POR QUE É QUE TODOS FALAM EM REDUZIR SALÁRIOS

 E NINGUÉM FALA EM ALONGAR O TEMPO DE TRABALHO?

 

 

Opiniões

 

 

Da VISÃO, 2 de Dezembro de 2010:

 

 

TEIXEIRA DOS SANTOS, ministro das Finanças

 

“ [O corte de salários no sector privado] reforçaria a competitividade.”

 

 

VÍTOR BENTO, presidente da Sociedade Interbancária de Serviços

 

“Para sairmos dele [do nó cego da economia], neste momento, o único caminhoé baixar salários.”

 

 

MEDINA CARREIRA, fiscalista

 

“Não me parece que deva ser feita uma correcção formal no privado. É difícil cortar quando os salários são já tão baixos e a pobreza deve ser uma preocupação”.

 

 

TEODORA CARDOSO, administradora do Banco de Portugal

 

É perigoso reduzir os salários numa economia como Portugal, seja no sector privado seja no sector público”.

 

 

Comentando

 

Teixeira dos Santos e Vitor Bento estão a pensar na exportação e, como não podem socorrer-se da desvalorização da moeda, propõem outra solução igualmente radical – cortemos nos salários!

 

Sendo competentes e experientes não ofendem a nossa inteligência dizendo: aumentemos a produtividade. Sabem que tem que ser essa a solução, mas também sabem que produtividade não se improvisa.

 

Dizem-nos: baixemos os salários!

 

Medina Carreira diz-nos: mas os salários já são baixos! E tem toda a razão! Baixar os salários é, com toda a certeza, uma fonte de sofrimento para muitos portugueses, pela redução da receita doméstica de muitas famílias.

 

E, nas palavras de Teodora Cardoso adivinha-se outra preocupação – a redução dos salários vai reduzir o consumo interno e, com uma alta probabilidade, o emprego.

 

 

Estamos em face de uma situação muito complicada em que o resultado da nossa decisão é um dado de que necessitamos para tomar a dita decisão.

 

 

De facto, estamos em face de um terrível dilema que só seria resolvido sem muita dor se pudéssemos aumentar instantaneamente a produtividade.

 

Só esta solução, impossível no imediato (mas pela qual é imperativo lutar desde já para que no médio prazo tenhamos resultados), poderia dar-nos uma ajuda eficaz.

 

Impossível? Tenhamos a “ousadia” de fintar esta impossibilidade!

 

Aumentar a produtividade: é aumentar o que produzimos em cada hora do nosso labor, é aumentar o que produzimos por cada euro do nosso salário, é reduzir o peso do nosso salário em cada unidade produzida, é baixar o custo unitário da nossa produção, bem ou serviço.

 

 

Se não podemos aumentar a produtividade instantaneamente, como é que podemos, em muito curto prazo, baixar o custo da mão-de-obra integrado na nossa produção?

 

A resposta imediata, fácil e um pouco comodista é, sem ter em consideração os “custos” para a economia dos trabalhadores e esquecendo as consequências para a economia do país, baixemos os salários.

 

Não! Não é solução!

 

Temos que encontrar outra saída.

 

Para comermos o que comemos hoje; quero dizer, para mantermos o consumo e “segurarmos” o emprego -  não podemos baixar os salários.

 

Para aumentar as exportações e conseguirmos reduzir a dívida externa e recuperar o emprego, temos que baixar os custos, e para baixar os custos só temos uma via, trabalhar mais tempo pelo mesmo salário.

 

 

 

Sem nos esquecermos, e isto é importante, que competitividade não é feita só de produtividade! É também feita de gestão e de perícia comercial. E de governo!

 

 

 

NOTAS IMPORTANTES:

 

Tudo dito de uma maneira muito esquemática e sem evidenciar as dificuldades de concretização. E com a esperança de que tenhamos governo capaz de distribuir a carga por todos e não só pelos trabalhadores.

 

Mas lembro-me da história da raposa que, presa numa armadilha, cortou com os dentes, a própria perna para escapar à morte certa.

 

Em tempo: para os trabalhadores dos escalões mais elevados cuja diminuição da receita não implica redução do consumo, considero que a redução do salário é via adequada.

 

 

 

4 de Dezembro de 2010

 

 

 

 

Joaquim Vicente Pinto          jotap@sapo.pt           www.favelaocidental.com

 

 

 

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