VÁRIA
O ENGRAXADOR TRANSMONTANO
ou
REVERENTE E VERTICAL
Os portugueses são, na sua maioria, reverentes. Acredito que
esta característica lhe vem de durante muitos séculos
terem sido zurzidos pelos poderosos, conjugado com a interiorização
que fizeram da ideia ancestral de que o poder vem de Deus e está,
ipso facto, justificado.
Um português que foi (ou é) primeiro-ministro, ministro,
desembargador, governador civil, presidente de conselho de administração,
administrador, gestor público, embaixador, general, sargento,
de família rica, médico, presidente de Câmara, etc.,
etc., é visto e tratado com reverência. Não importa
que tenha sido uma nódoa na sua profissão, que seja um
individuo em que a ética não existe nem mesmo como simples
resíduo, é, como norma, tratado com consideração
e respeito. Não importa que tenha afundado o sistema educativo
ou feito, exclusivamente, obras inúteis ou de simples fachada
ou não tenha mesmo feito nada, que tenha gasto cem milhões
em obra orçamentada para custar vinte, que tenha construído
um monumento ao arquitecto julgando que estava a construir uma estação
de caminho de ferro, que tenha levado a empresa à falência
ou não tenha entregue os descontos à segurança
social, é sempre considerado digno de que lhe tiremos o nosso
chapéu.
Somos reverentes sem discernimento. Curvamo-nos perante a pessoa como
se ela fosse o cargo e não o agente.
O nosso lado reverencial impede-nos de responder aos dislates , ás
incompetências, aos abusos, as prepotências, aos favorecimentos
imerecidos, à gestão danosa, etc.etc . dos reverendos.
Somos capazes de reagir em surdina mas a maior parte de nós é
incapaz de falar alto e bom som.
Pensando nisto a propósito de algumas situações
concretas, lembrei-me do caso do engraxador transmontano.
Havia em Bragança, por volta de 1950, um café , o Café
Moderno, frequentado por locais e, também, por forasteiros de
passagem. Nesse café trabalhava um engraxador, o Gil, um pouco
lerdo, que se esforçava diligentemente por satisfazer os pedidos
e as exigências dos clientes que, muitas vezes, queriam que uma
engraxadela transformasse, em novos, sapatos moribundos..
Uma manhã, um grupo de forasteiros requereu os serviços
do Gil que se sentou aos pés de um deles e começou o serviço.
Percebeu-se rapidamente que o homem era do tipo gracioso pelos comentários
que ia fazendo sobre o trabalho e o próprio engraxador. Todos
riam. O engraxador não tugia nem mugia até que a certa
altura bateu com a mão no sapato para chamar a atenção
do cliente e disparou em voz audível em todo o estabelecimento:
Vossa Excelência (reverencial) é um grandessíssimo
filho da puta (vertical )
e continuou o seu trabalho.
Seguiu-se um silêncio pesado. O gracioso calou-se e o grupo desapareceu
logo que o engraxador deu por findo o primeiro serviço.
Leitor, se, pela sua natureza, não pode deixar de ser reverencial,
faça um esforço e siga o exemplo do Gil, engraxador transmontano
; seja vertical na apreciação sempre que a sua cabeça
lhe disser que o seu julgamento é justificado.
É possível que, gradualmente, o leitor se habitue a ser
um cidadão vertical e teremos um país melhor, mesmo
que, por fatalidade, não possa deixar de ser reverente.
11-04-2006
J. Vicente Pinto