PRIVATIZAÇÃO DA PORTUCEL
PAULO FERNANDES, vendedor genial
Nota prévia
In PÚBLICO, 18 de Novembro de 2002, texto de Álvaro
Vieira:
Transcrição:
"O presidente da Portucel, Jorge Armindo, afirmou que a produtora
de pasta e papel pretende tornar-se o maior produtor europeu
de papel de escritório no prazo de um ano. Uma intenção
que terá estado na mente do Governo ao desenhar o figurino da segunda
fase da privatização da empresa."
Primeiro comentário:
Ninguém pode duvidar que o Dr. Jorge Armindo conhecia melhor
que ninguém quais os planos que havia, em Novembro de 2002, para
a expansão da Portucel o sector dos papéis de escritório.
E ninguém poderá compreender que tenha falado como falou,
sobre a intenção do Governo ao desenhar o figurino da segunda
fase da privatização, se não estivesse certo que
o Governo queria que se executasse esse plano.
Segundo comentário:
Hoje, (ainda não passou um ano!), o Governo, sob a acção
de um vendedor genial, vai, muito provavelmente, alterar os planos
que estavam em curso, lançando a Portucel, sem estudos aprofundados
nem ponderação adequada, numa aventura de elevado risco
e de consequências imprevisíveis.
Introdução
Há três anos, o Sr. Eng. Paulo Fernandes, estando já,
via Caima, na indústria da pasta para papel, começou a publicitar
o seu interesse em concorrer à privatização da Portucel.
Dado que a Cofina era, e é, um "pequeno" grupo (em relação
à dimensão do projecto), é muito possível
que o seu objectivo fosse mais limitado do que aparentava; eventualmente
, aumentar a notoriedade da sua imagem e a da Cofina e facilitar alguns
outros negócios mais modestos.
Quando o Governo lança a segunda fase da privatização
da Portucel (aumento de 25% do capital social) e avança com a extravagante
ideia de que tais acções fossem pagas com activos que, integrados
na Portucel, constituíssem para esta uma mais valia que superasse
a que poderia resultar de uma entrada em dinheiro, o Sr.Eng. Paulo Fernandes
encontrou-se na delicada situação de não dispor de
activos que lhe permitissem tomar posição significativa
no desenrolar dos acontecimentos.
De facto, só poderia mobilizar a floresta da Caima, tendo que
sacrificar este grupo, que, amputado da floresta própria que permite
o abastecimento de 50% das suas necessidades de matéria prima,
sairia de tal amputação profundamente fragilizado.
E o valor de tal floresta, estimado pelo próprio Sr- Eng. Paulo
Fernandes em 90 milhões de euros. não cobriria mais de 23
% do valor do aumento de capital da Portucel, que se cifrava em cerca
de 400 milhões de euros.
Faltavam-lhe activos que preenchessem os restantes 77 %.
Para que a Cofina entrasse na corrida à privatização
de 25 % da Portucel, o Sr. Eng. Paulo Fernandes precisava de encontrar
quem estivesse interessado no negócio e dispusesse de activos,
que satisfizessem as condições do caderno de encargos, no
valor aproximado de 300 milhões de euros.
Seria muito difícil encontrar entidade que estivesse em condições
de satisfazer estas condicionantes, e, além disso, estivesse disposto
a alinhar com a Cofina neste empreendimento. Parece que algumas diligências
foram realizadas mas, se foram, os resultados não se viram.
Já perto do fim do prazo para entregar as propostas, o Eng. Paulo
Fernandes e o fundo britânico CVC Capital Partners encontram-se.
De facto, não sabemos quem encontrou quem, mas, muito provavelmente,
foi o Sr- Eng. Paulo Fernandes quem encontrou o fundo.
Em boa hora!
O negócio 1ª parte
O CVC Capital Partners é um fundo britânico que tem
na sua carteira as acções de uma holding pasteira/papeleira,
a LECTA, com onze fábricas espalhadas por Espanha, França
e Itália.
Complexo possivelmente difícil de gerir e, talvez, de futuro incerto
- 3 países, 11 fábricas, 4500 trabalhadores, 16 máquinas
de papel em diferentes estados de uso, e segundo dizem, um mercado
o dos papéis revestidos com excesso de produção.
Não sabemos!...
...Mas sabemos que o fundo de investimento CVC Capital Partners quer
sair da Lecta e que, por outro lado, não está interessado
nas acções da Portucel.
Não conhecemos o teor das conversações entre o Sr.
Eng. Paulo Fernandes (ou seus representantes) e o Presidente do Conselho
de Administração do CVC (ou seus representantes), mas não
nos é difícil imaginar, partindo de acontecimentos posteriores,
o sentido das últimas frases:
O inglês
Fica claro! Nós não estamos interessados nas acções
da Portucel; o que queremos é desfazermo-nos da acções
da Lecta.
O português
Não há problema; vocês terão que ficar com
algumas acções da Portucel (9,5 %) em vosso nome durante
algum tempo e ... depois vendem-nas a dois bancos portugueses. O negócio
já está apalavrado com estes bancos.
O inglês
Será preciso que o vosso Governo autorize essa transacção!
O português
Para isso, estamos cá nós.
O negócio- parte 2
A segunda parte do negócio é de tal modo aberrante que
seria uma missão impossível para qualquer um que não
fosse um génio das vendas.
O Sr. Eng. Paulo Fernandes enfrenta a missão impossível
de vender à Portucel acções da Lecta no valor de
1700 milhões de euros ...
