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SANTANA
E A COLECÇÃO FRANCISCO CAPELO
I
Quando
em 2003 a Câmara Municipal de Lisboa comprou a Colecção
de Design e Moda de Francisco Capelo não dei atenção
ao assunto.
Há
dois meses deparei-me com a acta da assembleia municipal realizada em
25 de Fevereiro de 2003, para “aprovar o protocolo de acordo para aquisição
da Colecção Francisco Capelo entre o Município de
Lisboa e Francisco Capelo Bernardo Rosário, …”
Apesar
de se tratar de um texto de 31 páginas dactilografadas e de ter
mais que fazer resolvi ler a referida acta.
II
Feita
a leitura conclui que a compra tinha sido uma decisão pessoal
do Dr. Santana, autocrática, descuidada, intempestiva e injustificável
.
Admiti
que estivesse a fazer um julgamento demasiado rigoroso. Reli três
vazes, sublinhando e anotando. A minha apreciação inicial
saiu reforçada.
Pus
a funcionar o meu processador mental de auto-censura e este disse-me:
PROVA e, se puderes, procura averiguar qual foi a verdadeira motivação
do Dr. Santana.
III
Ainda
que na sessão da Assembleia Municipal o Dr. Santana tenha feito
frequentes manobras de diversão e se tenha exaltado, sincera ou
fingidamente, e feito afirmações, que não provou,
que indiciam um total desconhecimento de matéria tratada ou um
intenso esforço de manipulação, tudo o que digo a
seguir é retirado da referida acta.
IV
Em
2002 (ou antes) surgiu um desaguisado entre o Dr. Francisco Capelo e a
Administração do Centro Cultural de Belém, onde a
Colecção constituía o Museu do Design; e o Dr. Capelo
iniciou um processo de desvinculação do contrato que tinha
celebrado, em 1999, com esta instituição.
O
Ministério da Cultura interveio no caso e entrou em negociações
com o Dr. Capelo, na procura de uma solução para o problema.
Estamos
em Dezembro de 2002. O Dr. Santana Lopes, sem dar cavaco a ninguém
– nem ao ministério da Cultura, nem à administração
do Centro Cultural de Belém, nem ao colectivo camarário
– firma com o Dr. Capelo um acordo para a compra da colecção
pela Câmara Municipal de Lisboa, tendo sido fixado o preço
de 6.666.667 EUR e acordadas as prerrogativas e poderes que o Dr. Capelo
manteria sobre a colecção, além de outros aspectos
d menor importância.
Cito,
da intervenção do deputado municipal Feliciano David (Acta:
fl. 9, linhas 29 a 40: “O filme, em termos cronológicos, e de acordo
com as declarações do Ministro à comunicação
social, é o seguinte: no dia 17 de Dezembro de 2002, na Comissão
Parlamentar de Educação, Ciência e Cultura, o Ministro
declara, e passo a citar…”não há qualquer problema entre
o Coleccionador e o Ministério da Cultura. O Protocolo tem sido
absolutamente cumprido” (Público, 18 de Dezembro de 2002), no dia
19 de Dezembro, o ministro apanhado de surpresa e quando interpelado para
se pronunciar sobre a compra da Colecção pela Câmara,
refere (passo a citar)”não sabia da solução encontrada
entre a Câmara Municipal de Lisboa e o proprietário da Colecção,
pois só soube do negócio depois de este ter sido formalizado”
(O Independente, 20 de Dezembro) acrescentando que “no final da tarde
de 4ª feira – 18 de Dezembro – procurava ainda agendar uma reunião
com o Capelo para resolver o “diferendo entre o Coleccionador e o Centro
Cultural de Belém.
A
compra foi um acto pessoal e autocrático do Dr. Santana .
O
preço fixado, que não tenho capacidade para apreciar, não
foi negociado – foi o exigido pelo Dr. Campelo com base numa só
avaliação
O
Dr. Santana, na sua pressa, limitou-se a aceitar as condições
postas pelo Dr. Capelo ( 6. 666.667 euros e, para o Dr. Capelo, poderes
majestáticos sobre a colecção, até aos seus
(dele) 65 anos e, a partir daqui, o cargo de presidente vitalício).
O Dr. Santana estava mesmo apertadinho!...
A
aquisição da colecção foi um acto descuidado,
impróprio de um gestor atento e diligente na defesa dos interesses
do seu patrão.
V
A
intromissão do Dr. Santana no momento em que o Ministro da Cultura
estava a tratar com o Dr. Capelo não é admissível;
mas permite-nos conhecer melhor a sua personalidade.
Por
outro lado, o Dr. Santana tinha a informação vinda do Conselho
de Administração do CCB de que este Conselho não
considerava resolvido o contrato com o Dr. Capelo. Mas passou por cima
desta informação, diz, porque o Dr. Campelo lhe garantiu
que estava. Note-se que este procedimento ainda é mais extravagante
se acreditarmos na afirmação do Dr. Santana de que o Prof.
Fraústo da Silva era, para si, como um irmão de seu pai.
A
entrada do Dr. Santana nesta matéria e a sua decisão de
comprar a Colecção Capelo foi intempestiva
VIa
O
Dr. Santana justifica a sua intervenção e a compra da Colecção
para evitar que fosse vendida para o estrangeiro. O Dr. Santana e os seus
peões de brega fazem afirmações que não provam
ou são manifestamente falsas (por exemplo que o Centro Pompidou
estava disposto a pagar 15.000.000 EUR pela Colecção).
