O INFORTÚNIO AFRICANO – MÁ GOVERNAÇÃO; TAXA DE CRESCIMENTO DEMOGRÀFICO ESMAGADORA

 

 

Geográfica e politicamente há duas Africas: a África virada para o Mediterrâneo e a África ao Sul do Sara. Neste texto, quando digo África, refiro-me sempre à segunda.

 

 

Em “Isto é África. Conheça o Ibrahim Índex …” dizia eu :

 

Os agentes de angariação de fundos para África estão em toda a parte, com especial incidência na União Europeia. Alguns actuam em nome individual, muitos agrupados em associações sem fins lucrativos; alguns são políticos, outros são comerciantes, outros industriais, outros financeiros; também há jornalistas e políticos fora de actividade. Muitos estarão de boa fé; muitos estão a tratar da vida e haverá, de certeza, quem procure juntar o útil ao agradável.

 

Alguns dão ou investem o seu próprio dinheiro; a maioria luta para que seja dado o dinheiro dos contribuintes dos seus países.

 

A maior parte dos governos africanos querem a ajuda, mas, cheios de empáfia , não querem qualquer controlo e recusam-se a prestar contas.

 

Os doadores nunca chegam a saber quais os resultados da aplicação das suas doações.

 

Os políticos em exercício dos pises doadores dançam na corda bamba apertados por muitos e fortes e divergentes interesses, incluindo os seus próprios.

 

Acrescento agora:

 

A Europa Ocidental é o maior doador para África. Os pedidos e os incitamentos a que a Europa dê, e dê mais, e as censuras se não der, são cada vez mais intensos e recriminatórios. As Igrejas pedem à Europa que dê, os bons corações também, os eventuais beneficiários do que escorre destas esmolas, idem. O secretário-geral da ONU junta a sua voz.

 

Os gestores do saco das esmolas, funcionários profissionais da ONU e de outras entidades internacionais, muitas vezes altos políticos retirados da actividade nos respectivos países, todos juntos, puxam também no mesmo sentido.

 

De facto, é inegável que os africanos precisam da caridade europeia, mas a caridade europeia, a parte que chega às suas mãos, pode contribuir para a sua sobrevivência, minorando o seu sofrimento, mas não resolve os seus problemas nem ajuda a construir o seu futuro.

 

II

 

A Europa Ocidental já ultrapassou o nível da ajuda que pode dar e o volume da sua caridade por africano será, inevitavelmente, cada vez menor.

 

Explico :

 

Em 1950 , a África ao Sul do Sara tinha 183 milhões de habitantes

Em l950 , a Europa Ocidental tinha 304 milhões de habitantes

 

Ou seja, em 1950, por cada 10 europeus havia 6 africanos

 

Em 2002 , a África ao Sul do Sara tinha 687 milhões de habitantes

Em 2002 a Europa Ocidental tinha 392 milhões de habitantes

 

Ou seja, em 2002 , por cada 10 europeus havia 17 africanos.

 

Pense nisto, se é que nunca tinha pensado!

 

III

 

Do que fica dito podemos retirar alguns ensinamentos.

 

Primeiro:

 

A ajuda da Europa à Africa, per capita africana, será cada vez menor – o número de africanos não pára de crescer; as dificuldades da Europa para resolver os seus próprios problemas, que dirigentes políticos sem dimensão são incapazes de equacionar e, muito menos, de resolver, não param de aumentar.

 

Segundo:

 

A África, ela própria., tem que encarar e resolver as suas dificuldades, a primeira das quais é encontrar dirigentes capazes , corajosos e honestos (Joaquim Chissano foi, é, um modelo exemplar, mas raro) e a segunda, não menos importante e urgente, suster o crescimento populacional.

 

Terceiro:

 

É altura de acabarmos de vez com a “cantata” entoada por africanos pouco honestos e por europeus não mais honestos, com o coro de corações compassivos e cabeças sem discernimento, de que os europeus são os responsáveis pelos males da África.

 

A descolonização tem cinquenta anos.

 

As duas grandes pragas africanas - governação generalizada de má qualidade e o crescimento vertiginoso da população - pouco ou nada tem ver com a Europa

 

Para os que não tem presente a realidade populacional da África seguem-se alguns números impressionantes.

 

IV

 

A esmagadora taxa de crescimento da população mundial é problema que, em maior ou menor grau, flagela todo o mundo em desenvolvimento. Mas , em África atinge o zénite.

 

A população da África ao Sul do Sara era

 

Em 1950     183 000 000 de habitantes

Em 1960     227 000 000 (+ 43 000 000 )

Em 1970     291 000 000 (+ 63 000 000 )

Em 1980     382 000 000 (+ 92 000 000 )

Em 1990     508 000 000 (+125 000 000 )

Em 2002     687 000 000 (+179 000 000 )

 

Acréscimo da população em 52 anos     504 000 000 - a população quase quadruplicou (x3,75) neste meio século.

 

Para dar uma resposta ainda que mediocre a uma situação destas, teria sido necessária uma governação competente e íntegra e uma população disciplinada e trabalhadora, o que, de uma maneira geral, não houve. Teria que haver paz – não houve!...E não foi por ataques externos. São ao africanos que se destróiem uns aos outros

 

Teria que ser ultrapassada uma enorme muralha de gente sem escolaridade nem qualquer formação profissional, teria que ser combatida com êxito a acumulação de pessoas em grandes aglomerados urbanos, constituídos, basicamente, por “barracas” sem mínimas condições de habitabilidade, de que Lagos com 10 milhões de habitantes é o expoente. Teria que…teria que…, teria que…haver, mas, na realidade, não …houve! E a infortunada população africana sofre

 

E, pior que tudo, o sufoco do crescimento populacional é um obstáculo intransponível na luta contra todos os outros males de África.

V

 

Mas o pior ainda pode estar para vir, se os governos africanos não agirem muito rapidamente.

 

O U.S. Census Bureau prevê que a população da África ao Sul do Sara continue a crescer:

2002                      804 000 000 de habitantes

2025                   1 036 000 000

2050                   1 531 000 000

 
   

VI

 

Se a Europa quer, verdadeiramente, ajudar a África, deve concentrar o seu auxílio no combate ao crescimento populacional. É um alvo vital em que há muito a estudar, a experimentar, a fazer;

 

È indispensável conter o crescimento populacional, mas impõe-se que este objectivo seja atingido com o mínimo de sofrimento para as populações e, se possível, com a sua adesão e colaboração. Nunca deveremos esquecer que estamos certamente a ir contra as suas ideias, os seus costumes e, possivelmente, contra o que consideram os seus interesses. A África não pode vacilar no objectivo de reduzir o crescimento populacional, mas há a obrigação de reduzir ao mínimo o sofrimento dos visados e os efeitos perversos deste objectivo vital (para a África e para a Humanidade

 

 

NOTA - Só um país – a China - tomou consciência do carácter destrutivo do sobrepovoamento e tomou medidas para o combater. È um combate que dura há mais de vinte anos. Foram obtidos resultados, mas acompanhados de efeitos perversos e grande sofrimento. A prática chinesa, ainda que realizada em meio completamente diferente do africano, merece ser analisada. Para que se evite, na medida do possível, repetir erros que já foram cometidos.

 

 

19 de Maio de 2008

 

J. Vicente Pinto