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. . . SÓCRATES ESTÁ COM MEDO edição com informação complementar
1ª edição, 01-02-2008, in www.favelaocidental.com
É manifesto que Sócrates está com medo! . Sim?! Mas, medo de quem ou de quê?
É evidente que não tem medo de perder as próximas legislativas; tem medo de perder a maioria absoluta. Porque “sabe” que não é para a sua personalidade governar com um pequeno partido agarrado às canelas, e, além disso, não pode aceitar estar condicionado quando já foi senhor absoluto da cena. Para ele, essa será sempre uma situação vexatória. . Mas quem é que lhe mete medo?
Em primeiro lugar, destacado, Manuel Alegre. . Manuel Alegre e o seu grupo, depois de terem retirado Soares do sólido pedestal em que este julgava estar, estão altamente moralizados para atacar Sócrates. E Sócrates sabe que, além de razões de ordem “ideológica”, Manuel Alegre tem uma dívida a cobrar. . Mas há mais, a saída de Correia de Campos, mantendo-se o mesmo projecto, não faz sentido, nem mesmo para fingir que os contestatários foram ouvidos. . Correia de Campos era um bom ministro que tropeçou, basicamente, porque quis andar depressa demais (e pela maneira canhestra como tratou com a comunicação social). . Mas andar depressa demais é o estilo de Sócrates . Exacto. E não me admiraria que tivesse sido o próprio Sócrates a incentivá-lo nessa direcção. Dispensar o ministro deve ter sido uma decisão dolorosa e sacrificial que só o medo, o medo de perder votos, pode justificar. . O medo é destruidor mas, também, aguça o engenho. . Esse medo é justificação suficiente para a decisão de Sócrates de “libertar” Correia de Campos?
Correia de Campos estava lançado numa tarefa hercúlea que mexia com poderosos interesses instalados e ofendia preconceitos e ideias feitas dos utentes. E, fazendo, tinha, ele ou outro qualquer, inevitavelmente, de cometer alguns erros. . Sócrates, seguramente, sempre entendeu a delicadeza da tarefa e, hábil, manteve-se à margem. . Deixando-o partir (ou empurrando-o para a porta, ou combinando com ele a sua saída por razões estratégicas) Sócrates fingiu que cedia, o que poderá trazer-lhe alguns proveitos e alguma justificação para um pequeno compasso de espera. . Mas, de facto, foi o medo e um descuido, incompreensível, de Manuel Alegre que precipitaram este desfecho . Manuel Alegre falou na hipótese de criação de um novo partido e disse, erro fatal, que não seria difícil tirar a Sócrates 4 ou 5 % dos votos. Esta percentagem é modesta e, estou convencido, facilmente atingível, mas tem um mas… É preciso criar o tal partido. . Creio que esta afirmação fez soar, com mais intensidade, todas as campainhas de alarme no círculo interior do universo Sócrates e compreender a urgência de acção contra Alegre. E só há uma maneira eficaz de atacar Alegre – impedir que se concretize a ideia do novo partido. . E só há uma maneira segura de ferir este objectivo – atrair para o campo de Sócrates os mais ambiciosos e hábeis apoiantes de Alegre. . Todos os políticos sabem que político parado é, normalmente, político a morrer. E os apoiantes de Alegre sabem-no. E sabem, também, que Alegre não é futuro. . Mas Sócrates precisava de lhes der um aceno de abertura. E só a colocação de um deles em cadeira ministerial (se possível de relevo) seria um aceno convincente. E Sócrates resolveu faze-lo. E já! . Mas teve o cuidado de escolher um elemento de segunda ou terceira linha, como que a dizer aos da primeira: isto é um sinal não é um compromisso, é a vocês que eu quero na próxima legislatura. . As cartas estão lançadas. O jogo vai começar. . Ou, melhor, já começou; já houve, de certeza absoluta, algumas jogadas por baixo da mesa. . Alegre que se cuide! . Parece-me convincente!
01 de Fevereiro de 2008 . J. Vicente Pinto jotap@sapo.pt www.favelaocidental.com
edição, 10-01-2009
NOTA
O meu texto, acima, foi escrito há onze meses.
ADITAMENTO, escrito em 10 de Janeiro de 2009
Ontem, na sua coluna no Público, Vasco Pulido Valente escrevia
(transcrição; realces e disposição do texto, de minha responsabilidade)
Sócrates já começou a preparar activamente a próxima eleição geral. É hoje a única política dele e do Governo. Primeiro, como se esperaria, tratou do congresso. Donde tenciona sair com um apoio unânime e, se possível, isolar a franja radical e Manuel Alegre. Isto implicava a cooptação da “esquerda” e ele percebeu.
António Costa, um antigo apoiante de Alegre, vai ser o “coordenador” da “moção de estratégia a apresentar ao congresso, entregue a uma “equipa” em que também entra mais gente de Alegre (Vera Jardim, Osvaldo de Castro, Alberto Martins, Santos Silva, Jorge Lacão)
e alguma gente de Ferro: (Vieira da Silva e Pedro Adão e Silva)
Um pequeno grupo que pensava apresentar uma moção concorrente
(Paulo Pedroso, Maria de Belém, Ana Gomes, e por ai fora),
e que desistiu por falta de “condições”, acabou por aceitar o compromisso oficial. Uma parte foi para a Comissão de Costa. Outra parte, pensando com certeza no seu próprio futuro, deu por garantido um “debate sério”.
Ficaram de fora Manuel Alegre e João Soares.
(fim da transcrição)
Joaquim Vicente Pinto
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