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O
DIA EM QUE OS SINOS DOBRARAM PELO PCP
25-04-1975
ou
Como
o General Francisco da Costa Gomes reduziu o PCP à sua verdadeira
dimensão, dando um contributo ímpar e decisivo para a instauração
da democracia em Portugal
I
Em
Novembro de 1974 conheci em Berlim oriental um português, professor
da Universidade de Humbolt .
Encontramo-nos
três ou quatro vezes, jantei em sua casa, conheci a sua família
e conversamos bastante sobre a situação em Portugal.
No
nosso último encontro perguntei-lhe se não pensava regressar.
Respondeu-me que não e disse-me, à laia de justificação,
“o povo português nunca aceitará um regime comunista
em Portugal
Achei
curioso! Não me disse que a Europa se oporia, que os americanos
nunca o aceitariam, que a Rússia não estava interessada,
que o PC português não tinha força para se impor,
que, ele próprio , tinha a sua vida estabilizada na RDA. Não!
Disse-me,
simplesmente, “o povo português nunca aceitará um
regime comunista”.
Estava
certo! Mas, aqui, só viemos a sabe-lo, de certeza certa, em 25
de Abril de 1975.
Nota:Se
leu"Omissão que não honra a página
oficial da Presidência da Republica Portuguesa”, pode
saltar para o nº VI
II
Regressei
no princípio de Dezembro. A cavalgada comunista parecia imparável.
Vasco Gonçalves tinha sido nomeado, em 18 de Julho, primeiro-ministro
do 2º governo provisório. Íamos agora no 3º governo,
nomeado em 30 de Setembro …Vasco Gonçalves continuava como primeiro-ministro….
III
A Lei
3/74 de 14 de Maio (Junta de Salvação Nacional) obrigava
a que se realizassem eleições para a Assembleia Constituinte
até 31 de Março de 1975.
A Lei
2/75 de 31 de Janeiro alargou este prazo até 25 de Abril.
O Decreto-Lei
53-A/75, de 11 de Fevereiro marca as eleições para a Assembleia
Constituinte para 12 de Abril.
IV
Março
foi um mês de intensa
actividade política.
Em
11 de Março de 75 , dá-se a tentativa de
golpe “de Spínola”. Spínola sai definitivamente de cena.
O ambiente
político é de intensa agitação, com grandes
movimentações na rua e intraportas .
A população
está agitada, receosa e suspensa. Tudo pode acontecer! Os militares
movimentam-se, os partidos mexem, a extrema-esquerda confunde. O caos,
onde tudo é imprevisível, parece estar próximo.
Uma
das reivindicações mais persistentes é a de que não
se realizem as eleições para a Assembleia Constituinte.
Ou, pelo menos, que sejam adiadas sine die .
Na
tarde desse dia (11 de Março) um grupo de militares tenta ser recebido
por Costa Gomes para apresentar as suas exigências. O Presidente
da Republica recusa recebê-los.
À
noite realiza-se uma assembleia “selvagem” do MFA. Reúne militares
totalitários e moderados. O General Vasco Gonçalves, chefe
do governo, participa; participam membros da Comissão Coordenadora
do MFA.
Costa
Gomes está presente e participa activamente.
A confusão
é total.O desempenho de Costa Gomes é decisivo.
Apesar
da confusão, são tomadas três decisões de extrema
importância:
Criação
do Conselho da Revolução , que será
o órgão politico supremo, criação da Assembleia
do Movimento das Forças Armadas e, milagre dos milagres,
Costa Gomes consegue – utilizando, em sábias proporções,
o seu prestigio junto dos militares, a sua inteligência arguta,
a sua capacidade negocial, a sua firmeza temperada com flexibilidade quanto
baste para ceder em pontos que, sendo muito relevantes, eram secundários
em relação ao seu objectivo fundamental de defender a democracia
assegurando que o povo pudesse exercer o democrático direito de
escolha em eleições livres – … Costa Gomes consegue que
a Assembleia assuma que as eleições para a Constituinte
devem realizar-se.
Em
14 de Março, pela Lei 5/75, é criado o
Concelho da Revolução e a Assembleia do MFA.
Em
14 de Março, pelo Decreto-Lei 132-A/75, são
nacionalizados os bancos.
Em
14 de Março , pelo Decreto-Lei 135-A/75, são
nacionalizadas as seguradoras.
Estávamos
no auge do período demencial do gonçalvismo. O PCP, os militares
da sua esfera e alguns oportunistas de fresca data avançavam a
todo o pano, aproveitando o vento e a maré.
Em
19 de Março , pelo Decreto-Lei 141-A/75, são
adiadas as eleições para 25 de Abril, data limite fixada
pela Lei 2/75 de 31 de Janeiro. As movimentações contra
a realização das eleições continuam, cada
vez mais vivas e agitadas.
