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O
CASO DA QUINTA DA FONTE
NOTÁVEL
ENTREVISTA A FÉLIX BOLAÑOS
(Público
20-08-2008 )
Sugestão
– Indispensável ler para compreender;. é um dever
cívico passar palavra.
I
É
impressionante a ligeireza, a incompetência, o preconceito, a estupidez
mais presunçosa, os lugares comuns mais abstrusos, a vigarice mais
descarada, as apreciações mais evidentemente condicionadas
por objectivos políticos com que tem sido apresentado, na comunicação
social, o caso dos “distúrbios” na Quinta da Fonte, da motivação
subjacente e dos remédios salvadores que deviam ter sido aplicados
ou devem ser aplicados.
A
situação é ampliada, reduzida, minimizada, torcida,
esticada (para a esquerda, para a direita, para cima, para baixo), deformada,
pintada, lavada, farruscada , etc., etc., etc. conforme os interesses,
a burrice, a inteligência, os preconceitos, etc., etc., etc , de
cada um.
II
O
Público publicou em 20 uma entrevista
com Félix Bolaños , presidente do Agrupamento
de Escolas da Apelação.
Entrevistadores
José Manuel Fernandes – . Público –
e
Raquel Abecassis – Renascença.
Esta
entrevista é um documento notabilíssimo a vários
títulos:
Pelo
leque das perguntas: perguntas para aprofundar e esclarecer, não
para confundir ou obter efeitos especiais.
Pela
qualidade das perguntas: límpidas, claras, objectivas, manifestamente
honestas (no sentido em que são feitas para obter respostas, não
para condicionar respostas).
Pela
qualidade das respostas: respostas de quem sabe e de quem fez com profundo
empenhamento e inteligência; respostas de quem sabe do que fala
e que não fala para além do que sabe
III
Na
minha opinião, todo o cidadão que se interessa pelo problema
que é a Quinta da Fonte (esta e outras semelhantes) não
pode perder a informação contida nesta entrevista, não
pode perder a experiência vivida que aqui se relata e que é
uma réstia de esperança concretizada, numa área em
que parece predominar o desespero.
IV
Um
dos pontos fracos da imprensa diária é que cada folha impressa
só dura um dia. No dia seguinte há outra folha que é
preciso vender e isso implica que se procure que o espírito do
leitor esteja livre para receber nova informação.
A
entrevista referida já é passado . Para que continue presente,
reproduzo-a a seguir.
ENTREVISTA
A FÉLIX BOLAÑOS
Transcrição
do Público
Entrevista
PÚBLICO/RR/ RTP2 Félix Bolaños , responsável
pelas escolas da Apelação
Se
os males da Quinta da Fonte entravam na escola, a escola tinha de descer
ao bairro
Em
três anos, um grupo de escolas problemáticas transformou-se
num modelo a seguir
José
Manuel Fernandes
e
Raquel Abecasis (Rádio Renascença)
•
Félix Bolaños conhece a Quinta de Fonte por dentro e por
fora. E os seus habitantes também. Como presidente do Agrupamento
de Escolas da Apelação, mudou as escolas e empenhou-se em
mudar o bairro, O seu trabalho levou mesmo o Presidente da República
a visitar a escola para aí falar sobre como, mesmo numa zona difícil,
é possível mobilizar os jovens para a cidadania, O que mostra
que poucos conhecerão tão bem aquele bairro, os seus males
e as suas virtudes como Félix Bolaños .
Ficou
surpreendido com o tiroteio da semana passada?
Sim
e não. O trabalho de intervenção social só
tem resultados a longo prazo e é um caminho com altos e baixos,
O que interessa é que se progrida, que não se desista.
As
autoridades querem que a população que fugiu regresse, esta
recusa-se, O que aconselha?
Para
cada problema é preciso encontrar sempre uma solução,
e cada problema tem de ser visto como uma oportunidade. Neste caso, a
oportunidade é tentar que aumente o diálogo com os que têm
mais dificuldade de integração, O que verifico no terreno
é que se geraram ondas de solidariedade dentro do bairro e que
este está mais disposto a aceitar as pessoas de etnia cigana. Por
isso, o problema é eles aceitarem voltar e trabalharmos para fazer
daquele bairro um bairro cada vez melhor.
Como
é que se trabalha numa zona daquelas? Há problemas de polícia,
há carências sociais (90 por cento das famílias beneficiam
de apoios sociais), mas também parece haver quem tenha um nível
de vida que não se esperaria encontrar num bairro social.
O
meu papel é o de criar, em conjunto com todas as entidades que
estão no terreno, oportunidades de inclusão, mesmo para
os criminosos. Cada marginal que opta por cumprir com as regras da sociedade
representa uma vitória para nós. E, quando isso sucede,
normalmente os que se tornam cidadãos cumpridores tornam-se também
nos nossos melhores aliados no terreno.
