|
SÓCRATES
E A COLECÇÃO BERARDO
I
Passaram
seis meses sobre a intervenção do Senhor Primeiro-Ministro
no caso Colecção Berardo. Creio que já estamos suficientemente
afastados para podermos analisar essa acção do Sr. Eng.
Sócrates, tirando adequadas conclusões e ensinamentos para
bem de todos nós, incluindo neste nós o próprio chefe
do Governo.
Na
minha opinião, o Senhor Primeiro-Ministro actuou neste caso de
uma maneira voluntarista e imponderada e tomou decisões definitivas
sobre matéria que conhecia mal, com consequências que só
poderão ser totalmente avaliadas daqui a dez ou quinze anos, mas
algumas das quais podem ser desde já identificadas.
Tenho
consciência de que estou a fazer afirmações graves,
mas faço-o como um imperativo cívico pois considero que
alguém tem que pôr esta situação em evidência
ao Senhor Primeiro-Ministro para que ele possa meditar sobre o assunto
e pôr um travão neste seu pendor de personalidade.
Não
tenho com isto nenhum objectivo que não seja ajudar a corrigir.
II
A
entidade governamental que estava a tratar com o Sr. Berardo era a ministra
da Cultura. É compreensível que o Senhor primeiro-ministro
dê instruções à Senhora ministra da Cultura.
É compreensível que chame a si assuntos da Cultura. É
compreensível que trate publicamente problemas da Cultura se assim
o entender conveniente.
Não
é compreensível que dois dias depois da Senhora ministra
ter dado uma entrevista ao Expresso em que faz o ponto da situação
do affaire Colecção Berardo e informa
de qual é a posição dela própria sobre o assunto,
o Senhor Primeiro-Ministro receba o Sr. Berardo e tome decisões
que contrariam tudo quanto a Ministra tinha acabado de dizer.
Estes
estranhos acontecimentos mostram que houve uma evidente descoordenação
entre o Senhor Primeiro-Ministro, na sua intervenção pontual,
e a Senhora Ministra que gere (geria) em permanência o dossier Berardo.
Acresce
que o Senhor Berardo não se coíbe de declarar publicamente
que anda de luto pela Cultura nacional, o que não pode ser tomado
como um elogia à Senhora ministra e esta conforme se depreende
da referida entrevista também não morre de amores pelos
métodos do Sr. Berardo.
Este
ambiente exigia prudência e deveria ter travado um pouco os impulsos
voluntaristas do Senhor Primeiro-Ministro.
Estes
impulsos voluntaristas aliados a um manifesto desconhecimento do dossier
(como resulta do decurso dos acontecimentos posteriores) colocaram o Senhor
Primeiro-Ministro na difícil situação em que veio
a encontrar-se e de que não conseguiu sair.
Não
sabemos em pormenor o que o Senhor Primeiro-Ministro falou com o Sr. Berardo,
mas sabemos que se comprometeu a colocar a Colecção Berardo
no Centro Cultural de Belém. Uma promessa destas, que é
necessariamente o fecho de um processo, pressupõe a aceitação
pelo Senhor Primeiro-Ministro das exigências do Sr. Berardo com
excepção daquelas de que o Sr. Berardo abriu mão
na sua conversa com o Senhor primeiro-ministro.
Para
além disto sabemos o que foi dito posteriormente pelo Sr. Berardo
e que este se manifestou muito feliz pelos resultados do encontro.
III
No
seguimento do encontro entre o Senhor Primeiro-Ministro e o Sr. Berardo
o Governo informou o país de que iria apresentar a este Sr. uma
proposta.
Esta
informação parecia sibilina, pois seria, no pé em
que as coisas pareciam estar, mais uma formalização do já
acordado na reunião, com alguma coisa nova nos pormenores, pois
o fundamental teria ficado resolvido na conversa do Senhor Primeiro-Ministro
com o Sr. Berardo
Finalmente
o Ministério da Cultura apresenta a sibilina proposta e caí
o Carmo e a Trindade.
O
Ministério considera que o Sr. Berardo vai doar a sua Colecção
ao Estado.
Tal
nunca tinha passado pela cabeça do Sr. Berardo e este considera
que a proposta é saloia e que quem a fez lhe quer
deitar poeira nos olhos o que, consultados os dicionários,
pode significar chamar trapaceiros ao Senhor primeiro-ministro
e à Senhora ministra da Cultura. Por fim, tudo se acertou e o Sr.
Berardo tornou-se finalmente um homem feliz.
Mas
na verdade não estamos aqui para tratar do Sr. Berardo, pois não
é pelos milhões que o Sr. Berardo venha receber que o país
se afunda ou se salva!
V
O
caso que nos deve preocupar é outro.
Já
vimos que a intervenção do Senhor primeiro-ministro foi
um acto voluntarista.
E
podemos afirmar, pelo que se passou a seguir, apostando 100 contra 1,
que o Senhor Primeiro-Ministro não conhecia o dossier e, possivelmente,
a Senhora ministra – e com carradas de razão – não o esclareceu.
A
proposta entregue ao Sr. Berardo, a tal que considerava a doação
da Colecção, não pode ter sido feita sem o conhecimento
do Senhor Primeiro-Ministro; possivelmente foi ele próprio que
deu as instruções. Parece poder concluir-se que o Senhor
primeiro-ministro estava convencido durante a conversa com o Sr. Berardo
(ou este o convenceu por silêncios, reticências, sorrisos,
meias palavras pouco inteligíveis, etc., etc. que era assim) que
o Sr. Berardo iria doar a Colecção.
E
sendo assim porque que não devia fechar o negócio e informar
o Sr. Berardo que o CCB estava à sua disposição.
Ao
fazer aquela proposta ao Sr. Berardo, o Senhor primeiro-ministro denunciou-se
como um negociador extremamente ingénuo.
E
se é perigoso para um Primeiro-Ministro ser voluntarista e imponderado
e tomar decisões sobre matéria que não conhece bem,
é muito mais perigoso se, além
disso, é um negociador ingénuo.
VII
Ponho
a matéria deste texto à consideração do Senhor
Primeiro-Ministro porque penso que o país precisa que este Primeiro-Ministro
seja bem sucedido e este Primeiro-Ministro precisa de dominar alguns traços
da sua personalidade.
05
de Julho de 2006
J.Vicente
Pinto
{novo texto / imagens}
|