OS IRLANDESES , em 12-06-2008 , E O TRATADO DE LISBOA

 

 

1ª; edição, 13-06-2008 , in Sol.sapo.blogs.vicentepinto

 

 

Em 01 de Maio escrevi o texto “Eu, os irlandeses e o Tratado de Lisboa” que publiquei

 

em 1ª edição, a 04-05- 2008, in “Sol.sapo.blogs.vicentepinto” e

em 2ª edição, a 10 -05- 2008 in “www.favelaocidental.com

 

Hoje, o mundo teve conhecimento do resultado do referendo feito pela Irlanda, único país a referendar o Tratado de Lisboa. Os governos dos restantes membros da União Europeia optaram pela via da facilidade – a simples aprovação parlamentar.

 

Os votantes irlandeses recusaram o referido Tratado. De momento, o processo da Nova Europa está suspenso!

 

Apresento a seguir o texto escrito em 01 de Maio, seguido de algumas considerações a propósito, escritas hoje.

 

O assunto é de suma importância – está em jogo, no Mundo Novo em formatação acelerada, o futuro da Europa e dos europeus.

 

Não podemos demitir-nos. Temos; todos, obrigação imperativa de tomar posição, informada, discutida e ponderada. Na decisão da criação da Nova Europa todos temos que estar presentes, qualquer que seja a nossa posição. Todas as posições são legítimas desde que tomadas na consciência de que estamos a decidir por nós e pelos vindouros.

 

 

Texto de 01 de Maio:

 

“EU, OS IRLANDESES E O TRATADO DE LISBOA

 

I

 

O Público de ontem, em correspondência de Bruxelas, informava que, em dois meses , as intenções de voto dos irlandeses no que respeita ao próximo referendo para ratificação do Tratado de Lisboa, sofreram uma alteração notável.

 

A percentagem de indecisos manteve-se praticamente estável – aumentou 1 %, de 33 % para 34 % - mas as intenções de não passaram de 24 % para 31 % e as de sim desceram de 43 % para 35 % .

 

È uma estranha reviravolta da opinião dos irlandeses; tanto mais estranha quanto é certo que se trata de um tema fulcral do futuro dos europeus que vem a ser discutido há muito tempo.

 

O que faz os irlandeses reverem a sua posição e oscilarem na sua opção? O que os assusta?

 

II

 

O mundo e os equilíbrios do século XX estão mortos. Está em curso o seu enterro e em adiantados trabalhos de parto a formatação de um MUNDO NOVO.

 

A China está a afirmar-se como um gigante do futuro; os Estados Unidos permanecerão como um poder gigantesco. Nenhum estado europeu pode ombrear com qualquer destes dois poderes.

 

Hoje, a Europa (somatório das economias dos países-membros) é uma grande potência económica, mas não tem peso real na condução dos negócios do mundo. E, mais grave, a leveza da sua insignificância, conduzida como está a ser, só poderá agravar-se.com o decurso do tempo.

 

Caminhamos rapidamente para um mundo com duas cabeças imperiais, norteadas pela convicção, orgulho e ambição do poder hegemónico ou, simplesmente, pela necessidade de dar resposta a constrangimentos internos. A Europa sem peso, mais não é, nem será, que poeira ao sabor de ventos que outros desencadeiem. (Eu sei que haverá outros potenciais candidatos ao poder do mundo, mas, neste momento e nos próximos decénios, serão comparsas de segunda linha, sem peso decisivo.)

 

Duas cabeças imperiais constituirão, nesta pequena panela de pressão, sem controlo nem válvula de escape, rodopiando no espaço, uma dupla em permanente e perigoso equilíbrio instável, a não ser no caso, improvável, de os deuses iluminarem os espíritos dos respectivos governantes conduzindo-os a um novo tratado de Tordesilhas.

 

Mas, será o mundo de hoje capaz de produzir novas edições de D. João II, de Portugal, e Fernando e Isabel, de Castela? Não o creio!

 

E aceitaria o mundo de hoje a divisão explícita do planeta Terra em duas esferas de influência? Improvável!

 

III

 

A Humanidade tem que enfrentar, neste século, terríveis problemas de sobrevivência, quase todos resultantes da carga populacional excessiva e, mais alarmante ainda, do crescimento galopante da população mundial.

 

São problemas cuja solução só é possível mediante uma acção global e concertada, impensável num mundo instável, como será, inevitavelmente, o tal mundo de duas cabeças s de que falei acima, para o qual nos dirigimos em queda livre.

