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SÓCRATES
E O BCP E O BANCO DE PORTUGAL
Nota
prévia
No
pasmoso caso do Banco Comercial Português não há,
para já, culpados; há suspeitos. Em tudo o que digo a seguir,
esta realidade deve ter-se, sempre, presente .
E,
mais, deve ter-se presente que a probabilidade de haver culpados é
muito pequena.
I
As
“irregularidades” cometidas no Banco Comercial Português
– propositadamente não digo cometidas pelo Banco
Comercial Português – , na parte que já se conhece, lançam
sobre os seus, ainda não identificados, agentes um opróbio
para toda a vida. E a suspeita de que quem cometeu estas “irregularidades”
tem um estofo que lhe permitiria cometer quaisquer outras, desde que isso
servisse os seus objectivos.
E
o facto de terem sido tornadas visíveis de uma maneira acidental,
legitimam que um observador exterior e independente se pergunte: além
do pacote de “irregularidades” que já estão na praça
pública, quantas outras não estarão enterradas nos
arquivos e nas actas da instituição.
Mas
a situação é ainda mais grave.
A
descoberta das “irregularidades” já conhecidas não foi feita
pelo Banco de Portugal, supervisor do sistema bancário, cujo bom
desempenho das suas funções é o garante do funcionamento,
sem entorses, criminosas ou não, do referido sistema.
O
facto de o Banco de Portugal não ter detectado nada, de não
se ter apercebido de qualquer situação menos regular, é
um sinal objectivo de que o cumprimento das suas obrigações
de fiscalização foi deficiente ou de que o leque das suas
obrigações de fiscalização está mal
definido e, neste caso, as suas responsabilidades também não
podem ser escamoteadas, pois, se este é o caso, era sua obrigação
ter alertado a tutela para a deficiente definição das suas
competências e, eventualmente, dos seus meios para as cumprir cabalmente
II
Pelo
que acabo de dizer, considero que o governador do Banco de Portugal é,
neste processo, suspeito de gestão incompetente da instituição
que dirige.
E
considero que se impõe que o Parlamento, dada a gravidade e importância
do caso, nomeie comissão de inquérito que apure se há
responsabilidades ou não na actuação do Banco de
Portugal. Se sim, para que sejam tomadas providências adequadas
para minimizar a possibilidade de acontecerem situações
irregulares de tal gravidade; se não, para que o Banco de Portugal
seja totalmente ilibado de qualquer suspeita.
III
Por
mim, desejo formular mais duas ou três observações.
A
revista VISÃO, publicada anteontem, põe na boca do Sr. Governador
do BdP as seguintes palavras:
“É impossível ver os milhões de operações
de crédito que são feitas pelos bancos”
Concordo
inteiramente, mas permitam-me que refira, a propósito, uma pequena
história.
Há
uns cinquenta anos fiz uma visita de estudo à SNCF (caminhos de
ferro franceses). Contaram-me lá o seguinte caso:
Uns
meses antes tinham sido admitidas várias novas funcionárias
para o departamento de conferência das facturas de serviços
de transporte de mercadorias.
No
fim do mês, verificou-se, com surpresa geral, que uma das novas
trabalhadoras tinha um desempenho excepcional – não só tinha
conferido sozinha mais facturas do que metade do departamento como o montante
total das correcções feitas era quase igual ao de todo o
restante pessoal.
Grande
surpresa, grande alarido e ordem superior para que o caso fosse investigado.
A
rapariga dizia que tinha conferido todas as facturas que lhe tinham passado
pelas mãos, como mandavam as instruções de serviço,
mas, apertada, acabou por confessar que só conferia as facturas
de valor superior a x francos, que eram menos de um vigésimo do
total.
Ainda
segundo a VISÃO :
“Em breve, a instituição
reforçará a equipa de supervisão, para
evitar que casos como o do BCP voltem a escapar ao crivo da
sua fiscalização.”
Esta
informação é uma manifesta evidência de que
o Banco de Portugal não estava preparado para cumprir cabalmente
a sua função fiscalizadora. Possivelmente, navegava na ideia
ingénua de que somos todos sérios, honestos e cumpridores
das leis e dos regulamentos, ideia imprópria na cabeça de
quem tem a seu cargo fiscalizar e, principalmente, fiscalizar num jogo
que não é a feijões.
Por
fim, seja-me permitido mais um pequeno comentário que espero não
seja considerado abusivo.
Já
ouvi o Senhor Governador afirmar mais que uma vez que o país tem
que aumentar a produtividade. Estranho que a sua primeira reacção
em face do problema que o aflige seja aumentar o número de agentes.
Permito-me sugerir que, antes, seja revista a organização
dos serviços de fiscalização e, principalmente, sejam
revistas as metodologias em uso. Talvez esta via permita melhorar a qualidade
do serviço e reduzir o número de trabalhadores a admitir.
IV
Haver
ou não haver inquérito parlamentar à actuação
do Banco de Portugal no caso BCP, depende inteiramente do Sr. Eng. Sócrates;
não estou a falar do Senhor Primeiro-Ministro, estou a falar do
patrão do PS.
Admito
que o Banco de Portugal não tenha nada a temer de um inquérito.
Mas, a não haver inquérito, poderá sempre pensar-se
que o Banco de Portugal está a ser protegido pelo Sr. Eng. Sócrates.
Não é, a meu ver, boa imagem, nem para o banco, nem para
o seu governador, nem para o sistema bancário nem para o sistema
bancário.
25
de Janeiro de 2008
J.
Vicente Pinto
{novo texto / imagens}
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