Como
é que, em quatro anos, transformou a escola num agente de intervenção
social?
Quando
aqui cheguei, e formei a minha equipa, deparei com uma escola fechada,
que tinha virado as costas aos problemas do bairro. Por isso, o clima
do bairro e da escola piorava de ano para ano.
O
que se passava na escola?
Indisciplina,
agressividade, a percepção pelos alunos de que a escola
lhes queria mal.
O
que é hoje a Quinta da Fonte? De fora parece um bairro com uma
qualidade de construção e do espaço urbano bem superior
à de muitos outros bairros sociais...
Sim,
porque esteve para ser uma cooperativa de habitação. Mas
depois o Estado despejou lá as pessoas desalojadas pela Expo ,
sem um mínimo de preparação.
Isso
potenciou os problemas dos bairros de barracas?
A
passagem da horizontalidade de um bairro de barracas para a verticalidade
de um bairro social cria sempre problemas se não for bem acompanhada.
Num bairro de barracas eu tenho a minha, ao meu lado está um amigo,
criam-se comunidades onde os membros se entreajudam . Lá dentro,
com os de dentro, nem costuma haver criminalidade. Mas, quando se passa
para a verticalidade, as relações de vizinhança desfazem-se
e as famílias são colocadas junto de vizinhos que não
conhecem, muitas vezes com formas de vida diferentes.
Passaram,
entretanto, dez anos...
E
difícil recriar esses laços sem uma intervenção
adequada. Quando voltei à escola apercebi-me de que a conflitualidade
do bairro vinha para dentro da escola.
E
como reagiram?
Abrindo
a escola à comunidade, Não para pedir, antes para
oferecer
. Por exemplo: sabendo que a Segurança Social não tem meios
oferecemo-nos para ser interlocutores, para fazer tudo
o
que fosse necessário como mediadores porque conhecíamos
melhor o bairro. O mesmo com a Câmara de Loures e por aí
adiante, criando uma rede social com os nossos parceiros...
Que
parceiros?
Para
além da câmara e da Segurança Social, os clubes, a
Pastoral dos Ciganos, a Ajuda de Mãe, os Médicos do Mundo,
a PSP. Estas instituições estavam soltas, cada uma actuava
pontualmente e
de
forma dirigista. O que fizemos foi sentar todos à mesa e passamos
a actuar deforma coordenada.
Mas
não há choque entre as comunidades de origem africana e
as de etnia cigana? O que falhou no vosso esforço de integração?
Integrar
comunidades é muito difícil, sobretudo quando trabalhamos
com pessoas de etnia cigana, que é mais fechada e a quem não
podemos exigir que mude a sua forma de ser e de estar.
Quando
o Presidente veio à vossa escola, nas imagens só se viam
africanos, não ciganos
Perto
de 90 por cento dos alunos são de origem africana, até porque
nos 2° e 3º ciclos a etnia cigana tem tendência a desistir
da escola e temos feito tudo para a convencer de que vale a pena continuar.
Para isso temos de combinar a educação formal, a que o Ministério
nos obriga, e a educação não formal, que tem tanta
ou mais importância que seguir os currículos.
O
que é a educação não formal?
E
transmitir competências sociais tão importantes como saber
estar em grupo, conseguir ser diferente do grupo, ser capaz de ser minoritário
e respeitar os outros, sabendo que os outros o respeitam, conseguir formular
um projecto de vida, dizer o que se quer ser quando se for adulto. E também
saber resolver
problemas
de relacionamento, saber pedir ajuda, não ter vergonha, no fundo,
responder aos problemas de um bairro onde há muitos ilegais que
têm medo e não sabem o que fazer, A nossa preocupação
é dar-lhes ferramentas para viverem melhor na nossa sociedade.
E
há famílias desestruturadas ?
Muitas,
sobretudo devido à instabilidade e às e às exigências
do mercado de trabalho. Muitos pais trabalham longe e não podem
regressar para as famílias, muitas mães fazem horários
nas limpezas que as impedem de estar com os filhos. E há também
os que nem estão preparados para ter filhos ...
Mães
adolescentes?
Sim,
muitas, mas isso passa-se em quase todos os bairros sociais. Aqui, como
em Espanha ou na Alemanha. Não podemos é ficar agarrados
aos problemas, Se conseguirmos dar outras perspectivas de vida às
pessoas, elas aderem. Hoje temos ex-alunos que, em vez de ficarem num
bar a beber cerveja, colaboram, trazem-nos pessoas, trabalham para a comunidade.
