ÉTICA, PARA QUE TE QUERO?!

 

 

 

 

MELO ANTUNES ATRAIÇOADO?

 

 

 

Chamados a terreiro:

 

Maria Manuela Guerreiro, entrevistadora de Melo Antunes para o Projecto de História Oral, do Centro de Documentação do 25 de Abril; a entrevista foi vertida no livro MELO ANTUNES, O SONHADOR PRAGMÁTICO; co-autora, com Boaventura de Sousa Santos, do prefácio deste livro; responsável pela Cronologia pessoal com que termina o livro.

Boaventura de Sousa Santos, Director do Projecto de História Oral do Centro de Documentação do 25 de Abril; co-autor, com Maria Manuela Guerreiro, do prefácio de MELO ANTUNES; O SONHADOR PRAGMÁTICO.

Director Editorial Noticias (Editora do livro)

Director Editorial do Circulo de Leitores (Editora do livro)

 

 

 

Assunto:

I

 

Para mim como para a maioria dos portugueses, estou disso seguro, Melo Antunes foi um homem notável como ideólogo da Revolução e pela sua acção no pós 25 de Abril.

 

No Verão de 1975, no auge da proselitismo comunista de Vasco Gonçalves que, como as eleições mostraram, era repudiado por mais de 75 % dos portugueses, lançou, com alguns camaradas, uma réstia de esperança no coração de milhões que queriam o 25 de Abril mas não aceitavam o comunismo.

 

II

 

Em Março do ano passado , li o livro Melo Antunes, o Sonhador Pragmático, entrevista a Melo Antunes feita por Maria Manuela Cruzeiro, com prefácio desta senhora e de Boaventura Sousa Santos, edição do Circulo de Leitores. (Há uma outra edição da Editorial Notícias).

 

Com grande surpresa minha encontrei uma contradição, em matéria fundamental, entre afirmações feitas por Melo Antunes, e com as quais a entrevistadora parece concordar, e o que a entrevistadora escreve na “cronologia pessoal” com que encerra o volume.

 

III

 

Assim (páginas da edição do circulo de Leitores) :

 

Da entrevista, página 80:

(Melo Antunes) ” … porque entretanto, como disse, estava castigado nos Açores , incluído naquele grupo de oficiais que eles, eventualmente, consideraram que poderiam ter mais influência no desenvolvimento do processo.”

 

(M. M. Cruzeiro ) “E depois juntou-se lá consigo o Vasco Lourenço.”

 

Da cronologia pessoal ( M. M. Cruzeiro), página 347:

 

“1974

- 23 de Março. Parte para os Açores, onde fora colocado a seu pedido e donde acompanha o desencadear do Movimento juntamente com Vasco Lourenço (que entretanto para lá fora castigado )”.

IV

 

A discordância entre os dois textos é um facto de relevante importância – se Maria Manuela Cruzeiro fala verdade na transcrição da entrevista e na “cronologia pessoal” de Melo Antunes, Melo Antunes teve um lapso grave e Manuela Cruzeiro foi desleal com o entrevistado não lhe chamando a atenção para a contradição entre o que ele afirmou ter-se passado e o que ela considera que, de facto, se passou.

 

Se Manuela Cruzeiro se enganou na redacção da cronologia, deveria, logo que teve conhecimento do seu erro, por lealdade para com o entrevistado e respeito pelos leitores, dar público conhecimento do seu engano.

 

Em qualquer caso:

Lapso de Melo Antunes ou erro de Manuela Cruzeiro - os leitores tem o direito de ser alertados para a contradição referida e informados de qual das versões apresentadas é a correcta, isto, pelo menos, a partir do momento em a autora foi alertada para a situação…

 

Por outro lado, a memória de Melo Antunes merece de todos nós o maior respeito, respeito que exige que não se criem e mantenham situações dúbias A verdade, qualquer que seja, não afecta a dimensão de Melo Antunes. Mas, manter no livro esta contradição, fere a sua memória …. 

 

Nota final :

 

Em 31 de Março de 2005 escrevi, por carta registada, às quatro pessoas que no inicio chamei a terreiro, todas com responsabilidades na publicação, dando conta do erro que o livro contem.

 

Passou mais de um ano.

Acabo de verificar que o livro continua a ser vendido tal como foi editado, sem qualquer esclarecimento sobre o erro de que enferma, o que indicia uma inqualificável falta de honorabilidade ética das pessoas a quem escrevi, muito em especial de Maria Manuela Cruzeiro e de Boaventura de Sousa Santos.

 

Os autores do prefácio parece terem esquecido o que escreveram (pág.12/13) “ Razão acrescida para o orgulho de sentirmos que fora conquistado* para o desafio que lhe era proposto: falar livremente sem tutelas nem restrições, de tempo ou de assunto, do seu percurso público … da sua acção profundamente empenhada no tempo que lhe foi dado viver . E esclarecer tantos dos equívocos, meias verdades ou falsidades que sobre ele ainda persistem.”

 

* Melo Antunes

 

 

02-07-2006

 

 

J. Vicente Pinto