Em
19 de Março , o Conselho da Revolução
nomeia o presidente das Companhias Reunidas Gás e Electricidade,
SARL., intervindo directamente na empresa (de capitais estrangeiros).
Em
26 de Março toma posse o 4º governo provisório
– mais
uma vez, Vasco Gonçalves é primeiro-ministro.
Em
Abril continuam as nacionalizações.
São
nacionalizadas
– empresas
do sector dos combustíveis – Cidla , Sacor ,Sonap;
– do
sector da electricidade – produção (hidroeléctricas,
centrais térmicas), transporte (Companhia Nacional de Electricidade)
e distribuição;
– do
sector dos transportes – CP, CTM - Companhia de Transportes
Marítimos e TAP;
– Siderurgia
Nacional
.
O Conselho
de ministros avança para a expropriação das propriedades
com mais de 500 hectares .
Vasco
Gonçalves e o PCP parece terem adoptado a ordem de Salazar treze
ou catorze anos antes: para a frente, “rapidamente e em força”
(que os tempos não estão para tibiezas).
V
Foram
tempos terrivelmente turbulentos.
No
auge da crise, Costa Gomes, presidente da Republica, fez uma comunicação
ao país assegurando aos portugueses que as eleições
se realizariam .
O povo
democrático respirou, ainda que muitas e justificadas duvidas continuassem
presentes.
VI
As
eleições realizaram-se, de facto, em 25 de Abril de 1975,
com resultados surpreendentes, até para os comunistas, ou, principalmente,
para os comunistas. (Creio que não, para Álvaro Cunhal)
Resultados
da votação .
a)
De 6 231 372 eleitores inscritos
nos cadernos eleitorais, votaram 5 711 829, ou seja 91,7 %.
Não
voltou a repetir - se uma tal participação!
Em
25 de Abril de 1975 , os portugueses tinham compreendido
que estava em jogo o futuro de cada um, e defenderam a sua opção
numa eleição democraticamente livre. De maneira exemplar!
Esta
vitória da democracia deveu-se, mais do que a qualquer outra pessoa,
ao General Francisco da Costa Gomes, Presidente da Republica.
b)
A repartição
das opções dos portugueses fez-se como segue:
PS
-
Partido Socialista
37,9%
PPD
- Partido Popular Democrático
26,4
PCP
- Partido
Comunista Português 12,5
CDS
- Centro Democrático
Social
7,6
MDP
- Movimento Democrático
Português 4,1
UDP
- União Democrática
0,8
Outros
partidos ( oito )
3,8
Brancos
e nulos
6,9
VII
O General
Costa Gomes , Presidente da Republica, secundado por
políticos e militares democratas, dando ao povo a oportunidade
de votar, tinham conseguido uma vitória esmagadora sobre a facção
totalitária da Revolução e colocado a democracia
ao alcance dos portugueses!
VIII
Em
25 de Abril de 1975 os sinos dobraram pelo PCP. Ferido pela manifestação
inequívoca da vontade popular, expressa em eleições
livres, lutou pelo poder até 25 de Novembro. Vencido, foi colocado
em câmara ardente pelo apurado instinto político de Melo
Antunes – o PCP só na clandestinidade seria verdadeiramente perigoso
para a estabilidade política do país.
Álvaro
Cunhal tinha, porém, razões para sentir verdadeiro "orgulho
comunista".
Num
só ano,
Tinha
criado um gigantesco sector empresarial do Estado, o que permitiu a governos
posteriores praticarem liberalidades injustificáveis;
Tinha
criado uma nova classe dominante, a dos gestores públicos;
Tinha
criado uma nova classe de trabalhadores privilegiados, a dos trabalhadores
das empresas públicas, em particular os das empresas que se encontravam
em situação de monopólio;
Tinha
satisfeito a encomenda russa, contribuindo para que as colónias
portuguesas fossem entregues a movimentos políticos dominados pela
Rússia (Infelizmente, a Rússia, mal agradecida, proibiu
os comunistas portugueses de terem qualquer interferência nos novos
países – paciência, a vida é assim!
Foram
postos em câmara ardente, por proposta ousada de Melo Antunes, mas
não se pode dizer que não tenham aproveitado bem o pouco
tempo em que o país acreditou que tinham com eles o poder do mundo.
De
resto, mesmo em câmara ardente o seu poder de influenciar continuou
activo.
27
de Dezembro de 2007
J.
Vicente Pinto
Nota
Na
luta que se travou entre 26 de Abril e 25 de Novembro de 1975 houve um
episódio, que, pelo que sei, ainda não foi contado, vivido
por um grupo de comunistas e afins que, no seu excesso de zelo, converteram
numerosos portugueses não comunistas em fervorosos anticomunistas,
dando, assim, uma contribuição não despicienda, para
a instauração da democracia em Portugal.
Fica
para outra ocasião!
{novo texto / imagens}
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