Um bairro social tem líderes como não há em muitas
outras zonas, e são lideranças fortes. Se conseguirmos que
venham para o lado da comunidade, e não para o da criminalidade,
são lideranças com um potencial fantástico.
O
que de passou realmente nos dias dos tiroteios
“Não
houve nem um conflito étnico nem uma troca de tiros entre gangs”
•
Ainda há ciganos a viver no bairro, já há jovens
africanos disponíveis para acolher os que fugiram. Félix
Bolaños acredita na ‘gente boa” da Quinta da Fonte.
Como
explica o que aconteceu?
Primeiro
que tudo é preciso saber que realmente aconteceu. A minha leitura
pessoal é que nem ouve um conflito étnico nem uma troca
de tiros entre gangues . Tudo começou, ao que pude apurar falando
com as pessoas do bairro, com uma discussão, quinta-feira à
noite, entre um marido e uma mulher que gerou uma confusão; no
meio da confusão, um dos que se envolveram estava mais alcoolizado,
tinha uma arma e começou a disparar indiscriminadamente. Ora, como
outros que lá estavam também têm armas em casa, foram
buscá-las para se defenderem.
Mas
isso envolveu ciganos e africanos?
O
indivíduo que estava alcoolizado era de etnia cigana e, depois
do tiroteio, a comunidade cigana ficou à espera de uma retaliação
da comunidade de origem africana. Que não houve, só que
tiveram medo e saíram do bairro, O que depois aconteceu foi uma
pilhagem, pois muitos aproveitaram-se das casas dos que saíram
terem ficado vazias. Houve um grupo de delinquentes que o fez ali, como
podia ter feito nos melhores bairros. Na sexta-feira os ciganos regressaram,
armados, à espera da tal retaliação. Quando chegaram
não foram recebidos com tiros, mas quando viram o espectáculo
degradante das suas casas pilhadas, foram para a rua e dispararam, mas
dispararam contra ninguém. Ninguém do outro lado foi buscar
uma arma, e podemos perceber que não houve troca de tiros se virmos
as imagens com atenção. Ninguém dispara e se esconde,
viram as costas e vão-se embora tranquilamente. Por isso é
que digo que não houve troca de tiros: houve um descarregar de
raiva da etnia cigana quando viu as suas casas destruídas e roubadas.
Como
se conserta o mal feito?
Uma
das qualidades que procurámos desenvolver foi a resiliência,
a capacidade de enfrentar dificuldades e não desistir, e essa resiliência
está a permitir que a comunidade esteja a reagir bem, a dizer que
quer um bairro melhor, e a fazer uma série de actividades para
mostrar que o bairro continua a progredir. Há aqui muita gente
boa, honesta, trabalhadora, com capacidade de liderança, e que
se está a organizar. O que se pretende transmitir aos que saíram
da Quinta da Fonte é que o bairro não é o que apareceu
naquelas imagens, antes quer arrancar para urna vida melhor. A população
está a ir ter com a etnia cigana, os jovens estão a dizer-lhes
para voltarem. Mas claro que ainda há tensão e a etnia cigana
tem de querer voltar para o bairro.
Por
que é que, mesmo antes destes incidentes, o número de membros
da etnia cigana já era muito menor do que há dez anos?
Porque
gostam de estar numa posição dominante no seu espaço
e, por isso, conforme ia aumento a desproporção relativamente
aos africanos, iam-se sentindo menos à-vontade. Mesmo assim, nem
todos saíram do bairro: há famílias ciganas que continuaram
lá depois dos incidentes, calmas e tranquilas.
A
intervenção da escola parece ter-se traduzido mais no apoio
a organizações que já existiam, em ter ajudado a
coordenar o seu trabalho com outras organizações da sociedade
civil e em aproveitar programas que também já existiam.
Já se tem escrito que é necessário investir muito
dinheiro em bairros como a Quinta da Fonte. É um problema de dinheiro
ou de forma de trabalhar com as pessoas?
De
forma de trabalhar com as pessoas. É evidente que é preciso
dinheiro, mas não tem sequer de vir todo do mesmo lado. Fazemos
um desafio à sociedade civil, pedimos o seu envolvimento, e até
temos conseguido o apoio de empresas privadas. A participação
é o mais importante.
A
sua atitude é uma raridade?
Não,
mas também não encontro outra forma de actuar numa escola
que se encontrava perto daquele bairro social e tinha todo o tipo de problemas.
Até por protecção, pois a melhor forma de proteger
a escola era conhecer o bairro, interagir com o bairro. Sentimo-nos protegidos
pelo conhecimento que temos das próprias pessoas. Para além
de acreditarmos que a escola tem de ter um papel líder na sociedade
e, especificamente, na sua comunidade.
Fim
de transcrição
22
de Julho de 2008
Joaquim
Vicente Pinto
{novo texto / imagens}
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