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RACISTAS, ANTI-RACISTAS. História do homem que pediu umas botas pretas
1ª edição, 04-04-2009
Meu avô Roque Vicente contou-me muitas histórias.
Hoje, estava a meditar sobre racismo quando me lembrei, a propósito, de uma delas. Vou contá-la para prazer e edificação do leitor.
Na aldeia havia um homem muito pobre (isto passou-se há mais de cem anos), João Alves, cavador de enxada, sem nada de seu. João Alves, órfão desde muito tenra idade e criado por uma avó velha e doente, tinha dois ídolos, pelos quais se deixaria matar se necessário fosse, a Senhora Dona Aurinda e seu filho, o senhor professor Costa, um solteirão que nunca tinha deixado de viver com a mãe, viúva desde os vinte e dois anos – uma família abastada, se medida pela pobreza da maior parte dos habitantes do lugar.
João Alves explicava a razão da sua adoração
Dizia: até aos dezoito anos, só tinha enchido a barriga, quando, ainda na escola, a senhora mandava uma criada chama-lo na hora do recreio e dar-lhe de comer.
O senhor professor porque, à força de cachações e puxões de orelhas e lições extra depois da Páscoa, o tinha obrigado a fazer a quarta classe, e a quarta classe lhe tinha permitido vir da tropa promovido a cabo, o que era o seu grande motivo de orgulho.
No Inverno, uns dois anos depois do João Alves vir da tropa, a Senhora Dona Aurinda morreu – João fez questão de ir ao enterro vestido de luto –seria uma maneira de honrar a memoria da sua benfeitora – mas não tinha fato nem botas.
Depois de bater a várias portas conseguiu um casaco e umas calças, peças desirmanadas mas escuras, que permitiam resolver a dificuldade. O problema das botas era mais bicudo. Por fim, conseguiu que o Alcino lhe emprestasse umas botas que tinham sido do pai, já morto há anos e que nenhum dos filhos tinha querido aproveitar, se é que eram aproveitáveis.
O caminho para o cemitério era um lamaçal e foi um sacrifício para todo o acompanhamento faze-lo, para mais debaixo de chuva intensa e forte ventania. Mas, enfim, a missão foi cumprida.
Como uma desgraça nunca vem só, o senhor professor morreu cerca de um mês depois.
João Alves viu-se confrontado com o mesmo problema que tinha tido um mês antes. Quanto ao casaco e calças não houve dificuldades – bateu às mesmas portas e foi de novo servido.
O grande problema era as botas.
Como explicou ao Sr. António Silva, moleiro, dono da azenha, quando lhe foi pedir umas botas pretas de borracha, até ao joelho, que este calçava quando tinha que se meter na água para libertar a roda da azenha encravada com os ramos que vinham na corrente,
Oh Sr. Silva! venho incomodá-lo! Quando foi da morte da Senhora, o Alcino emprestou-me as botas mas passei uma vergonha que o Sr. nem imagina. O Alcino ia ao pé de mim, no meio do povo, e, desde que entramos no caminho do cemitério até que chegamos, não parou de gritar de modo que toda a gente ouvia: C’um caraças, parece que vais a fazer de propósito, não metas as botas na lama; estou a ver que saem daqui sem concerto; e logo as botas que foram do meu pai. Como é que eu vou calar a minha mãe! Bem certo; quem empresta não melhora. Arranjei trabalhos para te fazer um favor, mas apanhaste-te servido e eu, agora, eu que me lixe! Vê-se bem que não és o dono delas. Se fossem tuas não as tratavas assim. Até eras capaz de as descalçar e ires com os pés na lama para as poupares.
Ah! Sr. Silva nem me quero lembrar. Foi uma vergonha que me fica para toda a vida.
O Silva ouviu sem abrir a boca. Limitava-se a abanar a cabeça, com movimentos curtos, para trás e para a frente.
Por fim, disse: Mas o que é que tu esperavas daquela besta1 Leva as botas! E está à vontade!
O tempo continuava chuvoso. A lama era a mesma. Só havia uma diferença: agora o João Alves ia junto do Sr. Silva, no meio de uma pequena multidão.
João Alves ia com mil cuidados para não sujar as botas emprestadas pelo Sr. Silva. No seu cuidado, dava pequenos saltos e fazia ziguezagues.
Infelizmente, o Sr. Silva estava atento e ainda não tinham andado cem metros já ele berrava com voz potente. Oh rapaz! mete os pés na lama, não tenhas medo de sujar as botas! Nem todos são iguais. Se estragares essas não tens que as pagar. Já estão pagas. Essas botas são minhas e eu não sou como certas bestas que andam por aí e não tem vergonha de fazer pouco de quem não tem nada. Está à vontade, conheci o teu pai ainda tu não tinhas nascido. Bom homem mas com pouca cabeça. É o destino!
04 de Abril de 2009
Joaquim Vicente Pinto roquevicente@gmail.com
2º edição, 26-04-2009
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