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TENS RAZÃO, MAS A VIDA ESTÁ DÍFICIL PARA TODOS, DISSE O PROFESSOR
O que vou contar passou-se há uns cinquenta ou sessenta anos.
O professor era uma das figuras mais respeitadas da Faculdade de Direito. Homem de muito saber, catedrático considerado, jurisconsulto de topo, personalidade de referência, homem abastado e independente e, na política, respeitado por ambos os campos.
O professor tinha uma quinta na Beira, herança da mulher; raramente lá ia, nunca mais de uma vez por ano.
Bráulio era o caseiro; ganhava 140$00 por semana
Naquele Outono, o professor, de passagem para Salamanca onde ia fazer uma conferência, dormiu na quinta. Chegou à tarde e quis dar uma volta para desentorpecer as pernas e ver a natureza. Bráulio acompanhou-o.
Foram conversando, o professor perguntando e Bráulio respondendo, até que chegaram à represa. O professor parou e interrompeu a conversa. Ficou estático a contemplar a paisagem e a ouvir a água a cair.
Bráulio achou que tinha chegado a hora.
Havia quatro anos que o seu salário não era revisto.
Pediu licença ao professor para interromper a sua contemplação e expôs:
Que a vida estava cada vez mais cara, que as despesas com os filhos iam aumentando com a idade deles, que a mulher mesmo sem receber qualquer jorna também deitava um mão quando era preciso, que o seu ganho era o mesmo que há quatro anos atrás, enfim que a sua vida estava cada vez mais difícil e que só essa razão o levava a incomodar o senhor professor; que não era uma exigência mas que não podia deixar de falar ao senhor professor porque as oportunidades de o fazer eram poucas e, insistia, a vida estava cada vez mais difícil.
O professor ouviu Bráulio atentamente acenando com a cabeça como quem está de acordo. Ficou calado por momentos e depois disse:
Tens razão, a vida está cada vez mais difícil. Mas tu não és dos que estão pior – tens vinho quanto queres, tens batatas, tens milho, tens fruta. Tens de tudo o que a terra dá, à discrição.
Se a tua mulher quer por flores num solitário, ou em vários, não tem mais que colhê-las. Tu imaginas quanto se gasta em minha casa só em flores? Não; não imaginas. Perto de um conto por mês! A vida está difícil para todos!
Nota – Não inventei a história; tanta gente ma contou que acredito seja verdadeira
15 de Outubro de 2010
Joaquim Vicente Pinto jotap@sapo.pt www.favelaocidental.com
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