O processo de privatização está completamente ultrapassado
e pariu o GRANDE NEGÓCIO a venda à
Portucel de um grupo de empresas de valor incerto.
A missão é de incomensurável dificuldade porque
implica subverter toda a lógica do processo original, mas não
ultrapassa a inigualável imaginação e audácia
de quem a concebeu . O Sr. Eng. Paulo Fernandes tem uma dimensão
maior do que a missão que inventou e vai cumpri-la numa operação
magistral.
Há que fazer algumas manobras de diversão para que Governo
e povo se esqueçam da privatização da Portucel, de
modo que tal objectivo inicial passe para uma espécie de limbo
na memória de todos nós e o "negócio" entre,
de forma perversa e insensível, nas nossas mentes.
Já não se trata de privatizar a Portucel, já não
se trata de vender 400 milhões de euros de acções
da Portucel. Trata-se de conquistar a Europa; trata-se , é uma
oportunidade única, de conquistar o mundo!
A comunicação social pode dar uma ajuda e, na sua ingenuidade,
da-la-á, servindo ao público, na maior parte dos casos,
sem uma palavra de clarificação, uma mistura indestrinçável
de informação com desinformação.
Estamos numa nova época de 500 mostrando ao mundo o nosso vigor
e ousadia e não podemos assustar-nos se a operação
custa 1700 milhões de euros. Não podemos perder tempo a
analisar com cuidado os activos que vamos receber; não há
que ponderar as dívidas que vamos assumir. Não nos perguntemos
como vamos governar o novo barco, nem se tal barco é governável.
Se necessário, alguém há-de assumir o ónus
da operação.... O Estado, naturalmente! E, menos naturalmente,
os accionistas da Portucel, excepto aquele que sempre sairá a ganhar.
O fundo de investimento CVC Capital Partners também será
ganhador; coloca as acções da Lecta, que quer
vender - e não tem que ficar com acções da Portucel,
em que não está interessado
Ironia do destino é autor deste projecto de envolvimento
do Estado e da Portucel numa operação de desmedida dimensão
e consequências imprevisíveis, nas costas dos seus
accionistas que o próprio Estado manieta, o Sr. Eng. Paulo
Fernandes que há poucos meses se opôs com veemência
à nomeação de dois administradores para a Portucel
com o argumento de que o Estado não pode criar situações
novas no decurso do processo de privatização;que alterações
da situação preexistente é matéria da competência
do novo corpo accionista a sair da privatização.
A nomeação de dois administradores, que em qualquer altura
podem ser neutralizados pelos accionistas, é crime de lesa accionistas
mas o envolvimento da Portucel numa operação de alto risco
é um acto meritório!
Não falando já na aberrante situação de o
Estado estar a desinvestir na Portucel, valor seguro, e a investir na
Lecta, valor problemático dadas as circunstâncias.
Acresce que a compra das acções da Lecta muito provavelmente,
por melhor preço é uma transacção que
a Portucel (e o Estado) pode fazer uma vez encerrada a presente operação
de privatização o fundo de investimento CVC Capital
Partners está vendedor e... compradores, para uma operação
com as características e dimensão desta, não abundam.
Pela proeza única de gizar e executar o plano de venda das
acções da Lecta (1 700 milhões de euros)
à Portucel, quando o objectivo do Governo era vender 400 milhões
de euros de acções da Portucel, considero que o Sr. Eng.
Paulo Fernandes se revelou um estratego impar e um vendedor genial (mesmo
considerando que teve pela frente um comprador que, tudo no seu comportamento
o indicia, atravessa uma grave crise...).
09-09-2003
Vicente Pinto
vicentepinto@netcabo.pt
Post scriptum, em 14 de Setembro de 2003
Nos últimos dias tem havido, na comunicação social,
uma pletora de informação e desinformação
sobre a evolução do processo que, se não teve como
objectivo baralhar e tornar mais incompreensível e menos fiável
tudo o que ao tema diz respeito, teve essa consequência.
Há que aguardar até 23 que informações oficiais
permitam conhecer com um mínimo de verdade e rigor o ponto da situação.
Mas, desde já , impõe-se que retenhamos que a Cofina alterou
a sua proposta e reavaliou em baixa o valor atribuído aos "activos"
da Lecta
Esta reavaliação vem reforçar a presunção
de que a Lecta quer vender sem olhar a preço e/ou que o prémio
que estava disposta a pagar era tão exorbitante que pode absorver
a enorme redução agora feita na avaliação
inicial.
A menos que acreditemos nas fontes que abastecem alguns jornalistas,
como aquela que afirmou ao Semanário Económico, referindo-se
ao direito de preferência dado à Portucel, SGPS para comprar
futuramente 50 % do capital da Lecta: "É um direito que é
dado gratuitamente à Portucel, SGPS.".Ou
naquela que abastece o Diário Económicoque escreve: Fonte
oficial do consórcio explicou ao Diário Económico
que "a redução do valor deve-se a um
esforço grande do agrupamento para se aproximar do valor
do aumento de capital". A mesma fonte acrescentou que, "em termos
imediatos, realmente a redução de valor é de 1,2
mil milhões de euros, mas que na prática é menor,
devido a outras condicionantes da proposta", que se excusou, para
já, a precisar".
Que sorte! O Estado Português e o universo Portucel encontraram
finalmente o seu Pai Natal.
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