 

A banqueta em construção – E.U.A./China – só tem duas pernas, não permite estabilidade. O mundo precisa de uma terceira perna e só a União Europeia pode ser preparada em tempo útil para assumir esta responsabilidade.

 

IV

 

Sou europeísta, isto é, sem deixar de ser português, quero ser cidadão de uma Europa politicamente organizada, herdeira dos estados que nos últimos quinhentos anos contribuíram mais que nenhuns outros para a construção do mundo actual; quero ser cidadão de uma entidade política que faça parte da vanguarda do mundo, com potência económica, que já tem, princípios éticos e força militar para ter voz activa e respeitada na resolução dos problemas da Humanidade.

 

Sou europeísta.

 

Sou europeísta, mas tenho medo...

 

Tenho medo porque a Europa não tem políticos à altura das suas necessidades e das necessidades que o mundo vive e porque temo que a parte do seu povo cívica e politicamente degradada seja, já, demasiado pesada.

 

 

Os irlandeses estavam até há pouco do lado do Tratado de Lisboa.

 

Agora oscilam! Será que também têm medo idêntico ao meu?

 

Creio que a Humanidade precisa que nós, europeus, arrisquemos! Que arrisquemos, para sermos alguma coisa mais do que, simplesmente, um passado!

 

 

01 de Maio de 2008

 

J. Vicente Pinto”

 

 

Voltemos ao dia de hoje, 13 de Junho de 2008.

 

 

OS IRLANDESES , em 12-06-2008 , E O TRATADO DE LISBOA

 

 

A Irlanda recusou o Tratado de Lisboa. Os irlandeses não quiseram arriscar!

 

Lamento profundamente porque a construção da Europa ou avança rapidamente ou, perdida esta oportunidade, pode não haver tempo para outra. O comboio da formatação do MUNDO NOVO está em movimento acelerado e não vai parar. Está a passar por nós a grande velocidade e não tarda muito que vejamos afastar-se a última carruagem. Se ficarmos em terra, a olhar para o nosso umbigo, ninguém pode consolar-se dizendo que atrás deste outro virá. É possível, mas muito pouco provável!

 

Os irlandeses não quiseram arriscar e eu, lamentando a sua falta de ousadia, não posso deixar de encontrar algumas razões para os compreender.

 

A Europa carece de líderes que possam conduzi-la ao futuro que o seu passado merece. Líderes que pela sua capacidade (inteligência, imaginação, determinação, espírito de sacrifício e sentido do que tem que ser o espírito da Europa Nova – terceira perna, indispensável para o equilíbrio do Mundo Novo em gestação acelerada.) sejam aptos para dar à Europa uma voz que o mundo ouça e respeite e simultaneamente respeitem as tradições e a personalidade de cada uma das nacionalidades que a constituem, capazes de darem tempo ao tempo para o crescimento do novo homem europeu.

 

Líderes que cultivem o espírito de unidade europeia e ao mesmo tempo compreendam que as especificidades próprias de cada nacionalidade não podem ser banidas com algumas vassouradas canhestras e impulsivas

 

As especificidades enraizadas ao longo de séculos tem que ser respeitadas até que a convivência e a mistura dentro do espaço europeu as amacie e dilua.

 

Criar um sentimento comum de unidade dentro da diversidade de vinte e sete nacionalidades é trabalho para um século e tarefa para gigantes, dirigentes políticos de capacidades excepcionais, que, infelizmente, não estão à vista.

 

Quando hoje vemos o presidente da Comissão, que se perfila para mais um mandato ou, mesmo, para ser o presidente da União, não podemos deixar de nos perguntar: como político, que obra fez este homem? (No seu país, nada, salvo gerir magistralmente a sua carreira política).

 

E não me custa acreditar que não haja melhores candidatos, pois, muitas vezes, na competição supranacional, os melhores candidatos anulam-se uns aos outros e, numa espécie de conspiração tácita, aceita-se o mais amorfo dos propostos de segunda linha.

 

Posso compreender que o temor do risco possa ter conduzido os irlandeses a recusar o Tratado . Mas considero que não podemos deixar de correr riscos, a menos que nós, europeus, acabemos por aceitar que o nosso destino, para mal nosso e do mundo, seja acabarmos numa a apagada e vil insignificância.

 

 

13 de Junho de 2008

 

 

J. Vicente Pinto

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