenvolvimento económico; o Governo
esforça-se por atrair e reter o investimento estrangeiro...
...mas, simultaneamente, esse mesmo Governo promove e acarinha um extravagante
e arriscado modelo de privatização que, interpretado, na
sua execução, de forma perversa, se não for travado
pelo Conselho de Ministros, conduzirá a um investimento português
em Espanha, Itália e França na ordem dos 900 000 000
(*) de euros.
Agravada a situação por se tratar de um investimento de
interesse duvidoso para a PORTUCEL e danoso para o país.
Estou certo que o Governo não ensandeceu! Está é
mal informado...
06-10-2003
Vicente Pinto
(*)
- Para se avaliar da enormidade desta verba basta saber que, em 31-12-2001,
o capital próprio do Grupo Portucel Soporcel era de 994 000 000
de euros.
- Este investimento feito em Portugal permitiria criar milhares de
postos de trabalho, dinamizando toda a fileira a montante e favorecendo,
também significativamente, o interior do país.
- As empresas do Grupo Lecta ocupam 4500 trabalhadores; as do Grupo
Portucel/Soporcel 2000

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