MÁRIO SOARES E AS PRESIDENCIAIS DE 2006

 

 

SOARES NÃO ERROU NO PROJECTO

– ERROU NA EXECUÇÃO

 

 

I

 

Antes da eleição, muitos consideraram a candidatura de Soares um erro.

 

Depois da eleição, não vi quem não considerasse que, além de um erro, tinha sido um erro inadmissível num político com o seu traquejo e a sua reconhecida habilidade e com um passado, a que nada era preciso acrescentar para ser notabilíssimo.

 

Soares sempre justificou a sua candidatura com o desejo de servir o país em momento difícil e, depois da humilhação do resultado, com facto de ter sido empurrado.

 

II

 

Acredito que tenha sido empurrado.

 

A sua corte estava em “perigo” iminente – o adversário Sócrates estava instalado no partido e no Governo, Alegre e os alegristas , isto é, os não soaristas e não socráticos preparavam-se para a presidência da Republica.

 

A corte de Soares iria ficar órfã, ainda que a reconversão, nalguns casos muito difícil, fosse sempre uma hipótese.

 

Não acredito que o empurrão tenha tido qualquer influência na decisão de avançar – Soares não é homem que se deixe empurrar, salvo se o empurrão o levar no sentido em que ele próprio quer ir.

 

III

 

Soares conhece bem o eleitorado português e “sabe” que os eleitores de “esquerda” excedem, ainda que por pequena margem, o número dos de “direita” e “sabe” também que na hora da verdade (2º volta) todos eleitores da “esquerda” votam à esquerda, ainda que não morram de amor pelo candidato.

 

Por outro lado, o seu instinto político e o seu raciocínio disseram-lhe, e muito acertadamente, que a “direita” não era imbatível – Cavaco é um prisioneiro da ética e a ética não faz bom cabelo aos políticos. Estava, naturalmente, convencido que Cavaco tinha pouquíssimas hipóteses de ganhar na primeira volta.

 

Considerou que Alegre não constituiria problema; se não desistisse, não tinha gabarito para se bater com ele – na pior das hipóteses repetia-se o caso de Zenha.

 

Soares apostava na 2ª volta; estava seguro de que haveria uma segunda volta. De outro modo não teria concorrido! Previa uma repetição de 1985.

 

Avançar não oferecia riscos que não valesse a pena correr. O seu instinto e o seu raciocínio estavam certos.

 

IV

 

Por outro lado, Mário Soares tinha, certamente, duas outras razões a empurrá-lo: o seu ego e a necessidade de relançar a continuidade política familiar.

 

E talvez se lembrasse dos 70% de quinze anos antes…e lembrava-se, sem dúvida, da recentíssima vitória absoluta do PS.

 

... E avançou no que a mim me perece, e sempre pareceu, uma jogada em que o prémio ultrapassava largamente o risco, desde que a execução não desmerecesse da qualidade da estratégia.

 

V

 

Bem! Mas se tudo estava previsto com tanta clarividência por que é que os resultados da eleição desmentiram a excelência do projecto e lançaram Soares na suprema humilhação dos 14 %?

 

Dois acontecimentos lançam a confusão no campo soarista – … Alegre avança resolutamente e as sondagens dão a Cavaco, desde o início, uma maioria absoluta e a comunicação social insinua que a sua vitória seria certa à primeira volta.

A presença de Alegre era um contratempo, mas, até certa altura, não foi uma preocupação; a partir decerto ponto da campanha, sim. A hipótese, que à partida parecia segura, de que Soares venceria Alegre, começou a vacilar.

 

As previsões das sondagens no que respeita a Cavaco eram alarmantes.

 

VI

 

Soares, contrariado nas suas expectativas, perdeu a cabeça, como já lhe tinha acontecido no passado – apoio do partido socialista ao general Eanes, eleição para a presidência do Parlamento Europeu, … -- e o pior da sua personalidade tomou conta de si. Não apresentou uma única ideia, se excluirmos a magra ideia da presidência de proximidade. Limitou-se a investir contra os seus concorrentes Cavaco e Alegre, mas fê-lo de maneira tão “imprópria” que se tornou odioso aos olhos de muitos eleitores. (Conheço socialistas que votaram Alegre, o que em condições normais nunca teriam feito, para “castigar” Soares. Admito que a actuação de Soares tenha dado votos a Cavaco))

 

VII

 

A campanha eleitoral foi um desastrado e irresistível suicídio de Mário Soares.

 

E, todavia, a estratégia estava certa! O candidato é que não esteve à altura do projecto!

 

Nota

 

Cavaco livrou-se da 2ª volta, à tangente, por 33 mil eleitores em quase 5,5 milhões, … e ninguém podia imaginar que Soares conseguisse reunir tantos inimigos no seu próprio campo!

 

 

15-09-2006

 

 

 

J. Vicente Pinto

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