Na
realidade, a Associação da Moda e Design, proprietária
da colecção quando da celebração do contrato
com o Centro Cultural de Belém estava vinculada a esse contrato
até fins de 2008 e, consequentemente, o comprador não poderia
dispor da Colecção até essa data. Esta situação
e as exigências do Dr. Capelo sobre o seu poder futuro sobre a Colecção
tornavam altamente improvável a sua venda, e quase impossível
a curto prazo.
Os
moinhos de vento com que o Dr. Capelo estava a lutar eram uma criação
da sua imaginação.
De
facto, o Dr. Santana comprou a Colecção por razões
que não existiam, isto é, para já, sem qualquer justificação
válida de estar em perigo de venda para o estrangeiro
VIb
O
Dr. Santana Lopes acrescenta outra razão para a sua decisão
de comprar – Lisboa precisa de ter colecções para poder
entrar, por permuta, no circuito de exposições internacional.
E
dá exemplos: “a colecção exposição
de fotografias do fotógrafo Mário Tesstine , que estava
em Londres; a colecção que misturava Matyse (
sic ) e Picasso, que estava em Londres, estava agora em Paris e ia em
Fevereiro para Nova York .” E acrescenta “E como entrava Lisboa nesse
circuito? Obviamente podendo oferecer algo em permuta.”
Infelizmente,
parece ter esquecido que a sua colecção é de artes
decorativas e composta, em quase 50%, por cadeiras.
Mais
avisado andou o Dr Capelo, gestor cultural da Colecção,
em 18-05-2006, em declarações à LUSA, quando questionado
sobre a possibilidade de internacionalização da exposição,
disse:
“
As peças estão num estado impecável.
Se viajarem há o risco de se estragarem. Quem quiser ver venha
a Lisboa visitar . ”
Lá
se foi pela sarjeta, …pela boca de quem sabe…, um argumento fundamental
(“a permuta”) do ingénuo ou incompetente ou manipulador Dr. Santana.
Àparte
. –
Mais
uma vez o Dr. Capelo mostra a sua inteligência. Assumida esta posição,
afasta a hipótese, deprimente, de não haver ninguém
interessado na “permuta”.
Como
vemos, o Dr. Santana comprou a Colecção mas não conseguiu
apresentar nenhuma razão válida para o ter feito.
VII
Chegados
aqui, estamos confrontados com um desafio altamente estimulante: que
motivação fez correr o Dr. Santana
Eu
direi, está tudo na acta da Assembleia Municipal; basta saber ler!
Como
segue;
Em
2002, em data incerta, o Dr. Santana Lopes abordou o Primeiro-Ministro
e o Conselho de Administração do Centro Cultural de Belém,
propondo (exigindo?) que a Câmara de Lisboa (ele próprio)
passasse a ter uma palavra a dizer na programação do Centro.
Esta
era uma ideia fixa do Dr. Santana.
(VER:
Acta: fl 7, linhas 26 a 32 e : fl 18, linha 5)
A
resposta , se é que houve resposta, não lhe deve ter sido
favorável; o que é certo é que, depois desta abordagem,
o Dr. Santana entra em acção directa e secreta.
A
ocultas do Ministro da Cultura, que estava em negociações
com o Dr. Capelo, e do seu “quase tio” Prof. Fraústo da Silva,
presidente do Conselho de Administração do CCB, CCB que
estava em litigio com o Dr. Capelo, que lhe podiam prejudicar o projecto,
compra a Colecção Capelo.
A
propriedade da Colecção dar-lhe-ia peso para forçar
a entrada no círculo íntimo do CCB.
Extravagantemente,
não cuida de lugar para alojar a Colecção. Mas este
facto não é um problema, é, pelo contrário,
para ele, uma vantagem.
O
Dr. Santana quer que a Colecção permaneça no Centro
Cultural de Belém.(e suprema afronta para o “tio” Fraústo,
tendo como gestor cultural, com poderes absolutos salvo o de a vender,
o homem que estava em litigio com o mesmo Centro)
(VER:
Acta: fl. 7, linhas 25 e 26 e fl. 18, linhas 6 e 7)
De
facto, a Colecção fora do Centro Cultural de Belém
seria inútil para o seu objectivo de forçar a entrada no
alto nível decisor desta instituição..
CONCLUSÃO,
com uma altíssima probabilidade de estar correcta:
O
Dr. Santana Lopes comprou a Colecção Francisco Capelo para
satisfazer um projecto de poder no Centro Cultural de Belém.
12
de Julho de 2006
J.
Vicente Pinto
Off
record :
Quando
foi feito o contrato com o Centro Cultural de Belém o proprietário
da Colecção era a Associação de Moda e Design.
Quatro anos depois, a Câmara Municipal de Lisboa comprou a Colecção
ao Dr. Francisco Capelo.
Entre
estas duas operações a Colecção mudou de proprietário,
por venda ou doação, pelo menos uma vez.
Perguntas
ao Ministério das Finanças : Foram liquidados os
impostos devidos? Qual o valor da Colecção considerado na
liquidação desses impostos?
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