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PORTUCEL – NICOLAU SANTOS NO REINO DA FANTASIA
Expresso, 14 de Novembro de 2009, Nicolau Santos:
“PQP CHEGA
Este fim é alcançado através da entrada em funcionamento da nova fábrica de papel do Grupo Portucel Soporcel, uma unidade que cria 350 novos postos de trabalho altamente qualificados e que representará 4% do total das exportações nacionais. É o tipo de investimento de que o país necessita desesperadamente, pois cria bens transaccionáveis de alto valor acrescentado e empregos de elevadas qualificações. Além do mais, a coragem de Pedro Queiroz Pereira investir €550 milhões nos tempos que correm é um enorme exemplo para todos os empresários. Não se chegou aqui por acaso. O então ministro da Economia. Augusto Mateus, apostou na integração da fileira do papel, através da fusão da Soporcel e Portucel. Contratou um gestor privado, Jorge Armindo, para a concretizar, e depois o Estado privatizou a empresa. Os resultados são a prova de que quando se sabe o que se quer, se define o objectivo e se encontram as pessoas para o concretizar, a probabilidade de êxito aumenta exponencialmente. Um exemplo para meditar.”
Nota - Para quem não saiba: PQP é Pedro Queiroz Pereira
I
Introdução
Tenho a maior consideração por Nicolau Santos que considero um opinante informado, competente e honesto. Infelizmente, não posso concordar com a quase totalidade do que diz no texto acima reproduzido que me parece altamente fantasioso, ou, mais provavelmente, escrito sobre o joelho.
Trata-se de um pequeno texto cuja importância lhe vem da qualidade do seu autor e da publicação em que está inserido. Mesmo assim talvez se não justificasse qualquer comentário.
Acontece, porém, que estive muito ligado à privatização da Portucel.
Em 2003, o governo de Durão Barroso lançou a segunda fase da privatização da Portucel mas fê-lo de uma maneira tão canhestra e tão incompetente que previsivelmente conduziria a um desfecho lesivo dos interesses do país. Incompreensivelmente, o desenho da operação teve o apoio, até ao último momento, de Jorge Armindo, o gestor privado que tinha sido contratado para proceder à integração das duas grandes empresas do Estado – Portucel e Soporcel.
Para combater este processo de privatização criei o site www.favelaocidental.com, que é este em que está agora, cujos primeiros dez textos, entre Setembro de 2003 e Fevereiro de 2004, trataram da privatização da Portucel.
Resta-me dizer que esta 2ª fase da privatização da Portucel teve um fim feliz – o governo não conseguiu levar a sua avante e teve que emendar a mão lançando um novo processo. E neste novo processo que aparece o Sr. Queiroz Pereira.
II
Comentários
E torna o país líder europeu na produção de papéis finos de impressão e escrita não revestidos.
Esta maneira de dizer faz-me lembrar a história do burro do almocreve.
Por volta de 1900 havia um almocreve no Alto Minho que vinha todas as semanas a Caminha comprar sardinha que depois vendia na sua região. Normalmente comprava dois cabazes, carga adequada à capacidade do seu burro e à distância que tinha que percorrer para regressar a casa.
Naquele dia, porém, a qualidade da sardinha era tão boa como havia muitos anos não se via…e o preço era baixo! O nosso homem não resistiu. Depois de ter comprado dois cabazes comprou mais dois e, quando já tinha saído da lota, voltou atrás e comprou mais um. O pobre do animal ainda conseguia andar mas já trocava as pernas. Mas o almocreve não resistiu quando viu um cabaz com sardinhas ainda melhores do que todas as que tinha comprado. Deitou a mão a três, pensando: são para o meu almoço – e atirou-as para cima do burro. Neste momento, o burro, incapaz de suportar o peso daquela carga de cinco cabazes de sardinha, trocou definitivamente as pernas e foi-se abaixo.
O almocreve limitou-se a dizer: Que merda de burro que não pode com três sardinhas!
Mas, deixemos o almocreve e voltemos à nova máquina de papel. Na verdade não foi ela que tornou a Portucel líder europeu …etc, etc. etc.. O que fez da Portucel líder europeu foram as suas, dela, máquina, 500 000 toneladas de produção anual mais as 900 000 toneladas de papel que a empresa já produzia.
…da nova fábrica de papel … que representará 4% do total das exportações nacionais
Há aqui dois pequenos lapsos.
1º - Pelas minhas contas, estou a fazer contas de cabeça porque para estes comentários não é necessário “um rigor de duas casas decimais”, a exportação das 500 000 toneladas de papel deve andar à volta de 1,4 % do total das exportações nacionais.
2ª – Na realidade, significa menos porque para exportarmos estas 500 000 toneladas de papel temos que deixar de exportar à volta de 450 000 toneladas de pasta, matéria prima do papel.
É o tipo de investimento de que o país necessita desesperadamente, pois cria bens transaccionáveis de alto valor acrescentado e empregos [350] de elevadas qualificações
Na minha opinião, neste caso particular o investimento justifica-se plenamente mas, de uma maneira geral, eu diria que é o tipo de investimento de que o país deve fugir desesperadamente.
Em termos de emprego investir 500 000 000 de € para criar 350 empregos (talvez se justifique confirmar se são mesmo 350 empregos e, especialmente, se são 350 empregos todos de elevadas qualificações) só se pode justificar em situações muito particulares.
Investir 450 000 000 milhões de euros numa unidade de processo, adquirida no estrangeiro, para trabalhar matéria prima importada e produção a colocar no mercado externo, obriga a pensar duas vezes.
a coragem de Pedro Queiroz Pereira investir €550 milhões nos tempos que correm é um enorme exemplo para todos os empresários.
Aqui pouco há a dizer. A decisão não foi tomada nos tempos que correm. A privatização que impôs o investimento foi em 2004; a encomenda do equipamento foi feita em Outubro de 2007, depois de Queiroz Pereira ter conseguido de Sócrates uma ajuda de 175 000 000 de Euros. (Todos sabemos que para justificar este valor foi preciso integrar no pacote investimentos que já tinham sido feitos nos dois anos anteriores e que nada tinham a ver com a máquina para a produção de papel).
Os resultados são a prova de que quando se sabe o que se quer, se define o objectivo e se encontram as pessoas para o concretizar, a probabilidade de êxito aumenta exponencialmente. Um exemplo para meditar.”
A política de uma produção integrada a partir da floresta já tinha começado em Portugal muito antes de Augusto Mateus ser Ministro da Economia (o mérito de Augusto Mateus foi ter metido no mesmo saco Portucel e Soporcel e o de Jorge Armindo foi conseguir que o casamento se fizesse sem que a louça ficasse em cacos).
Na verdade, a Portucel/Soporcel que temos hoje resultou de um simples golpe de sorte – o facto de os pequenos accionistas da Portucel terem sido sensíveis aos que afirmavam, contra o que defendia o governo e Jorge Armindo, que o “projecto da Nova Portucel”, de Paulo Fernandes (Cofina), era um golpe contra os interesses do país e da empresa.
Estes pequenos accionistas quiseram e puderam. Sobre este raro acontecimento vale a pena meditar.
O caso da Portucel é, de facto, um exemplo para meditar, não no que respeita ao Sr. Queiroz Pereira mas para percebermos a miséria da actuação governamental no processo de privatização da Portucel / Soporcel.
18 de Novembro de 2009
J. Vicente Pinto jotap@sapo.pt www.favelaocidental.com {novo texto / imagens}
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