VÁRIA

 

O PORTEIRO DE PEREIRA DA ROSA

 

I

 

 

João Pereira da Rosa, notável jornalista, que foi director de O Século durante decénios, contava há setenta ou oitenta anos, para salientar a confiança que as pessoas tinham na palavra escrita e afirmar que essa confiança impunha aos jornalistas um comportamento ético rigoroso, dizia eu, Pereira da Rosa contava a seguinte história:

 

Uma manhã cedo, de Maio, ao sair de casa, foi interpelado pelo porteiro que lhe perguntou:

 

Oh senhor Pereira da Rosa, o Senhor acha que vamos ter chuva?

 

O tempo estava de cariz indeciso, e Pereira da Rosa respondeu que não sabia. Foi à sua vida e, naturalmente, não pensou mais nem na pergunta nem na sua reposta. Quando regressou a casa à hora de almoço, encontrou o porteiro, manifestamente à sua espera, com o Século na mão.

 

Dizia Pereira da Rosa: Nem me fez o cumprimento habitual; avançou de dedo a apontar para um ponto no jornal e disparou: vai chover, diz aqui no jornal.

 

 

Estava um dia magnífico, mas para aquele homem o que contava não era o que ele próprio estava a ver, o que contava era o que estava escrito no jornal . Ou, traduzindo para os dias de hoje, o que contava era o que dizia a comunicação social.

 

O que Pereira da Rosa nos apresenta na sua história não é o homem manipulado mas, sim, o homem manipulável e a via de manipulação a que não consegue resistir – a imprensa, ontem, a comunicação social, hoje.

 

II

 

Há em Portugal milhões de “porteiros de Pereira da Rosa”, cuja cega credulidade no que é escrito na imprensa ou dito na televisão facilita a vida a milhares de comunicadores cujo negócio é manipular. Veja Hoje tudo se compra)

 

Há de tudo: grandes manipuladores adequadamente organizados, pequenos manipuladores em nome individual, que “alugam a caneta” e nos “dão” opiniões que lhes são passadas por interesses ocultos, manipuladores por ideologia, os mais perigosos, e, por fim, nesta análise simplificada, honestos fazedores de opinião que, por vezes, torcem as suas opiniões para poderem sobreviver.

 

 

Todos vestidos de branco, anjos e demónios misturados e indistintos no seu aspecto.

 

Um problema para si e para todos nós, que somos o alvo. A defesa é difícil e de resultados problemáticos. Mas, pelo menos, conscencializemos a situação e forcemo-nos a estar atentos e a usar a cabeça e a nossa experiência para nos defendermos.

 

 

30-06-2006

 

 

J. Vicente Pinto

 

 

 

 

 

 

 

 

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